Cap.52
POv. Katleia.
Se alguém me dissesse, há uma semana, que eu estaria em um supermercado 24 horas às onze da noite, liderando um cara suspeito pelo corredor de laticínios, eu provavelmente acharia que era o enredo mais absurdo do meu próprio livro.
Mas ali estava eu. E o mais engraçado era observar Átila.
Ele empurrava o carrinho como se estivesse conduzindo um tanque de guerra em território inimigo. Ele analisava cada lata de molho de tomate com uma seriedade clínica, franzindo o cenho para os rótulos.
— Átila, é apenas milho em conserva. Não precisa de uma análise tática — eu disse, rindo enquanto jogava uma lata no carrinho.
— Existem três marcas diferentes aqui, Katleia. Uma delas tem 15% a mais de sódio. Eu prezo pela eficiência do que entra no meu organismo — ele rebateu, mas vi o canto de sua boca subir.
Ele parecia fora de órbita, mas, ao mesmo tempo, seus olhos não saíam de mim. Eu me sentia estranhamente em paz. andar entre as prateleiras, ouvir o som mecânico das geladeiras e ver o tédio no rosto do caixa não me dava vontade de fugir.
Com Átila a um passo de distância, o mundo parecia menos assustador. Eu pegava os produtos, comparava frutas, e ele apenas me observava com uma admiração silenciosa que fazia meu estômago dar piruetas.
— Por que você está me olhando assim? — perguntei, pegando um cacho de uvas.
— Porque você me faz me sentir uma pessoa normal — ele sussurrou, aproximando-se. — E eu nunca imaginei que "normal" pudesse ser tão hipnotizante.
A redoma de "normalidade" que havíamos construído entre as prateleiras de cereais foi estilhaçada por um som que eu não esperava ouvir ali: o meu nome — ou melhor, o dele — sendo pronunciado por uma voz que exalava uma autoconfiança cortante.
— Átila?
Eu congelei, com um pacote de biscoitos na mão. Lentamente, me virei.
Parada ao lado de uma pilha de caixas de chá, estava uma mulher que parecia ter saído diretamente das páginas de uma revista de alta costura, e não de um mercado às onze da noite. Ela era esbelta, com cabelos longos e negros que brilhavam sob a luz fluorescente, e uma pele tão perfeita que parecia esculpida em porcelana. Meu coração apertou instantaneamente. Perto dela, eu me senti desleixada, pequena e tragicamente comum.
Átila ficou subitamente rígido ao meu lado. Ele não sorriu. Não houve brilho de reconhecimento amigável. Ele apenas murmurou, com uma voz desprovida de qualquer vontade.
— Rose.
Ela mantinha o olhar fixo nele, ignorando minha presença como se eu fosse apenas um obstáculo inanimado entre eles. O jeito que ela o olhava era... íntimo demais. Familiar demais.
— O que você quer, Rose? — Átila perguntou, seco.
— Você recebeu o e-mail do meu pai? — Ela deu um passo à frente, ignorando a frieza dele. — Ele está esperando uma resposta.
Átila a analisou por um segundo. Parecia que ele ia perguntar se ela estava bem, e por um momento ela até forçou um sorriso, mas a pergunta que saiu da boca dele foi outra, uma que a fez recuar um passo, o sorriso morrendo no rosto.
— Parece que você ficou bem até demais a ponto de conseguir se aproximar de mim.
— Você deveria ver o e-mail dele — Rose insistiu, tentando recuperar a postura. — Pelo nosso passado... eu desconsiderei o que aconteceu da última vez, então... você vai gostar da nova proposta.
Átila soltou um riso curto, carregado de um sarcasmo que me deu calafrios.
— Se você desconsiderou o que aconteceu, Rose, acredito que você precise de tratamento. Porque eu não desconsiderei.
Ela forçou um riso nervoso e, num gesto que fez meu sangue ferver de uma insegurança nova, segurou o braço dele.

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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!