Cap.38
A Foto Que Vale Por Mil Palavras
A manhã começava com uma calma enganadora. O sol entrava pelas vidraça das janelas da sala, iluminando partículas de poeira que dançavam no ar. William estava recostado no sofá, uma xícara de café na mão, a expressão serena de quem não faz ideia do caos que o universo está prestes a revelar.
Adon entrou na sala com passos lentos, o olhar perdido em algum ponto distante que só ele podia ver.
Sentou-se ao lado de William, pegou sua própria xícara, e ficou em silêncio por um longo minuto.
William observou o amigo pelo canto do olho. Algo estava errado. Adon não era do tipo contemplativo, era do tipo ação, decisão, movimento.
Vê-lo ali, imóvel, com a expressão de quem viu um fantasma, era preocupante.
— Aconteceu alguma coisa? — William perguntou, tentando soar casual.
Adon demorou a responder. Quando falou, a voz saiu num tom estranho, entre o fascínio e o horror.
— Hoje de madrugada… eu vi uma coisa.
— Que coisa?
— Eu tirei uma foto. Pensei que fosse sonho. Fui dormir achando que era sonho. — Ele riu, um som sem humor. — Mas não era.
William franziu a testa.
— Que foto? Mostra aí.
Adon pegou o celular, mexeu na galeria por um segundo, e entregou o aparelho a William.
William olhou para a tela.
Seus olhos se arregalaram.
Sua boca se abriu.
Nenhum som saiu.
Na foto, Átila Felix estava amarrado a uma poltrona antiga. Amarrado de verdade, cordas grossas prendendo seus pulsos aos braços da cadeira, seus tornozelos às pernas.
Sua camisa estava aberta, completamente aberta, revelando um peito que qualquer capa de revista masculina invejaria. E sobre sua boca, um lenço improvisado como mordaça.
Aos seus pés, dormindo profundamente no chão, estava Katleia. Enrolada em posição fetal, os cabelos loiros espalhados no tapete, a respiração pacífica de quem não tem a menor ideia do crime hediondo que cometeu.
William piscou.
Piscou de novo.
Olhou para Adon.
Olhou para a foto.
Olhou para Adon novamente.
— Alguém invadiu a casa — ele disse finalmente, a voz um fio. — Alguém conseguiu imobilizar o Átila. Como? Nem com vinte homens ele perderia uma luta dessas, quem colocou o segundo capeta pra dormir?
Adon balançou a cabeça, lento.
— Não sei. Pensei a mesma coisa. Ainda estou tentando entender que diabos aconteceu, porque não quero acreditar no que eu estou pensando.
— As roupas dele estavam abertas... — William observou, como se precisasse verbalizar o óbvio.
— Sim.
— E ela tá dormindo aos pés dele.
— Sim.
— Como se tivesse… desmaiado.
— Sim.
Os dois homens ficaram em silêncio. O cérebro de ambos processava a informação em câmera lenta, tentando encontrar uma explicação lógica, racional, que não envolvesse…
Átila apareceu no topo da escada.
Seus olhos estavam duas fendas negras encravadas em órbitas profundas, cercadas por olheiras que pareciam ter sido pintadas.
Seu cabelo estava uma bagunça. Sua camisa, uma camisa diferente, notaram, estava amassada, parcialmente para fora da calça, cabelo úmido como se tivesse acabado de sair do banho.
Ele se movia com a rigidez de quem passou a noite amarrado a uma poltrona e não está nem um pouco feliz com isso.
Desceu os degraus sem olhar para os lados, sem desviar a trajetória. Quando chegou ao pé da escada, seus olhos encontraram os de Adon por uma fração de segundo.
Não disse uma palavra.
Apenas continuou em direção à porta, abriu-a com uma violência que fez as dobradiças gemerem, e saiu.
A porta bateu com um estrondo que ecoou pela casa inteira.
Adon e William deram um salto no sofá, quase derrubando o café.
Ficaram imóveis por um longo segundo, os olhos arregalados, a respiração suspensa.
Então, lentamente, como se tivessem ensaiado, ambos voltaram a se recostar no sofá. Pegaram suas xícaras. Levaram à boca. Tomaram um gole em perfeita sincronia.
— Café bom — William comentou, a voz casual demais.
— É. O selo da Selene é imbatível — Adon concordou, no mesmo tom.
Nenhum dos dois mencionou a foto. Nenhum dos dois mencionou Átila. Nenhum dos dois mencionou a menina de 19 anos que, aparentemente, era capaz de imobilizar e quase estuprar um homem de quase dois metros.
Apenas tomaram seu café em silêncio, como dois adultos civilizados que definitivamente não acabaram de testemunhar a maior loucura de suas vidas.
Lá fora, o motor do carro de Átila roncou e desapareceu na distância.
Dentro da sala, Adon e William continuaram tomando café, cada um perdido em seus próprios pensamentos.
E na galeria do celular de Adon, a foto permanecia. Uma prova irrefutável de que, naquela casa, a linha entre sanidade e loucura era mais tênue do que qualquer um poderia imaginar.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!