Cap. 49
(Ponto de Vista: Katleia)
Átila mantinha as mãos no volante, os nós dos dedos brancos, os olhos fixos na estrada como se estivesse tentando dirigir para longe de um problema que estava sentado bem ao lado dele.
— Em vez de falar sobre a gente, por que não falamos sobre o que está te assustando? Esse novo problema? Talvez eu possa ajudar.
Ele claramente está tentando fugir do assunto e parece nervoso. Pelo menos eu percebo a cada vez que seu pomo de adão desce e sobe. Mas eu já estou cansada de ter algo sufocando o meu peito e de como eu me sinto quando ele se afasta. E agora ele me diz que vai ficar longe a semana inteira?
— Não quero falar sobre o hater — eu disse, cortando o ar antes que ele pudesse começar o interrogatório. — Não quero saber quem é esse homem, não quero ver as investigações dos Bertans. Nada disso.
Ele franziu o cenho, o perfil anguloso iluminado pelas luzes intermitentes da rua.
— Então o que você quer, Katleia?
— Quero conversar sobre... o que há entre nós.
Vi o pomo de adão dele se mover enquanto ele engolia em seco.
— Ok... vamos encarar isso. O que você quer falar?
— Você disse que éramos namorados — murmurei, apertando o cinto de segurança contra o peito. — Na biblioteca. No quarto. Você disse que isso era meu agora.
Átila soltou um suspiro pesado, um som carregado de cansaço e, talvez, de um pouco de culpa.
— Katleia, aquilo foi um... “tratamento”. Eu tentei uma abordagem para você baixar a guarda, mas acabou indo para um lado errado, não foi? Fugiu do controle.
Senti uma fisgada no peito, como se um fio estivesse sendo puxado com força.
— Fugiu do controle? Então... você quer parar?
— Eu não tenho muita escolha — ele respondeu, a voz ficando mais dura, mais “médica”. — Estou reestudando o seu caso. Preciso de uma perspectiva clara, e essa proximidade... esse teatro... está nublando tudo.
— Eu sou alguma cobaia para você? — disparei, a mágoa subindo pela garganta. — Você me testa, e como me beijou no quarto? Está me usando e depois diz que vai “estudar o caso”?
Átila parou o carro no acostamento de uma rua deserta. Ele se virou para mim, os olhos escuros brilhando com algo que parecia conflito.
— O que eu estou fazendo é apenas para te ajudar, Katleia. Você sabe disso. Como assim te usando? Não fui eu que passei perrengue com você?
— Você me deixou fazer todas aquelas coisas. Além disso, se eu estivesse sã, você me deixaria continuar? Tem certeza de que era só um tratamento?
— Eu... — ele balbuciou, apertando o volante sem conseguir me encarar. — Que droga... encurralado por uma garota...
— Você não pode ser sincero apenas uma vez? Pretende mesmo fugir e se afastar de mim?
— Por uns dias, sim. Infelizmente, eu preciso me afastar. E você está certa, eu quero ficar longe de você.
O pânico subiu como uma maré gelada. Meus olhos começaram a arder e eu abaixei a cabeça, as mãos tremendo no colo. A sensação de abandono era um fantasma familiar, um monstro que me perseguia desde os onze anos.
— Você vai me abandonar — sussurrei. — Como todos os outros.
— Promete? — perguntei, a voz ainda vacilante.
Ele me olhou de lado, um meio sorriso surgindo naquela máscara de seriedade.
— Você é difícil, Katleia. Eu tento ser o herói moral e você me arrasta de volta para o caos. Eu realmente não sei o que fazer com você.
— Se você se sente tão desconfortável com a minha idade ou com a situação — eu disse, estendendo minha mão direita para ele com o dedo mindinho levantado —, vamos fazer uma promessa de dedinho.
Átila soltou uma risada genuína, a primeira daquela noite. O som aqueceu meu peito, dissipando as sombras do hater e do meu tio.
— Você é mesmo uma criança, não é? Uma criança pervertida e teimosa.
— Faz a promessa, Átila.
Ele estendeu a mão grande e áspera, enlaçando o meu dedo mindinho com o dele.
O toque era pequeno, mas a conexão era absoluta. Com ele ali, segurando meu dedo, as ameaças de morte que eu recebia online, os ataques de ódio daquele homem anônimo que me chamava de medíocre, a sombra do meu tio... tudo desaparecia.
Átila era meu porto seguro, mesmo que ele não soubesse que era a única luz em meio ao meu escuro, então... eu só quero me segurar nele com toda a força possível, sem hesitar.
— Ok — ele disse, apertando levemente meu dedo. — Eu não vou te abandonar. Mesmo que eles queiram me afastar, eu vou ficar. Prometido.
Sorri através das lágrimas.
Naquele momento, nada disso importava. Havia apenas o toque dos nossos dedos e o pacto silencioso de que, no meio da máfia e dos traumas, nós dois éramos o único lugar onde o outro podia descansar.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!