Cap.43
A atmosfera na biblioteca mudou drasticamente.
O rastro de perfume e caos deixado por Katleia ainda pairava no ar, mas agora era substituído pelo cheiro de uísque barato e pela tensão gélida de dois homens que viviam em um mundo onde a fraqueza era uma sentença de morte.
Adon serviu-se de uma dose generosa, ignorando o fato de que Átila ainda lutava contra os nós nos pulsos. Ele se sentou, cruzou as pernas e encarou o amigo com uma curiosidade cortante.
— Então, "Doutor"... — Adon começou, a palavra pingando sarcasmo. — Você não estava fazendo a hipnose? Como chegamos a esse teatro de cordas e vinho?
Átila desviou o olhar para os próprios pés, os ombros caindo. A máscara de profissional inabalável estava em pedaços no chão.
— Eu não aguentei a hipnose — confessou Átila, a voz saindo num balbucio constrangido.
Adon soltou uma risada seca, sem qualquer vestígio de humor.
— Quem não deveria aguentar era ela, Átila. Ela é a paciente. Ela é a mente quebrada. Você só precisava entrar lá, descobrir o que acontece e resolver. Só isso.
— Só isso... — Átila repetiu, a ironia amarga queimando em sua garganta. Ele tentou forçar as cordas, mas elas pareciam morder sua pele. — Eu não aguentei, Adon. Eu parei a sessão, estou tentando testar outros métodos com ela lucida, as vezes tem coisas que é melhor deixar enterrado.
Adon inclinou-se para a frente, os olhos estreitados.
— Não aguentou o quê? Você já viu homens terem as entranhas arrancadas sem piscar, porque,,, foi você mesmo que arrancou e com eles vivos, O que essa garota tem que te desarmou?
Átila ergueu os olhos, e neles havia um brilho de puro horror residual.
— Aquela menina... ela só tinha onze anos, Onze anos quando o mundo dela foi incinerado. Eu já tratei todo tipo de gente. Assassinos, soldados com o cérebro frito por bombas, psicopatas... mas isso? Não dá. Simplesmente não dá.
Adon bateu com o copo na mesa de centro, o estalo ecoando como um tiro.
— O que "não dá"? O que há de diferente agora? Sangue é sangue, trauma é trauma. Você é o melhor que temos! Quanto mais rápido ela se recupera, mas rápido eu levo a minha esposa dessa casa, o que acha? O que tem de diferente agora?
— Não é nada diferente! — Átila explodiu, a voz ecoando pelas estantes de livros. — É só pesado demais. É uma carga que não obedece à lógica. É... é como tentar segurar o oceano com as mãos.
Nesse momento, a porta da biblioteca se abriu novamente. Alex entrou, a expressão séria e o passo decidido. Adon ergueu as sobrancelhas, surpreso com a visita inesperada.
— O que você está fazendo aqui, Alex? Não está um pouco tarde? — perguntou Adon.
— William me contou o que está rolando na casa e eu aproveitei o caminho para ver minha filha, mas não pensei que encontraria um teatro desses. — Alex respondeu, indo direto para a poltrona onde Átila estava preso. Ele começou a desamarrar os nós com rapidez, lançando um olhar de reprovação para Adon. — Parece que a situação fugiu do controle. Acho que está na hora do Átila voltar para a nossa mansão.
— Eu não vou a lugar nenhum — resmungou Átila, massageando os pulsos assim que Alex o soltou. A pele estava marcada, um vergão vermelho que servia de troféu para sua derrota.
Alex parou e olhou de Átila para Adon.
— Por que você ainda não tinha desamarrado seu irmão, Adon?
Adon ignorou o comentário, levantando-se e caminhando até a janela.
— Agora não, Alex. Eu quero saber o que há de errado. Quero entender por que o mestre da mente não está conseguindo tratar a Katleia e, em vez disso, criou essa situação absurda.
Átila levantou-se, ajeitando a camisa amarrotada e tentando recuperar o resto de dignidade que lhe sobrava.
— Não era um tratamento, Era um teste. Eu precisava que ela baixasse a guarda para eu entender como a mente dela funciona quando ela não está em estado de pânico. E isso aqui foi uma ferramenta de permissão.
Ele suspirou, passando a mão pelo rosto cansado.
— Eu nunca pensei que seria tão difícil tratar alguém. Eu me sinto um amador.
Alex e Adon se sentaram de frente para ele, formando um semicírculo de julgamento e preocupação. Alex cruzou os braços, observando o filho com um olhar analítico.
— Selene se importa muito com ela, Átila — disse Alex, a voz mais baixa e controlada. — Eu estou procurando profissionais mundialmente famosos, especialistas em traumas infantis extremos. Mas... até onde eu sei, e até onde os registros dizem, você é o melhor mesmo que tenha deixado a profissão, Você tratou vítimas com traumas inomináveis. e domesticou crianças com traços de psicopatia clínica antes que elas se tornassem monstros, não entendo qual o problema se tratando de Katleia.
Alex suspirou, sentando-se novamente e massageando as têmporas.
— Como ele está, Adon? — perguntou Alex, sem olhar para o amigo.
Adon serviu-se de mais um uísque, a mão firme, mas o olhar distante.
— Até então... ele não parecia estar perdendo o controle de forma tão óbvia. Mas depois disso? Ele está se afundando de novo, Ele está levando o trauma dela para o lado pessoal e ele já fez isso uma vez e o negocio não foi legal.
Adon olhou para Alex, uma dúvida surgindo em sua mente.
— Bom... melhor manter atenção total nele, caso contrário não vamos conseguir abafar.
— É verdade que você está buscando profissionais para a Katleia?
— Estou procurando para os dois — confessou Alex, o tom grave. — Para a Katleia e para o Átila. Ele nunca deveria ter voltado a exercer essa profissão. Ele se envolve demais.
— Você acha que ele vai começar a sair matando por aí? — perguntou Adon, com um meio sorriso sombrio.
— Alguma merda ele vai fazer — Alex respondeu, levantando-se para sair. — Já pedi aos soldados dos Corvos para me relatarem tudo o que o Átila pedir. Se ele começar a fazer as mesmas besteiras de novo, com os Bertans na cidade e essa trégua instável... nem eu poderei salvá-lo como Don. Ele vai se tornar um alvo e com isso derrubar todos os Felix.
Adon confirmou com um aceno curto. Ele sabia que a estabilidade da máfia dependia de cabeças frias, e Átila estava fervendo.
— Em uma semana é o aniversário da Selene — comentou Alex, mudando de assunto enquanto caminhavam para a saída. — Você tem algo em mente?
— Estou pensando — respondeu Adon, o olhar focando-se novamente na política. — Vai ser uma festa grande, isso eu sei.
— Alinhe isso com os Bertans — sugeriu Alex. — Se pudermos trazê-los para o nosso lado durante o evento, causaremos menos problemas para a sua sucessão como Don. A cidade precisa ver que os Corvos e os Bertans podem coexistir... pelo menos por uma noite.
Adon confirmou enquanto as portas da biblioteca se fechavam.

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