Cap.41
O Namoro de Mentira e o Vinho Proibido
POv atila.
— Eu aceito.
A palavra saiu tão baixa que quase não ouvi. Mas ouvi. E meu coração, ingrato que é, deu um salto dentro do peito.
— Sério? — perguntei, tentando manter a compostura.
Ela corou, um rubor lindo subindo pelas bochechas.
— É… é só de mentira, né? Um namoro de tratamento?
— Exato. Só isso. — A mentira soou até para mim como uma tentativa desesperada de autoengano. — Será nosso segredo. É só para ver se isso te deixa mais confortável no tratamento. Assim descobrimos como seria seu limite de proximidade.
Ela assentiu, os olhos brilhando com uma emoção que eu não conseguia decifrar.
— Quero tentar.
Ficamos em silêncio por um momento. Ela me olhava com uma intensidade nova, como se estivesse me vendo pela primeira vez.
— Posso fazer uma pergunta? — disse ela, finalmente.
— Pode.
— E se eu… — Ela hesitou, os dedos nervosos entrelaçados. — E se eu não quiser terminar? Você vai terminar?
A pergunta me pegou completamente desprevenido. Meu cérebro, treinado para analisar, processar e responder, ficou em branco por um segundo.
“Bom”, pensei, numa tentativa desesperada de racionalizar, “devido ao trauma dela, não acredito que isso dure muito. É uma fase. Uma experiência controlada.”
— Katleia — minha voz saiu mais suave do que eu pretendia. — Eu hoje faço um juramento. Só acaba quando você quiser.
Ela sorriu. Um sorriso tão genuíno, tão radiante, que por um momento esqueci onde estava, quem era, e por que aquilo era uma péssima ideia.
— Mesmo sendo de mentira — ela disse, animada —, você é meu primeiro namorado. É tão… empolgante.
— Por que um namoro de mentira é empolgante se não vai envolver nada de namoro? — perguntei, genuinamente curioso.
Ela riu, um som leve e cristalino.
— Na minha situação normal, quem proporia uma coisa dessas? Além disso, é só uma brincadeira que vai acabar logo, o que pode dar errado, não é mesmo?
“É só uma brincadeira que vai acabar logo.” Repeti a frase mentalmente, tentando convencer meu coração a aceitá-la como verdade.
Respirei fundo. Hora de começar o trabalho.
— Certo. Vamos tentar uma coisa. Algo mais controlado que ontem. — Levantei-me e fui até o armário onde guardava alguns materiais. Peguei as cordas, mas menos. Muito menos. — Só as mãos, desta vez. Nada de pernas.
Ela me observava, curiosa, enquanto eu me sentava na poltrona e estendia os pulsos.
— Vai me deixar fazer isso de novo?
— Só as mãos. Você no controle, eu imobilizado. Mas se algo te deixar desconfortável, você pode sair a qualquer momento.
Ela se aproximou, as cordas nas mãos, e começou a amarrar meus pulsos aos braços da poltrona. Desta vez, seus dedos estavam mais firmes, mais confiantes. Os nós surgiam com a mesma precisão de antes, mas havia algo diferente na forma como ela trabalhava.
— Pronto — disse, dando o nó final.
Testei as amarras. Firmes, mas não tão apertadas quanto da última vez. Ela aprendera.
— Agora — incentivei —, tenta se aproximar. No seu tempo. Até onde for confortável.
Ela hesitou por um momento, os olhos fixos em mim. Então, lentamente, deu um passo à frente. Depois, outro. Parou a um palmo de distância, a respiração um pouco acelerada.
— Pode continuar — disse, suavemente.
Ela estendeu a mão trêmula e tocou meu rosto.
O contato foi leve, quase um sussurro. A ponta dos dedos traçou a linha da minha mandíbula com uma lentidão reverente. Seus olhos estavam fixos nos meus, buscando permissão, buscando segurança.
— Tudo bem? — perguntou, num sussurro.
— Tudo bem.
Ela sorriu, um sorriso pequeno, vitorioso. Então, num movimento que me surpreendeu, sentou-se no meu colo.
O peso dela era familiar agora. O calor, a textura das suas pernas contra as minhas. Mas desta vez, havia algo diferente. Ela estava tensa, desconfortável.
— Desconfortável? — perguntei.
— Um pouco — admitiu, a voz pequena.
— Então vai até onde for confortável. — Enfatizei cada palavra. — Não vou passar dos limites. Nem me descontrolar.
Ela me olhou, os olhos buscando algo em meu rosto.
— Por que você está se esforçando tanto?
A pergunta me pegou desprevenido. Abri a boca para dar uma resposta profissional, clínica, racional. Mas as palavras não vieram.
“Porque eu estou gostando de você de verdade”, pensei. “Porque quando você não está bêbada, quando é só você, eu quero estar perto. Porque você é a primeira pessoa em anos que me faz sentir algo além de tédio e obrigação.”
Não disse nada disso, claro.
Ela continuou, a voz ainda mais baixa:
— Você tem pena de mim?
— Não. — A resposta foi imediata, firme. — Não tenho pena.
— Então por quê?
Respirei fundo. Talvez fosse hora de dar um pouco de verdade.
— Porque não consigo ser indiferente a tudo o que você passou. Não consigo ver você sofrer sozinha. Principalmente depois de ver você quase morrer.
Os olhos dela marejaram.
— Quando olho para você — continuei, a voz saindo mais rouca —, tenho medo. Medo que você tente se matar de novo, de que o desespero seja maior que tudo. E eu… eu só quero arrumar um jeito de ajudar. De evitar que isso aconteça.
Ela ficou em silêncio por um longo momento, processando. Então, lentamente, seus braços subiram e se enrolaram em volta do meu pescoço.
— Sabe — ela disse, a voz embargada —, é engraçado. Agora estou tão perto.
Ergui uma sobrancelha, um sorriso irônico surgindo em meus lábios.
— Você já fez coisas bem piores, Katleia. Acredite.
Ela riu, um som misturado com um soluço.
— É que agora eu estou sóbria.
— Graças a Deus — murmurei, num tom que era metade alívio, metade provocação.
Ela ficou em silêncio por um momento, os olhos fixos em algum ponto do meu peito. Quando falou, a voz era pequena, vulnerável.
— Você ficou chateada? Por ter tratado meu primeiro beijo com indiferença?


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!