Cap.45
O Nó que a Sobriedade não Desatou
Katleia.
O despertar veio como uma onda mansa, mas carregada de uma densidade que eu não conseguia identificar de imediato.
Havia um calor. Um peso reconfortante. Um ritmo constante de um coração que não era o meu, batendo contra o meu peito de uma forma tão sincronizada que, por um segundo, pensei que fôssemos um único organismo.
Minha mente ainda estava envolta naquela névoa espessa que o vinho Malbec costuma deixar, uma ressaca que não era apenas física, mas emocional.
Lentamente, meus sentidos começaram a captar a realidade. Eu não estava sozinha.
Abri os olhos com esforço e o que vi me fez prender a respiração.
Átila. Ele estava ali, a poucos centímetros do meu rosto, mergulhado em um sono profundo que eu raramente poderia ter.
A luz pálida da manhã filtrava-se pelas cortinas, desenhando sombras suaves na linha de sua mandíbula forte e na curva de seus lábios. Mas o que realmente me chocou foi a nossa posição.
Minhas pernas estavam firmemente entrelaçadas em volta do quadril dele. Eu o abraçava com uma possessividade que eu não sabia que possuía, o rosto enterrado na curva de seu pescoço, sentindo o cheiro de sabonete cítrico e... homem.
Era um abraço completo, um encaixe tão perfeito que não deixava espaço nem para o ar circular entre nós.
Assustada, afastei o rosto, meu coração dando um solavanco no peito. Tentei me mover, mas cada centímetro da minha pele parecia protestar contra a distância.
O constrangimento subiu como um incêndio por meu pescoço, tingindo minhas bochechas de um vermelho vivo. O que eu fiz? Parece ate que ataquei ele a noite e amarrei ele.
As memórias da noite anterior começaram a cair sobre mim como estilhaços de vidro.
A biblioteca. As cordas.
O vinho foi bebido com um desespero que não era meu.
Lembrei-me da textura da pele dele sob meus dedos, da firmeza dos seus músculos quando eu o rodeava como uma predadora pequena e tonta.
Mas a memória mais vívida, aquela que me fez apertar os olhos com força, querendo desaparecer, foi o momento em que minhas mãos deslizaram para baixo.
Eu tinha tocado nele. Por baixo da calça. Eu tinha sentido o calor proibido e a reação instintiva do seu corpo.
Uma culpa avassaladora me atingiu. Como eu pude ser tão audaciosa? Eu, que sempre temi o toque masculino como se fosse uma sentença de morte, tinha me transformado naquela criatura sedenta e perversa.
No entanto, mesmo com a culpa me corroendo, eu não o soltei. Continuei ali, admirando o homem que, em teoria, era o meu prisioneiro e protetor, mas que agora parecia apenas... meu.
Um sorriso tímido surgiu em meus lábios ao lembrar do momento mais absurdo da noite. Ele tinha me pedido em namoro. Senhorita Katleia, você quer ser minha namorada? Mesmo sendo um "namoro de tratamento", uma farsa para que eu me sentisse segura em explorá-lo, a palavra namorada ecoava na minha cabeça com uma doçura proibida.
Se fosse qualquer outro homem, qualquer um daqueles rostos que povoavam meus pesadelos ou os homens cínicos que frequentavam qualquer lugar, eu teria tido um colapso nervoso só de imaginar esse contato. Mas com Átila... o medo não era de dor. O medo era de que ele percebesse o quanto eu o desejava.
Estendi o rosto minimamente e encostei meu nariz no dele. Um beijo de esquimó silencioso, uma carícia infantil em meio a uma situação puramente adulta.
Eu apreciei a serenidade dele por um milésimo de segundo, sentindo que o mundo lá fora, com seus traumas, não podia entrar ali.
Foi então que o corpo dele reagiu.
Átila não acordou com um susto, ele acordou com um instinto de posse.
Seus braços, que estavam relaxados, subitamente se fecharam em volta da minha cintura, esmagando-me contra o seu peito com uma força vigorosa.
Ele me trouxe para tão perto que eu senti cada contorno do seu corpo rígido contra a minha maciez.
— Você ainda está bêbada? — A voz dele saiu num sussurro grave, carregada pela rouquidão do sono, vibrando diretamente contra a minha pele.
— Não... — sussurrei de volta, colocando as mãos no peito dele em uma tentativa frouxa de empurrá-lo, apenas para sentir o calor que emanava debaixo da sua camiseta. — Eu já estou bem.
Ele abriu os olhos lentamente. Não havia neblina neles. Havia uma lucidez afiada que me despiu por completo.
Ele me encarou por um longo tempo, a mão subindo para afastar uma mecha de cabelo do meu rosto.
— Como está se sentindo? — ele perguntou, o tom agora mais suave, mas ainda carregado de uma intensidade que me deixava tonta.
— Com vergonha — admiti, desviando o olhar. — E confusa. Como você veio parar na minha cama, Átila? Eu me lembro da biblioteca, mas... eu te obriguei a ficar aqui?


VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!