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Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 230

Cap.37

A Manhã da Vergonha

Ponto de Vista: Katleia

A primeira coisa que registrei foi um cheiro. Couro, madeira antiga, e algo metálico que não consegui identificar. Depois, a dor. Uma dor latejante no lado esquerdo da cabeça, como se alguém tivesse usado meu crânio como tambor.

A segunda coisa foi o sapato.

Um sapato masculino, preto, tão polido que eu podia ver meu reflexo confuso nele.

Meus lábios estavam a centímetros dele. Centímetros.

Levantei a cabeça devagar, o mundo girando em câmera lenta. Meu corpo doía inteiro, dormência nos braços, nas pernas, no pescoço torto de dormir no chão duro.

Olhei ao redor.

Biblioteca. Garrafa de vinho vazia na mesinha. Taça solitária ao lado. Cortinas fechadas, luz fraca entrando pelas frestas.

E então, eu vi.

Átila.

Amarrado na poltrona.

Peito nu.

Mordaça.

Ele estava acordado. Seus olhos, aqueles olhos escuros que ora me acalmavam, ora me aterrorizavam, estavam fixos em mim com uma expressão que eu não conseguia decifrar. Cansaço? Irritação? Tédio? Talvez os três.

Recuei no chão, arrastando-me para trás como se ele fosse um animal prestes a atacar. Minhas costas bateram na estante, e livros caíram na minha cabeça, aumentando a confusão.

— O quê… o que… — tentei falar, mas minha boca estava seca, a língua colada no céu da boca. — O que aconteceu?

Ele apenas me olhou. O silêncio era ensurdecedor, pontuado pelo meu próprio coração disparado.

— Você… você está amarrado — constatei, com uma inteligência digna de uma porta.

Ele ergueu as sobrancelhas, num gesto que dizia claramente, Sério? Obrigado pela informação, Sherlock.

— E de… de peito nu.

Ele olhou para o próprio peito, depois para mim, e arqueou uma sobrancelha. Como se dissesse, Sim, e quem será que fez isso?

Minha mente era um branco total. Buracos negros onde deveriam estar as últimas horas da noite. Lembranças fragmentadas: vinho, a poltrona, cordas… e depois, nada.

— Katleia.

A voz saiu abafada pela mordaça, mas eu entendi. Era um chamado, um comando.

Levantei-me cambaleando, segurando na estante para não cair. Aproximei-me dele com a cautela de quem se aproxima de uma bomba prestes a explodir.

Ele inclinou a cabeça para o lado, indicando o nó atrás da cabeça. Com mãos trêmulas, alcancei o lenço e o desamarrei.

Assim que a mordaça caiu, ele respirou fundo, movendo a mandíbula de um lado para o outro.

— Você não vai me desamarrar? — perguntou, a voz rouca, mas carregada de um sarcasmo cortante. — Ou quer continuar a brincadeira?

— Eu… — Olhei para as cordas em seus pulsos, para os nós perfeitos, para a forma como ele estava completamente imobilizado. — Meu Deus, você passou a noite toda assim?

Ele sorriu. Um sorriso cético, amargo, que não chegava aos olhos.

— Por que será, não é?

Virei-me para a janela. A luz da manhã já estava forte. Tinha passado a noite. A NOITE INTEIRA. Ele ficara amarrado a noite inteira por minha causa.

— Eu sinto muito — as palavras saíram num jorro. — Muito, muito, muito. Eu não lembro de nada, juro. Não lembro como isso aconteceu, não lembro por que fiz isso, não lembro…

— Você lembra de ter bebido vinho? — ele interrompeu.

— Sim, lembro de pegar a garrafa…

— Lembra de ter me amarrado?

Pensei. Fragmentos. Cordas em minhas mãos naquela hora eu ainda estava sã. A sensação estranhamente prazerosa de dar nós. O brilho nos olhos dele quando…

— Algumas coisas — admiti, a voz sumindo.

— Lembra de ter aberto minha camisa?

— Eu sei, eu sei, sou um desastre ambulante.

O último nó cedeu. Seus pulsos estavam vermelhos, marcados pela corda. Senti uma onda de culpa tão forte que quase vomitei.

— Suas mãos — sussurrei, tocando as marcas com a ponta dos dedos. — Eu machuquei você.

Ele olhou para as próprias mãos, depois para mim. Quando seus olhos encontraram os meus, algo mudou na expressão dele. Uma faísca de… ternura? Não, não podia ser.

— Já vi piores, não sou fraco a esse ponto, baby. — disse ele, simplesmente.

Ficamos ali por um segundo, ele sentado na poltrona, eu ajoelhada aos seus pés, o silêncio entre nós carregado de coisas não ditas.

Então, o pânico voltou.

Levantei-me num salto.

— Preciso ir. Agora. Muito obrigada pela terapia, foi ótimo, vamos repetir nunca mais, tchau!

Corri para a porta.

— Katleia.

Parei, a mão na maçaneta, sem coragem de olhar para trás.

— Escova os dentes. Seu hálito quase me deixou embriagado de manhã cedo.

Fechei a porta com tanta força que a moldura tremeu.

Corri pelo corredor, os pés descalços batendo no mármore frio, a cabeça latejando, o estômago embrulhado, a alma em frangalhos.

Quando entrei no meu quarto, bati a porta, tranquei, e deslizei pelo lado de dentro até sentar no chão.

— O que EU FIZ? — gritei para o universo, que obviamente não respondeu.

Do lado de fora, a Casa da Ponte começava a despertar. E eu, Katleia, a escritora traumatizada que só queria superar seus medos, havia conseguido a proeza de sedar, amarrar e quase estuprar meu terapeuta.

Maravilha, pensei, enterrando o rosto nos joelhos. Simplesmente maravilhosa.

Não importava. Nada importava mais. Minha vida tinha se tornado uma comédia dos horrores, e eu era a palhaça principal.

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