Capítulo 46: A Primeira Saída
quando Átila saiu do quarto de Katleia. Seus passos eram silenciosos no corredor, mas sua mente era um turbilhão. O corpo dela ainda aquecido contra o seu, a forma como se aninhara em seus braços, a paz que substituíra os pesadelos...
mas o que Selene disse na noite anterior ainda não tinha saído de sua cabeça.
Parou em frente ao quarto de Selene e Adon. Hesitou por um segundo, olhando o relógio. 5h47 da manhã. Muito cedo. Desumano, até levando em consideração os acontecimentos de ontem, ainda assim...
Bateu na porta.
Nada.
Bateu de novo. Mais forte.
Um grunhido abafado do outro lado.
Bateu novamente, agora com uma série de pancadas rápidas e insistentes.
A porta se abriu com um solavanco.
Selene apareceu na fresta, e a visão era quase cômica. Seu cabelo estava um ninho de passarinho desgrenhado, espetado para todos os lados. Seus olhos estavam semi-cerrados, inchados de sono. Ela bocejou tão alto que Átila pôde contar quantos dentes ela tinha.
— Átila? — a voz saiu arrastada, confusa. — Que horas são? O que...
Ele não a deixou terminar. Abriu a porta completamente, pegou Selene pelo braço, com uma gentileza que contradizia a urgência, e começou a arrastá-la corredor afora.
— Ei! — ela protestou, os pés descalços batendo no mármore frio. — Meu quarto! Tô de pijama! O Adon vai...
— Depois você explica para ele, além disso você é minha irmã mais nova, nem deveria estar dormindo no quarto dele.
— Não começa não! Que eu e Adon somos casados.
— Meras palavras.
— que diabos você quer?
Arrastou-a até a biblioteca, fechou a porta e a empurrou suavemente para uma poltrona. Selene caiu sentada, ainda tentando processar o que estava acontecendo, os olhos se arregalando aos poucos à medida que o sono ia embora.
— Você vai me explicar uma coisa — Átila começou, parando diante dela com os braços cruzados. — E vai explicar agora.
Selene piscou.
— Explicar o quê? Que horas são?
— Sobre a Katleia.
O nome fez Selene endireitar-se na poltrona, a expressão mudando de sonolenta para alerta.
— O que tem a Katleia?
— Você disse ontem que era culpa das meninas. Que ela tem essas reações por causa de vocês. Quero saber o que isso significa.
Selene ficou em silêncio por um momento, os dedos brincando com a barra do pijama de seda. Havia um constrangimento claro em seu rosto, como se tivesse sido pega fazendo algo errado.
— Olha — começou, a voz cautelosa —, não é bem culpa nossa. A gente só... tentou ajudar.
— Ajudar como?
Ela suspirou, resignada.
— Quando a Katleia saiu do orfanato com a gente, ela tinha pânico total de homens. Qualquer homem. Não importava a idade, a aparência, nada. Ela tremia, entrava em crise, às vezes até desmaiava, porque para ela todos fariam a mesma coisa com ela, porque seu tio era a única pessoa com quem ela lidou a maior parte da vida e, quando mudou para o orfanato de mulheres, ficou ainda mais reclusa, sem acesso a qualquer figura masculina.
Átila ouvia em silêncio, processando.
— A gente não sabia o que fazer — continuou Selene. — Até que um dia, a Gildete teve uma ideia. Uma ideia meio... louca.
— Que ideia?
Selene corou ligeiramente.
— A gente pensou: se ela tem medo de homem, a solução não seria mostrar que nem todo homem é perigoso? Que alguns podem ser... agradáveis de se ver?
— Agradáveis de se ver?
— Homens bonitos, Átila. Fortes. Daqueles que a gente pode olhar, admirar, até imaginar coisas, mas sem nenhum risco real. Homens que não podem encostar na gente se a gente não quiser.
A ficha começou a cair na mente de Átila.
— Vocês levaram ela para...
— E o hobby dela? Você disse que ela tem um hobby que precisa ser incentivado por homens pelados.
Selene mordeu o lábio, um sorriso nervoso.
— Isso é segredo. Segredo mortal. Ela tem vergonha, mas é a meta de vida dela. E tá funcionando, ela está conseguindo sucesso nisso. É uma das poucas coisas que ajudam ela a viver tranquilamente.
— Que hobby, Selene?
Ela balançou a cabeça.
— Não posso contar. Ela me mataria. Mas é algo que... — ela fez uma pausa, os olhos vidrados em algum ponto distante. — Algo que alguém quase estragou. Uma pessoa que a perseguiu, que destruiu a confiança dela por um tempo.
Átila sentiu um frio na espinha.
— Que pessoa?
— Não sei. Só que alguém a atacou de um jeito que quase fez ela desistir de tudo. Fez ela se sentir um lixo. Mas ela superou. Continuou. E agora está aí, vivendo o sonho dela, enquanto resolvemos esse problema então quanto a isso pode ficar tranquilo, você já está a ajudando tanto, e seria injusto tantos problemas nas suas costas.
Selene não sabia, é claro, que estava falando com o próprio algoz. Que o homem que quase destruíra Katleia estava ali, na sua frente, ouvindo cada palavra sem fazer ideia de que era ele o responsável.
— E vocês continuam levando ela para esses lugares? — perguntou Átila, a voz estranhamente controlada.
— Não precisamos mais. Ela tem outras inspirações agora. — Selene sorriu, enigmática. — Pessoas reais. Que fazem ela sentir coisas sem precisar de palco.
O olhar dela foi direto, carregado de significado.
Átila desviou os olhos primeiro.
— Vai dormir — disse, finalmente.
— Átila.
Ele parou na porta.
— Acho que Ela gosta de você. De verdade. Não só como inspiração. Como pessoa. Toma conta dela, tá? Apesar de vocês serem de idades diferentes e... as chances de terem algo é improvável, parece que você tem boa influência sobre ela, isso é bom.
Ele não respondeu. Apenas saiu, deixando Selene sozinha na biblioteca, com um sorriso satisfeito nos lábios e o cabelo ainda mais desgrenhado do que quando acordara.

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