Cap. 50
(Ponto de Vista: Átila)
Acho que eu estou ficando louco, só que parece que ela está mais feliz.
Mas... como eu conto que não entendo nada dessa promessa de dedinho? Parece ridículo e patético, mas quem sou eu para questionar a felicidade estranha e genuína dela? Só posso apoiar, contanto que não esteja assustada e em crise.
Continuei a dirigir, sem ter ideia do que mudaria e do que ela queria, mas... que seja do jeito dela. Eu só não sabia que ela já começaria a ir ladeira abaixo naquele mesmo segundo.
— Átila... não me leva para a mansão ainda. Me leva para outro lugar — ela pediu, a voz soando como um sussurro que implorava por uma fuga.
Eu franzi o cenho, o instinto de proteção brigando com a confusão.
— Para outro lugar? — Olhei para ela, tentando decifrar o que se passava naquela mente que eu tanto queria curar e que eu mesmo, em segredo, andava sabotando. — Para onde você quer ir?
Tentei puxar da memória algum lugar que pudesse acalmá-la.
— Quer ir ao parque? Caminhar um pouco?
— Gente demais — ela respondeu prontamente, encolhendo-se no banco.
— Um restaurante? Alguma coisa para comer?
— Minha barriga está cheia de ansiedade, Átila. Não conseguiria engolir nada.
Soltei um suspiro, batendo os dedos no volante. Eu estava ficando sem ideias.
— Não tenho a menor ideia de onde te levar, Katleia. Quer ir ver o lago? É isolado nesta hora.
— Pode ser... — ela hesitou. — Eu só quero um lugar calmo. Sem ninguém por perto. Só para... respirar sem sentir que alguém está me observando.
Aquela frase me atingiu em cheio. Observando. O medo dela do hater, do tio, do mundo. Olhei para o perfil dela e tomei uma decisão impensada, daquelas que o “Átila psicólogo” condenaria, mas que o “Átila homem” executaria sem pestanejar.
— Você quer qualquer lugar mesmo? Sem perguntas?
— Qualquer lugar — ela confirmou, os olhos fixos nos meus.
— Então tudo bem. Eu conheço o lugar mais calmo do mundo para nós dois.
Dirigi por mais dez minutos, saindo do burburinho do centro e entrando em uma área residencial de alto padrão, onde os prédios eram fortalezas de vidro e aço.
Estacionei na garagem subterrânea de um edifício discreto e ajudei-a a sair do carro.
Eu disse, tentando criar uma nova narrativa em minha cabeça.
Caminhei até ela e estendi a mão. Se era para levar aquela farsa de namoro adiante para ajudá-la a se sentir segura, eu faria o serviço completo. Não sei até onde. Não planejei nada. Só pensei que ela fugiria se soubesse que estamos onde é meu território e só eu tenho controle.
— Já que você aceitou... — comecei, minha voz descendo um tom enquanto eu a encarava. — E já que você parece feliz com a ideia, eu posso agir de forma um pouco mais íntima?
Ela não respondeu com palavras, apenas estendeu a mão para a minha. Enlacei meus dedos nos dela, sentindo a pele macia contrastar com a dureza da minha palma.
Conduzi-a em direção à varanda envidraçada, sentindo que, naquele apartamento, as regras do mundo lá fora não se aplicavam.
Ali, eu não era o herdeiro dos Corvos e ela não era a vítima traumatizada. Éramos apenas dois estranhos tentando descobrir como não se afogar na própria pele.
— Você quer mesmo ficar aqui? Tem certeza? — perguntei, tentando buscar algum traço de medo, com meus pensamentos duplicados e contraditórios, porque, de certa forma, eu queria que ela ficasse.
— Não se preocupe, eu quero ficar! — ela disse, com uma convicção genuína e empolgada.
— Bem-vinda ao meu mundo, Katleia — sussurrei, puxando-a um pouco mais para perto enquanto observávamos a cidade aos nossos pés. — Aqui, ninguém pode te tocar.
Só... não garanto se eu estou incluído nessa frase.

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