Cap.44
Atila Felix.
A água fria no meu rosto não foi suficiente para lavar a bile que subia pela minha garganta. Eu encarei o reflexo no espelho do banheiro e vi um homem que eu mal reconhecia.
Onde estava o profissional frio? Onde estava o estrategista que nunca se deixava abalar? O relato de Katleia sobre o tio e o abandono da mãe era um ácido que corroía minha armadura, camada por camada a dias.
Eu precisava de uma distração. Algo que não fosse real, algo que não doesse tanto, para não perder o controle, afinal... esse foi um dos motivos que me tirou da corrida para suceder a posição de don, sendo que era eu o único sucessor.
Sentei-me no tapete do banheiro, encostado na banheira, e peguei o celular. Por um impulso masoquista, abri o aplicativo de leitura apenas para tentar desviar minha mente de tudo isso.
O livro de Kat X estava lá, com uma atualização de pelo menos cinco capítulos, eu já tinha ate me esquecido dela. "Que se dane", pensei. "Pior do que a minha vida não pode ser."
O capítulo novo se chamava: “O Nó da Rendição”.
“Eleonor observou Evans lutar contra as cordas de seda. O homem, com seus anos de arrogância e controle, agora estava à mercê de uma menina que ele pensava ser inofensiva. Ela se inclinou, o hálito quente roçando a orelha dele, e sussurrou: ‘Quem é o mestre agora?’. Evans soltou um rosnado, mas seus olhos traíam a verdade, ele não queria ser solto. Ele queria que ela o dominasse, porque só nas mãos de Eleonor ele podia deixar de ser o carrasco para ser apenas um homem.”
Continuei lendo o desenvolver da cena, bom... me fez lembrar de Katleia, se já não tivesse sido postado a dois dias, eu poderia pensar que tinha ate a ver, pior! No livro eles levam mais além, bem mais além.
Soltei uma risada curta e seca, o som ecoando nos azulejos.
— Como uma moça de dezenove anos consegue amarrar um cara de trinta na cama e ele ainda acha isso "interessante"? — murmurei para o nada. — Mas, caramba... não parece tão ruim. Na verdade, é até criativo, de certo modo pode ser possível, não é? E como ela não estava bêbada, que riscos tinha? Pelo menos Eleonor e Evans conseguem levar isso de forma saudável e ter um relacionamento interessante.
Continuei lendo, e pela primeira vez, a tensão no meu peito afrouxou. A dinâmica entre Evans e Eleonor era... hipnotizante.
Havia uma leveza ácida, uma troca de farpas que me fazia esquecer, por um instante, o peso do mundo real.
Senti uma pontada de culpa. Lembrei-me das mensagens de ódio que eu tinha enviado para a autora meses atrás, usando um perfil anônimo.
Eu a chamei de "escritora de contos de fadas para mentes desocupadas" e "alguém que não entende nada da vida real, além dos comentários sujos e impróprios e ameaças de morte".
— Que idiota eu fui — suspirei, sentindo o rosto esquentar. — Eu estava apenas frustrado porque as minhas próprias crônicas não tinham dez leitores, enquanto ela movia multidões. Eu preciso me desculpar pessoalmente com essa Kat X. Onde eu estava com a cabeça?
Mas o que mais me perturbava não era a qualidade da escrita. Era a imagem. Por que, em cada descrição de Eleonor, o jeito que ela mordia o lábio, a forma como desafiava Evans,, eu só conseguia ver Katleia? E acredito que seja exatamente isso que está me fazendo gostar desse romance, as partes eróticas eram um perigo para minha sanidade, afinal era Katleia que eu via neles, e eu queria.
Sacudi a cabeça, mas o pensamento não ia embora. Levantei-me, o coração voltando a apertar, mas por um motivo diferente. Eu precisava vê-la. Agora.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!