Cap.40
A Proposta Mais Absurda do Mundo
Pov. Atila.
A noite caíra como um manto pesado e silencioso. Eu estava parado em frente ao espelho do meu quarto, encarando um homem que não reconhecia completamente, eu ainda estava muito relutante em voltar, mas cá estava eu apreciando meu maravilhoso reflexo.
Olheiras profundas. Cabelo desgrenhado. Expressão de quem passou as últimas vinte e quatro horas questionando todas as escolhas da vida.
Respirei fundo. Soltei o ar devagar.
Você é psicólogo. Você é profissional. Você vai entrar lá, sentar com ela, e tratar isso como mais uma sessão, e se dê errado eu mudo o método, mas não sei se consigo voltar para a hipnose depois de assistir o quanto ela sofre com aquela maldita situação do passado.
Eu... além disso eu só estou tratando ela, isso é só um método de abrir a mente dela... eu acredito nisso.
A mentira era tão flagrante que até eu mesmo ri.
Sai do quarto a passos lentos, cada degrau um lembrete do que acontecera na noite anterior. As cordas. A mordaça. A camisa aberta. A mão dela no meu…
Pára. Agora.
Ela estava na biblioteca. Sentada na ponta do sofá, as mãos entrelaçadas no colo, os olhos fixos em algum ponto do tapete. Parecia uma criança esperando um castigo.
— Katleia.
Ela ergueu a cabeça tão rápido que quase ouvi seus ossos estalarem. Seus olhos estavam vermelhos, inchados. Tinha chorado. Muito.
— Você… você voltou? — a voz dela saiu num fio, incrédula.
— Estamos na hora da sessão.
Ela se levantou, dando um passo hesitante na minha direção. Depois outro. Parou a uma distância segura, os dedos nervosos brincando com a barra da blusa.
— Você não desistiu? Depois do que eu fiz… — Ela engoliu em seco, os olhos marejando novamente. — Eu quase… eu tentei…
— Eu sei — respondi, tentando manter o tom estável enquanto o cheiro do vinho que ela tomara ainda pairava no ar. — Mas foi uma reação esperada para quem bebeu e decidiu ignorar cada uma das minhas instruções, não acha?
Ela baixou o rosto, os fios de cabelo escondendo sua expressão.
— E você ainda quer me tratar? Mesmo depois de... tudo?
Olhei para ela. Havia uma fragilidade ali que me desarmava, mas era aquela mistura de vergonha e uma esperança quase infantil que me prendia naquele sofá. Como eu poderia dizer não a um par de olhos que imploravam por uma âncora?
— Vou tentar mais uma vez — disse, e minha voz saiu mais suave, perdendo a borda rígida da autoridade. — Isso vai nos ajudar a entender onde terminam os seus limites e onde começa o que está escondido no seu subconsciente. Precisamos de luz naquele porão, Katleia, e se isso está criando uma barreira vamos tirar ela e te deixar mais confortável.
Ela assentiu, um movimento pequeno, vulnerável. — Vamos, então.
Sentei-me na poltrona à frente dela. A distância física era de apenas dois metros, mas parecia um abismo ético. — Katleia, preciso que seja sincera comigo. Existe alguma chance de tentarmos isso sem o álcool? Preciso de dados precisos, e o álcool mascara as suas defesas reais.
A pergunta pairou entre nós. Ela mordeu o lábio inferior, um gesto que me distraiu por um segundo longo demais.
— Eu... não sei — confessou, a voz saindo pequena, quase um sussurro. — Sem o vinho, eu não me sinto livre. Para tocar em você. Para ser... eu.
— Olha — comecei, e minha voz desceu um tom, tornando-se grave, quase vibrante. — Se o problema é que não temos nada... se o problema é a falta de um rótulo que justifique o toque...
Ela me acompanhou com o olhar, confusa, a respiração começando a acelerar. Dei um passo na direção dela, mantendo a formalidade como uma última linha de defesa que estava prestes a cair.
— Senhorita Katleia. — O título soou ridículo, mas eu precisava de um pilar de ordem antes do caos. — Você quer ser minha namorada?
O silêncio que se seguiu foi absoluto.
Ela piscou. Depois piscou de novo. Sua boca se abriu, mas nenhum som saiu.
— Como? — finalmente conseguiu articular.
— É isso que estou dizendo. — As palavras saíam agora num fluxo, como se tivessem vida própria. — Quero que você seja minha namorada. Assim, tudo o que você tocar é de total permissão. Porque pessoas que têm um relacionamento… bom, elas têm direito de se tocar. É esperado. É normal.
Ela se encolheu no sofá, os olhos arregalados, o corpo encolhido numa postura defensiva como se eu fosse fazer algo.
— Não! — apressei-me em acrescentar. — Eu não vou tocar em você. Isso não muda. O controle continua sendo seu. Mas você… você poderia. Sem se sentir inadequada. Sem se sentir culpada. Porque seria seu direito.
O silêncio voltou a pairar entre nós, denso, carregado.
— É um namoro de tratamento — completei, num último esforço para dar alguma credibilidade àquela loucura. — Só isso. Acaba quando você quiser.
Ela continuava imóvel, os olhos fixos em mim como se eu fosse uma miragem.
— Então? — perguntei, a voz saindo quase rouca. — Você aceita? Quer que eu seja seu namorado de tratamento?

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!