Cap.32
A Manhã Seguinte
O café da manhã costumava ser um evento relativamente civilizado. Pelo menos era o que Adon gostava de acreditar.
Ele estava encostado na bancada da cozinha, uma xícara de café preto na mão, quando William entrou e se posicionou ao seu lado, também com uma xícara, também em silêncio. Os dois homens observavam o movimento das meninas na sala ao lado como generais observando um campo de batalha.
— Noite tranquila? — Adon perguntou, sem tirar os olhos de Selene, que ria de algo com Mima.
William soltou um som ambíguo.
— Depende da definição de tranquila.
— Explica.
— Prefiro não comentar.
Adon ia insistir quando o som de passos pesados na escada interrompeu qualquer pensamento.
Dois homens desciam. Não, dois zumbis desciam.
Átila vinha na frente, se é que se podia chamar aquilo de vir. Seus olhos eram duas fendas escuras encravadas em órbitas profundas, cercadas por olheiras que pareciam ter sido pintadas com carvão.
O cabelo, normalmente impecável, estava uma bagunça. A camisa amassada, parcialmente para fora da calça. Ele se movia como se cada passo fosse uma vitória sobre a gravidade.
Atrás dele, Axel vinha com uma expressão de quem havia mastigado limões azedos o caminho inteiro.
Sua mandíbula estava travada, seus olhos faiscavam uma irritação que parecia pronta para explodir a qualquer momento.
Axel alcançou a base da escada, parou em frente a Adon, e cravou o dedo indicador no peito do irmão mais velho.
— Eu só fiquei hoje nessa casa porque você pediu — a voz de Axel era um rosnado baixo, cheio de veneno. — Mas nem mais um dia. Nem mais um dia eu passo nessa bagunça. Vocês não vão me ver pisar o pé aqui de novo.
Ele empurrou Adon, um gesto brusco que fez o café balançar perigosamente na xícara.
Adon franziu o cenho, genuinamente confuso.
— O quê? Não entendi.
— NÃO ENTENDEU? — A voz de Átila explodiu atrás de Axel.
Ele avançou, parando ao lado do irmão mais novo, e apontou o dedo para Adon com uma dramaticidade digna de uma novela mexicana.
— EU? — Átila continuou, a voz subindo em tons de pura indignação. — O que EU fiz de errado? Eu nunca mexi com nenhuma mulher!
Adon piscou, lentamente.
— Até ontem você era só o galã da Rose. E já não morreu pelas suas mãos? Qual é o problema agora?
— QUASE FUI EXPLORADO SEXUALMENTE! — Átila rugiu, os braços abertos num gesto de puro desespero. — EU, Átila Felix, quase fui vítima de assédio! E eu deixei... eu é que preciso de tratamento.
William, ao lado de Adon, levou a xícara à boca com uma calma estudada, os olhos fixos num ponto qualquer da parede, como se desejasse se tornar invisível.
Adon estreitou os olhos.
— Por quem?
O silêncio que se seguiu foi mais eloquente que qualquer resposta.
Átila apenas o encarou, a respiração pesada, os olhos arregalados de quem revivia os momentos de terror ou seria êxtase? da noite anterior e de como passou a noite inteira sem conseguir dormir tentando controlar seus próprios desejos.
— Eu tou indo embora, não me procure hoje.
— Tudo bem — Adon disse, num tom que era tudo menos convencido. — Pode ir. Mas à noite você tem que voltar.
Átila, que já estava se virando para sair, parou no meio do movimento.
— O quê?
— Lembra do tratamento da Katleia? Você marcou com ela. Não pode abandonar a paciente no meio do processo.
Átila se virou lentamente, sua expressão uma mistura de incredulidade e horror absoluto.
— O que é isso? — sua voz subiu novamente. — Virou babá de um bando de adolescente? É isso que eu sou agora? Seu desgraçado, você não ouviu o que eu disse?
Adon permaneceu imóvel, tomando um gole calmo de seu café.
— Qual é? — ele disse, com uma lógica irrefutável. — Quem assediaria um homem de quase dois metros, faixa preta em três artes marciais? Olha seu tamanho, marmanjo. Vai trabalhar.
Átila abriu a boca para responder. Fechou. Abriu de novo. Nenhum som saiu.
Com um último olhar assassino na direção de Adon, ele se virou, marchou até a porta principal e a abriu com tanta força que o batente tremeu.
A porta bateu atrás dele com um estrondo que ecoou pela casa inteira.
Silêncio.
Adon virou-se lentamente para William, que ainda estava imóvel ao seu lado, os olhos fixos no horizonte.
— E você? — Adon perguntou, desafiador. — Alguma objeção?
William levou a xícara aos lábios, tomou um gole longo e pensativo, e então respondeu, com a voz mais neutra do universo:
— Só estou aqui para ser conselheiro do futuro don. Nada mais, ordens de meu pai.
Adon o estudou por um longo momento, buscando qualquer sinal de ironia, de sarcasmo, de qualquer coisa que indicasse que William também havia enlouquecido naquela casa.
Nada. Apenas a expressão serena de um homem que aprendeu a sobreviver mantendo a boca fechada.
— Ao menos alguém normal nessa casa — Adon murmurou, com um alívio genuíno. — Vamos tomar café.
Ele deu um tapinha no ombro de William e seguiu em direção à sala, onde Selene e as meninas ainda riam, alheias ao drama que acabara de se desenrolar na entrada.
William permaneceu imóvel por mais um segundo. Então, baixinho, quase inaudível, murmurou para sua xícara:
— Normal. Claro. Totalmente normal.
E seguiu Adon, deixando para trás o eco da porta batida e o mistério insondável da noite anterior, que ele, por puro instinto de sobrevivência, levaria para o túmulo.
Cap.
A Terapia e a Vergonha
Pov. Atila.
A noite caíra quando eu voltei. A chuva tinha parado, mas o ar ainda estava carregado de umidade e daquele cheiro de terra molhada que sempre me fez pensar em recomeços. Ironia pura, considerando o estado da minha sanidade, não dormir a noite inteira, e mal consegui descansar ao sair dessa maldita casa cheia de moças que parece que não saíram da miséria da puberdade.
Subi as escadas com passos deliberadamente lentos, dando a mim mesmo tempo para ensaiar o que diria se ela tiver com as memorias da noite anterior.
Somos adultos. Foi uma noite atípica. Seguimos em frente.
Parei em frente ao quarto dela. A porta estava fechada. Bati.
— Katleia? A sessão.
Silêncio.
Bati novamente.
— Katleia, eu sei que você está aí.
— Não estou.
A voz veio abafada, como se saísse de dentro de um túnel. Suspirei, empurrei a porta, estava destrancada, e entrei.
O quarto estava escuro, apenas o abajur ligado. E na cama, um monte de cobertas com um formato vagamente humano.

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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!