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Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 222

Cap.29

— O que você quer, exatamente? — perguntei, minha voz um fio.

— Quero te tocar. — Ela disse isso com uma honestidade brutal. — Quero ver se eu consigo. Se meu corpo deixar.

A ficha caiu.

Ela não estava dando em cima de mim. Ela estava usando a mim como cobaia. Como experimento.

E por mais que isso devesse me aliviar, afinal, eu era seu terapeuta, seu protetor, seu… o que quer que eu fosse, uma parte pequena e egoísta de mim sentiu um desapontamento absurdo.

Respirei fundo, forçando a mente analítica a assumir o controle.

— Então o que você quer é ver homens dançar. E conseguir tocar em qualquer homem sem sentir medo.

— É. — Ela concordou, séria.

— Então eu não vou te tratar nunca mais.

— O quê? Por quê?

— Porque se você conseguir isso com qualquer um, eu falhei como terapeuta. — A provocação saiu antes que eu pudesse conter. — O tratamento ideal é você conseguir isso com uma pessoa específica. Uma só. E depois generalizar.

Ela me encarou, processando. Lentamente, um sorriso malandro, de quem acabou de entender uma piada, surgiu em seus lábios.

— Então… você teria que ser suficiente.

A verdade doía porque era precisa.

— Teoricamente — murmurei, desviando o olhar.

— Átila. — Ela tocou meu queixo com a ponta dos dedos, forçando-me a encará-la novamente. — Você tá vermelho.

— Não estou.

— Tá sim. — Ela riu, um som cristalino e bêbado. — Parece uma criança.

— Você está bêbada.

— Estou corajosa. — Ela corrigiu, séria. — Tem diferença.

Fiquei curioso. Como psicólogo, como observador e também homem obcecado por entender cada camada daquela mulher.

— Fiquei curioso — admiti, minha voz mais calma agora, profissional. — Com a forma como você reage quando está assim. O que mais você sente vontade de fazer?

Ela pensou por um momento, os olhos passeando pelo meu rosto como se lesse um mapa.

— Coisas que eu nunca fiz.

— Como o quê?

Ela se apoiou em meus ombros novamente, na ponta dos pés. Desta vez, porém, não parou a centímetros. Foi até o fim.

Seus lábios encontraram os meus... ela me beijou?

Foi um toque leve, breve, quase um selo.

Apenas a pressão suave de sua boca contra a minha. Mas o mundo inteiro pareceu parar, suspenso naquele contato impossível.

Ela recuou, os olhos arregalados, surpresa consigo mesma.

— Consegui — sussurrou, incrédula.

Eu não conseguia me mover. Não conseguia pensar. Apenas sentia o fantasma de seus lábios ainda queimando nos meus.

— Faz de novo — pedi, a voz rouca.

Ela obedeceu. Desta vez, o beijo foi um pouco mais longo, um pouco mais pressionado. Ela manteve os lábios nos meus por dois, três segundos. Depois recuou novamente, com um sorriso triunfante.

— De novo — repeti, ainda sem reagir, apenas observando.

Ela riu, divertida com minha paralisia.

— Você só quer me ver beijar você, é?

— É análise. — A mentira era flagrante, mas eu precisava de alguma justificativa para aquele coração disparado. — Quero entender seu comportamento.

Ela me encarou, as mãos ainda firmes em meus ombros, o rosto tão perto que eu podia sentir seu hálito misturado ao meu.

— Interessante — murmurei, mais para mim mesmo do que para ela. — Você não tem medo quando está bêbada. O álcool desativa seus gatilhos de defesa primários.

— Tô falando. Corajosa.

Eu precisava testar uma hipótese. Precisava entender os limites daquela coragem química.

— Você gostou, hein?

— Estou analisando. — A defesa era fraca, e nós dois sabíamos, mas eu não estava fazendo só o que eu estava gostando, ela estava apreciando isso ainda mais que eu.

Ela se inclinou novamente, apoiou as mãos em meus ombros, e beijou-me. Desta vez, quando seus lábios encontraram os meus, algo diferente aconteceu. Havia mais pressão. Mais intenção. Mais calor.

Ela estava aprendendo a gostar e aprofundar por conta própria... ah Katleia... como você vai lidar com isso amanhã.

E eu estava aprendendo a odiar o fato de que aquele beijo só era possível porque ela estava bêbada.

Porque, sóbria, ela jamais teria coragem. Porque, sóbria, ela me veria como o terapeuta, o protetor, o homem que não podia tocar, mas... acho que eu poderia explorar e descobrir se sóbria ela não era assim.

Mas naquela noite, sob o efeito de duas taças de vinho e uma coragem líquida, Katleia me beijou, E eu deixei.

Não como terapeuta.

Como homem.

Como o idiota que, contra todas as evidências, contra toda a lógica e todo o meu próprio discurso de interesse clínico, estava começando a sentir algo muito, muito mais perigoso.

Ela recuou finalmente, os olhos brilhando, um sorriso bêbado e feliz no rosto.

— Consegui — declarou, triunfante.

— Conseguiu — concordei, a voz rouca.

Ela se levantou, equilibrando-se precariamente, e estendeu a mão para mim.

— Me leva para o quarto?

Olhei para sua mão estendida. Para seu rosto aberto, confiante. Para a menina-mulher que, naquela noite, havia me beijado e descoberto algo sobre si mesma.

— Vou — respondi, pegando sua mão com cuidado, sem apertar. — Mas amanhã você vai lembrar de tudo? Como vai lidar?

— Espero que sim — ela disse, enquanto caminhávamos devagar pelo corredor. — Quero lembrar que eu consegui beijar alguém e foi bom. Eu beijei Atila, eu beijei Atila. — Ela cantava feliz, confesso que meu coração fio quem queimou dessa vez e foi bom.

No silêncio da noite, conduzindo-a até seu quarto, segurando sua mão como se fosse um pássaro frágil, eu soube que jamais esqueceria aquela noite. Não importava o quanto tentasse.

Ela conseguiu e, se pudesse sairia saltitando dizendo que me beijou.

E eu? Eu não tinha conseguido nada. Apenas descobri que estava perdido e fodido de verdade agora.

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