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Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 226

Cap.33

O Abismo

PoV. ATILA

A mão dela estava fria na minha. Mais fria do que da última vez.

Como se o corpo já soubesse que iria visitar lugares ainda mais sombrios e estivesse se preparando para o choque.

— Katleia, quero que você volte. Não para a primeira vez. Para os dias depois. Os dias comuns. Os dias que ninguém vê.

Sua respiração se aprofundou, o corpo afundando no sofá como se estivesse sendo puxado para baixo por correntes invisíveis.

— Onde você está?

— No quarto — a voz dela era pequena, distante, de uma criança que aprendeu a encolher para ocupar menos espaço no mundo. — Trancada. Sempre trancada.

— O que você ouve?

— Eles estão discutindo. Lá fora. — Uma lágrima escorreu, lenta, pelo canto do olho. — Meu tio e minha mãe. Ela… ela está gritando.

— O que ela diz?

O corpo de Katleia tremeu. Um tremor profundo, visceral, que começou nos ombros e desceu até os pés.

— Ela diz… — A voz falhou, engasgou, recomeçou num fio de pura agonia. — Ela diz que ele pode fazer o que quiser. Que eu sou problema dela. Que ele pode… pode fazer o que quiser comigo.

Minha mandíbula travou. Os dedos apertaram a mão dela inconscientemente.

— Ele faz?

— Sim. — A palavra foi um suspiro, um soluço, uma rendição. — Sempre. Eles não dão comida. Água, só um pouco. Minhas mãos… minhas mãos doem. Ele amarra. Sempre amarra.

— O que mais ele faz?

Ela começou a tremer incontrolavelmente. Sua respiração acelerou, ficou superficial, e de repente seu corpo se curvou para o lado e ela vomitou, um vômito seco, sem nada no estômago, apenas o espasmo horrível de um corpo revivendo o que a mente tentava esquecer.

— Katleia!

Mantive-a firme, uma mão em seu ombro, a outra segurando sua mão. Ela continuava no transe, presa na memória, incapaz de acordar.

— Ele toca — ela sussurrou, a voz encharcada de lágrimas e nojo. — Toda hora. Toda parte. É nojento. É tão nojento. Eu quero morrer. Quero que ele pare. Bato nele, mas ele fica com mais raiva. B**e mais forte. Faz mais coisas. Nada para. Nada nunca para.

Meu corpo recuou instintivamente. Levantei-me da poltrona, cambaleando para trás como se tivesse levado um soco. Minhas costas bateram na estante, e livros caíram no chão com um baque surdo que eu mal registrei.

Respiração. Precisava de ar.

— Dois dias — a voz dela continuou, implacável, vinda do sofá onde seu corpo encolhido tremia. — Fome. Água pouca. Mal consigo andar. Ele vem. Sempre vem. Não importa o que eu faça. Não importa o quanto eu implore. Ele vem todos dias... mesmo quando parece que vou morrer... ele maltrata meu corpo.

Passei a mão no rosto. Estava molhado. Suor? Lágrimas? Não sabia mais. Meu peito doía com uma pressão física, como se alguém estivesse apertando meu coração com as mãos.

— Chega — ouvi minha própria voz dizer. — Katleia, vou te trazer de volta. Agora.

Levei alguns minutos para guiá-la para fora do transe.

Minhas mãos tremiam. Minha voz, que eu treinara para ser o instrumento mais controlado do meu corpo, falhava em alguns momentos, rouca demais, instável demais.

Quando ela abriu os olhos, estavam límpidos. Serenos. Ela não lembrava, diferente da bagunça que estava dentro de mim, ela estava serena.

— E então? — perguntou, com a mesma curiosidade inocente de sempre. — Como foi?

Olhei para ela. Para aquela mulher de 19 anos que acabara de reviver dois dias de inferno sem sequer saber.

Para os olhos que me olhavam com confiança. Para a fragilidade e a força coexistindo no mesmo corpo franzino.

Como alguém faz isso com uma criança?

A pergunta ecoou na minha mente como um sino fúnebre. E naquele momento, uma decisão se cristalizou dentro de mim continuava a se intensificar.

— A sua maior meta é perder o medo de tocar, de se aproximar de outros homens, certo?

Ela assentiu, lentamente.

— Então quero testar uma hipótese. — Respirei fundo. — Quero tentar recriar, em ambiente controlado, o que aconteceu ontem. Sóbria.

Ela ficou vermelha. Muito vermelha, mas dessa vez eu não quero me aproveitar da situação, eu quero testar alguma coisa nova e confirmar a minha tese, mesmo que meu cérebro alerte que isso vai dá merda.

— Eu não consigo — murmurou, os olhos fixos nas mãos.

— Você nem tentou. — Minha voz saiu suave, mas firme. — Katleia, você mesma disse que se sente confortável comigo. Que eu não tenho segundas intenções.

Ela ergueu os olhos para mim, e havia algo naquele olhar que fez meu coração parar por um segundo.

— É verdade. Com você… é diferente. Você nunca tentou nada. Nunca pressionou. Sempre pediu permissão. — Um sorriso tímido surgiu em seus lábios. — É por isso que eu confio.

Suspirei. Uma parte de mim, a parte profissional, a parte que ainda tentava se convencer de que tudo era clínico, sabia que aquilo era um campo minado.

Mas a outra parte, a parte que a via como mais do que uma paciente, queria desesperadamente ajudá-la. E se esse fosse o caminho?

— Então — disse, minha voz mais grave do que o normal —, por que não tentamos o que você fez ontem? Não o beijo, não o toque extremo. Mas a abordagem. Você no controle. Eu apenas… receptivo. Quero entender como seu cérebro está configurado depois de todo esse trauma. Quero ver se, sóbria, você consegue acessar essa parte de si mesma.

Ela ficou em silêncio por um longo momento, o rubor ainda queimando suas bochechas.

— Eu não sei se consigo — confessou, finalmente.

— Mas você quer tentar?

O silêncio se estendeu entre nós, pesado de possibilidades e perigos. Os olhos dela encontraram os meus, e naquele olhar havia medo, hesitação, mas também uma centelha de algo que parecia dizer sim mesmo quando as palavras não vinham.

— Katleia — minha voz era um sussurro agora — você está disposta a tentar?

A pergunta pairou no ar como uma chama prestes a acender um incêndio.

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