Cap.39
O Preço dos Segredos
No fim do café da manhã Adon seguiu viagem, a mansão principal dos Feliz era seu destino, O escritório era uma sala imponente, de paredes forradas a mogno e estantes repletas de livros que ninguém lia.
A luz da manhã entrava pelas altas janelas, iluminando partículas de poeira que dançavam sobre a mesa de trabalho.
Adon sentou-se atrás da mesa, indicando a cadeira à frente para William. O advogado obedeceu, mas havia uma rigidez em sua postura, uma tensão nos ombros que denunciava que algo o incomodava.
— Precisamos conversar sobre a Gildete — Adon começou, direto ao ponto.
William ergueu uma sobrancelha, o rosto uma máscara de neutralidade profissional.
— Imaginei que fosse isso. — ele comentou esfregando o dedo sobre a mesa de mogmo arrastando as partículas de poeira.
— Eu ainda estou encucado com ela, mesmo que Guilhermina ainda fosse um caso misterioso.
— Descobri algo. Ela tem irmãos. Três, para ser exato. Mora longe, num bairro simples, e trabalha como uma condenada para sustentar todos.
Adon processou a informação, os dedos tamborilando na mesa de mogno.
— Então é por isso que ela tem três empregos?
— Exato. O irmão mais velho é um caso perdido, pelo que investiguei dele é um usuário de drogas, violento, completamente inútil. Ela carrega o mundo nas costas sozinha, contudo... ele ainda cuida das crianças nas possibilidades.
— Parece que não há muito o que se preocupar, portanto que o irmão dela não seja de nenhuma facção e não esteja envolvido com Omar, é problema pequeno.
— Sim, ele não passa de um usuário sustentado pela irmã.
— E a criança? — Adon perguntou, os olhos fixos em William. — O menino que você trouxe. Precisa ser investigado? Afinal você trouxe no mesmo dia que foi investigar a menina, não entendo como voltou com uma criança.
William franziu a testa, genuinamente confuso.
— Investigado como?
Adon inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos na mesa.
Seu olhar era penetrante, analítico, o olhar de quem conhece alguém há tempo demais para ser enganado.
— Na época em que você teve aquele caso e quase foi acusado de estupro por ter pago uma menina de quinze anos para ficar com você… Até onde eu sei, você não tinha ficado com nenhuma outra mulher além daquela. Como agora você tem um filho de seis anos?
William sustentou o olhar, mas algo em sua expressão vacilou por um segundo.
— Ela não foi a única.
Adon soltou uma risada curta, sem humor.
— William. Você sabe que não pode esconder nada de mim. Éramos melhores amigos naquela época. — Ele fez uma pausa, a voz suavizando. — Você era virgem, lembra? Nós dois planejamos pagar por serviços íntimos juntos. Eu escolhi uma garota, e você… eu nem sei onde você arrumou a sua.
O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de memórias que nenhum dos dois revisitava com frequência.
William finalmente falou, a voz mais baixa, controlada.
— Ela que veio até mim. Precisava de dinheiro. Eu dei o dinheiro, ela deu o corpo dela. Simples.
— Simples? — Adon repetiu, incrédulo. — William, isso foi o que acabou com sua vida. O que fez você passar quase sete anos no estrangeiro, longe de tudo, longe de todos. E agora você traz uma criança de seis anos para a mansão, dizendo ser seu filho, mas eu, como seu melhor amigo, sei que está mentindo.
William não respondeu imediatamente. Seus olhos se fixaram em algum ponto distante, como se visse algo que só ele podia enxergar. Quando falou, sua voz era um fio de aço, duro e inflexível.
— Você não sabe de toda a história. Nem sabe o que o Conselheiro Willy fez depois que descobriu que eu tive um caso com uma menina.
Adon recuou ligeiramente, surpreso com a intensidade da resposta.
William continuou, as palavras saindo como se fossem arrancadas de algum lugar profundo e doloroso:
— E ninguém precisa saber disso. Porque quem saiu perdendo no final fui eu. Só eu e eu tive outro caso, pensa que eu detalho minha vida sempre? Ele é meu!
A última frase pairou no ar, carregada de um peso que Adon não conseguia dimensionar completamente. Ele conhecia William há anos, desde a adolescência, mas havia partes da vida do amigo que permaneciam envoltas em sombra.
— Não vou mais tocar nesse assunto — Adon disse finalmente, num tom que era ao mesmo tempo um pedido de desculpas e uma promessa. — Se você diz que o menino é seu filho, então é. Só… não deixe que isso venha a causar problemas.
William o encarou por um longo momento. Então, com uma convicção que surpreenderia qualquer um que não o conhecesse tão bem, declarou:
— Selene quer estudar para aprender a administrar e herdar os Bertans, já que os avos são idosos e jogaram isso nas costas dela. — Adon explicou, mas havia algo em sua expressão que denunciava um desconforto maior. — Sem falar que eles arrumaram dois treinadores para ela.
William arqueou uma sobrancelha.
— Dois treinadores? Para quê?
— Defesa pessoal, etiqueta, política, sei lá. Coisas de Bertans.
— E qual é o problema?
Adon o encarou com uma expressão tão sombria que William quase riu.
— O problema? — Adon repetiu, a voz perigosamente calma. — O problema é que são homens.
William piscou. Depois piscou de novo. E então, sem conseguir se conter, soltou uma gargalhada curta.
— Você vai matar os treinadores da sua própria esposa?
— Se forem homens, sim. — Adon confirmou, com uma seriedade que era ao mesmo tempo, assustadora e absurda. — Vou matar. Com minhas próprias mãos.
— Adon, ela precisa aprender… se bem que ela será sua rival de certa forma, Os Bertans não aliviam para a máfia, as coisas podem ficar problemáticas em breve. Ela começar a aprender algo com os Bertans seria inevitável.
— Ela pode aprender com mulheres. Existem mulheres treinadoras, não existem?
William balançou a cabeça, um sorriso incrédulo ainda nos lábios.
— Você é impossível, estou falando do impacto disso na máfia e você falando de ciúmes.
— Sou um marido apaixonado. Tem diferença.
William saiu do escritório, ainda rindo baixinho, deixando Adon sozinho com seus pensamentos e seu ciúme insano.
Na sala silenciosa, Adon Felix, o futuro dono da máfia mais temida da cidade, planejava silenciosamente a eliminação de dois instrutores que ele ainda nem conhecia, apenas porque ousariam passar horas por dia ao lado de sua esposa.
Mesmo que o problema seria outro, como seria para Selene e qual lado ela escolheria quando chegasse a hora.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!