Cap.30
O Limite da Razão
Pov. Atila
Chegamos à porta do quarto dela. Eu já estava calculando a distância até meu próprio quarto, o tempo necessário para um banho frio, as desculpas que daria a mim mesmo na manhã seguinte.
Foi quando ela parou.
Virou-se para mim com aquela expressão de cachorro molhado, os olhos enormes e brilhantes, os lábios curvados numa súplica silenciosa. Parecia uma criança prestes a pedir um doce, mas havia algo naquele olhar que não era infantil.
— Tem mais uma coisa — ela disse, a voz pequena, hesitante.
— O quê?
Ela torceu as mãos, um gesto nervoso.
— Tá no meu quarto.
Cruzei os braços, um sorriso irônico surgindo em meus lábios.
— Você é meio tarada quando está bêbada, Katleia. Não sei se vou querer descobrir o que você tem ai dentro.
Ela baixou a cabeça dramaticamente, os lábios se curvando para baixo num bico digno de uma criança de cinco anos.
A imagem era tão absurda, aquela mulher que enfrentara traumas inimagináveis, agora fazendo beicinho porque não conseguia o que queria, que eu senti algo se derreter dentro do peito.
Passei a mão pelos cabelos, despenteando-os num gesto de rendição.
— OK. O que é?
Seus olhos se iluminaram.
— Você vai deixar eu fazer?
A pergunta dela pairou no ar, carregada de uma expectativa que fazia o oxigênio do quarto parecer rarefeito. A hesitação em meu peito foi longa, uma batalha campal entre o profissional que jurou protegê-la e o homem que, naquele momento, estava sendo consumido vivo por uma necessidade primitiva.
— Tudo bem — ouvi minha própria voz dizer, um som rouco que mal reconheci como meu. Meu cérebro deu o alerta de perigo, mas meu corpo já havia se rendido.
Ela juntou as mãos, o rosto iluminando-se com uma alegria radiante, quase febril.
— Mas você tem que manter as mãos atrás das costas — ela ordenou, os olhos brilhando com uma ousadia nova.
— Nem pensar! — A resposta saltou da minha garganta. Eu sabia que, se não tivesse onde ancorar minhas mãos, eu a esmagaria contra mim. — O que você fizer hoje não terá volta para os próximos dias, Katleia. Eu não vou conseguir...
— Por favor, por favor, por favor! — Ela bateu o pé no chão, um protesto que em qualquer outra pessoa seria infantil, mas nela era uma mistura letal de charme e vulnerabilidade. — Se você não deixar, eu vou acabar me machucando!
— Isso é chantagem barata — rosnei, sentindo o calor subir pelo meu pescoço.
— É — ela admitiu, sem um pingo de remorso, um sorriso travesso brincando em seus lábios. — Funciona?
Puta que pariu.
— Tudo bem — cedi, sentindo meu autocontrole escorrer pelos dedos. Entrelacei minhas mãos firmemente atrás das costas, travando os músculos dos braços até que doessem. — Tudo bem. Faça o que quiser.
Fiquei estático no centro do quarto, uma estátua de carne e osso pulsando de desejo contido.
Ela começou a me rodear. Lenta. Deliberada. Seus olhos não apenas olhavam, eles me despiam, analisando cada detalhe da minha postura, a largura dos meus ombros, o modo como a camiseta fina se prendia ao meu peito enquanto minha respiração acelerava.
Havia uma curiosidade ali que beirava o científico, mas o brilho em suas pupilas era puramente carnal.
Ela parou exatamente à minha frente. O perfume dela, aquele rastro de baunilha misturado ao calor da pele e camomila, invadiu meus sentidos, nublando qualquer resquício de lógica.
Lentamente, ela ergueu as mãos.
A ponta de seus dedos, frias e delicadas, tocaram minha mandíbula. O contraste com a minha pele quente e áspera pela barba por fazer me arrancou um suspiro contido.
Ela traçou a linha do meu rosto, subiu pelas maçãs e parou, com o polegar, sobre o meu lábio inferior.
Seus olhos estavam fixos nos meus, devorando-me com uma intensidade que cortava a névoa do álcool e do trauma.
— Eu nunca vi um homem tão lindo quanto você — ela sussurrou, a voz carregada de uma reverência que me fez sentir o homem mais poderoso e, ao mesmo tempo, o mais submisso da terra, eu... Atila? Que apesar de não me importar com todo o império dos Felix, não era menos que o futuro Capo da máfia quando Adon sucedesse a don, algo que mantenho sempre a sete chaves e ninguém ousa comentar, esta agora submisso? É o próprio fiasco.
O ar queimava nos meus pulmões.
— Você gosta do que vê? — perguntei. Minha voz saiu oitavas abaixo do normal, uma vibração grave que pareceu ressoar no peito dela.
Um sorriso lento e provocador, o sorriso de um homem que sabe que está ganhando uma guerra perdida, surgiu em meus lábios.
— Gosto muito — ela confirmou, a seriedade em sua voz sendo mais excitante do que qualquer convite explícito.
— Então… que tal eu ser seu?
Ela arregalou os olhos, a respiração parando por um segundo eterno.
— Sério? — Suas mãos se juntaram contra o peito, um gesto de pura emoção que fez a seda da sua camisola repuxar, revelando curvas que eu estava tentando desesperadamente ignorar. — Meu Deus! Eu posso ter você só para mim? Como um segredo? — Ela parecia uma criança diante do presente mais proibido da loja. — Eu gosto muito, muito dessa ideia!
— Pode — respondi, e a palavra saiu densa, carregada de uma promessa sombria. — E como pode.
Ela sorriu, um sorriso largo, vitorioso e doce, e então, sem aviso, ela se ergueu.
E me beijou.
Droga.
Ela não beijava como uma pessoa tímida. Beijava com uma curiosidade deliciosa, uma exploração tátil que me deixava em frangalhos.
Seus lábios eram macios, úmidos, e se moviam contra os meus com uma lentidão que era uma tortura refinada, que me fazia querer ainda mais desse encaixe.
Eu mantinha minhas mãos desgraçadamente presas atrás de mim, meus dedos cravados nas palmas para não ceder ao impulso de agarrar sua cintura e mostrar a ela o que acontece quando se provoca um homem que passou a vida nas sombras.

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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!