Cap. 36
A Descoberta de Adon
A madrugada na Casa da Ponte era um silêncio denso, quebrado apenas pelo ocasional rangido da madeira e pelo som distante de algum cano na parede.
Adon percorria os corredores em seu ritual noturno, o último check-up antes de finalmente ceder ao sono.
Passara pelo quarto de Mima, tudo em ordem. Pelo de Maju, um novelo de cobertas com um tufo de cabelo despontando. Pelo de Gildete, a porta entreaberta, silêncio absoluto ela dormia com seu irmão ao lado.
Quando chegou ao quarto de Katleia, parou.
A porta estava aberta.
Não entreaberta, como as outras. Aberta. E a cama, vazia.
Adon franziu o cenho, um princípio de preocupação acendendo em seu peito.
Katleia não era do tipo que vagava pela casa à noite, pelo contrário, sabia que ela tinha pavor de escuro, e de tudo o que a noite representava.
Começou a percorrer os corredores, olhando em cada sala, cada canto. A cozinha, vazia. A sala de TV, vazia. Os banheiros sociais, vazios.
Foi quando passou pela biblioteca e notou uma fresta de luz sob a porta.
Parou. Escutou. Nada.
Empurrou a porta devagar, o mínimo necessário para espiar.
O que viu fez seu cérebro dar um nó tão apertado que por um momento ele esqueceu como piscar.
Átila estava amarrado a uma poltrona antiga no centro da sala. Não amarrado de brincadeira, amarrado de verdade, com cordas grossas que prendiam seus pulsos aos braços da cadeira, seus tornozelos às pernas. Sua camisa estava aberta, completamente aberta, revelando seu peito nu. E sobre sua boca, um lenço improvisado como mordaça.
Aos seus pés, dormindo profundamente no chão, estava Katleia. Enrolada numa posição fetal, os cabelos espalhados no tapete, a respiração lenta e pacífica de quem não tem um pingo de noção do caos ao redor.
Adon apertou os olhos com força. Abriu. Apertou de novo. Abriu.
A cena não mudou, ele sacou a arma e encarou ao redor, analisou, estava tudo fechado, tudo seguro e deduziu que ninguém foi torturado quando viu a taça de vinho pela metade e o copo usado.
— Deve ser o sono — murmurou para si mesmo, num tom que tentava desesperadamente ser convencido. Bocejou, esfregou os olhos, e se aproximou.
Olhou de novo.
Átila continuava lá. Amarrado. Peito nu. Amordaçado.
Katleia continuava lá. Dormindo. Aos pés dele. Como um cachorrinho exausto depois de um dia de caça.
O cérebro de Adon entrou em curto-circuito. Imagens aleatórias passaram por sua mente, a expressão de puro desespero de Átila pela manhã, as palavras que ele tinha ignorado.
“quase fui explorado sexualmente", a forma como ele fugira da casa batendo a porta.
— Eu devo ter bebido alguma droga estranha naquele café — concluiu, em voz alta, como se a explicação fosse a única possível num universo que fizesse algum sentido.
Adon reagiu no automático. Num movimento fluido, inclinou-se e a pegou no colo, arrancando um pequeno grito surpreso dela.
— Nada, nadinha — disse, com um sorriso que era puro nervoso disfarçado. — Vamos para o quarto, está bem?
Selene passou os braços em volta do pescoço dele, ainda sonolenta, a cabeça pendendo para o lado.
— Tá… — murmurou, os olhos já fechando novamente.
Adon caminhou em direção ao quarto, os passos firmes, a expressão serena.
Nada em seu rosto denunciava o turbilhão de imagens que ainda rodopiavam em sua mente, Átila amarrado, peito nu, Katleia dormindo aos seus pés, a mordaça, a camisa aberta sua cabeça estava uma confusão de informação.
“Droga”, pensou, enquanto deitava Selene na cama. “Amanhã vou acordar e isso tudo vai ter sido um pesadelo. Um pesadelo muito, muito específico e estranho.”
Deitou-se ao lado da esposa, puxou o edredom, fechou os olhos.
E sorriu.
Não de felicidade. De pura e absoluta incredulidade com a própria vida.
Lá fora, a madrugada continuava silenciosa sobre a Casa da Ponte. Dentro da biblioteca, dois corpos dormiam em posições que nenhum manual de boas maneiras aprovaria.
E no quarto principal, Adon Felix sorria no escuro, imaginando a cara de Átila na manhã seguinte quando descobrisse que alguém tinha visto aquela cena.
E, mais importante, quando descobrisse que existia uma foto.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!