Cap. 51
POv. Atila.
O silêncio do meu apartamento, que sempre foi meu santuário de ordem e solidão, parecia agora vibrar com uma frequência estranha.
Ver Katleia ali, parada no meio da minha sala, era um choque para o meu sistema.
Ela parecia pequena demais para aquele espaço, e ao mesmo tempo, preenchia cada canto com uma presença que eu não sabia como gerenciar.
Eu estava inquieto. Andava de um lado para o outro, ajeitando almofadas que já estavam retas, verificando o ar-condicionado três vezes.
Eu, o homem que mantinha a calma diante de execuções da máfia e surtos psicóticos, estava suando frio porque não sabia como "entreter" uma moça de dezenove anos no meu refúgio.
— Átila... — ela chamou, sua voz suave me fazendo parar perto da bancada da cozinha. — Por que você está agindo como se estivesse pisando em ovos? Você parece... desconfortável.
Parei, coçando a nuca, sentindo um calor subir pelo meu pescoço que não tinha nada a ver com a temperatura ambiente.
— É que... — comecei, evitando o olhar dela. — Sendo sincero, eu nunca trouxe nenhuma mulher para este apartamento, Este lugar é onde eu me escondo do mundo. Não sei exatamente o que fazer com você aqui. Que tipo de programa você quer? Podemos... ver um documentário? Ou talvez você queira ler?
Ela soltou uma risada cristalina, caminhando em direção à televisão enorme que ocupava a parede principal. — Você tem uma TV maior que a da sala de cinema da mansão. E aquilo ali... — ela apontou para o console e os controles organizados — ...são jogos? Você gosta de jogar?
— É um passatempo — admiti, aproximando-me dela. — Ajuda a desligar o cérebro quando o peso das sessões de terapia ou dos negócios da família fica insuportável. É um controle que eu entendo.
Ela continuou explorando, como uma gatinha curiosa em um território novo. Meus olhos a seguiam, cada movimento dela parecendo um teste para a minha sanidade. Foi então que ela parou diante de uma mesa lateral, onde pilhas de cadernos de couro e meu laptop pessoal estavam repousando.
— Você também escreve? — ela perguntou, a mão pairando sobre a capa de um dos cadernos.
— Mercado? — Repeti a palavra como se fosse um conceito alienígena. Eu, um dos herdeiros dos Corvos, empurrando um carrinho de compras com a minha "paciente/namorada de mentira" no meio da noite?
— É. Vamos ao mercado. Comprar coisas para fazer um jantar de verdade. Sem soldados, sem Adon no nosso pé. Só nós dois.
A ideia era absurda. E, por algum motivo, era a coisa mais atraente que eu já ouvira.
— Isso! — exclamei, sentindo uma onda de empolgação que não sentia há anos. — Vamos. Conheço um mercado 24 horas aqui perto que é tranquilo.
Estendi a mão para ela, conduzindo-a para a porta. Quando meus dedos se fecharam em volta da mão dela, senti que estávamos cruzando uma fronteira perigosa.
No mercado, sob as luzes fluorescentes, seríamos apenas um casal. E o problema de viver uma mentira tão bem contada é que, em algum momento, você começa a acreditar nela e eu cinicamente queria mesmo levar isso como uma parte séria da minha vida.
E sinceramente... não me lembro se alguma vez já tive alguma namorada, só me lembro da minha paixão compulsiva por Rose.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!