Cap. 57
A luz suave do abajur na sala projetava sombras longas, mas na cozinha, o brilho frio dos embutidos de LED sobre o mármore criava um cenário quase cirúrgico para a nossa interação.
Eu a observava com uma mistura de incredulidade e uma fome que eu tentava, desesperadamente, rotular como mera curiosidade profissional.
— Você pode beber — eu disse, finalmente. Minha voz saiu mais profunda do que o normal, cortando o silêncio.
Katleia me encarou, os olhos arregalados, as mãos pequenas ainda segurando a barra da minha camisa de linho, que nela parecia um vestido curto demais para a minha sanidade.
— Sério? — ela perguntou, a voz oscilando entre a surpresa e o medo de que eu estivesse pregando uma peça. — Por quê? Você sempre diz que eu preciso manter a clareza, que o tratamento exige...
— Porque eu estou sozinho, além disso o tratamento está suspenso. — interrompi, dando um passo lento em sua direção.
O peito nu subindo e descendo com uma calma que eu não sentia de verdade.
— Não há ninguém aqui para me julgar por quebrar as regras. Nem Adon, nem Selene, nem a ética médica. Só eu e você. E então, Katleia? Ainda vai ter coragem? Mas eu não vou responder pelos meus atos.
Eu esperava que ela relutasse. Esperava que o peso da responsabilidade ou o medo do desconhecido a fizesse recuar para o casulo de segurança que ela mesmo havia construído. Mas Katleia era uma caixinha de surpresas envolta em traumas e poesia. Ela sorriu, um sorriso travesso, quase iluminado, e soltou um suspiro de alívio.
— Assim não sentirei culpa — ela murmurou, já se virando para ir em direção à bancada onde a garrafa de vinho tinto repousava. — Se você permitiu, a culpa é sua.
— Ei, pare aí — chamei, e minha voz a fez estacar no lugar. Gesticulei com o dedo, indicando que ela se aproximasse de mim novamente.
Ela obedeceu, parando a poucos centímetros. A diferença de altura me permitia ver o topo de sua cabeça e o modo como o colarinho da minha camisa revelava a curva delicada do seu ombro. Ela estava tímida, mas havia uma determinação nova brilhando nela.
— Por que não tenta sem álcool? — perguntei, baixando o tom, minha mão alcançando uma mecha de seu cabelo úmido. — O álcool é uma muleta, Katleia. Só um atalho para o que você quer, certo?.
— De fato, mas Sem álcool tem limites, Átila — ela respondeu, olhando para o meu peito antes de criar coragem para encarar meus olhos. — Eu tenho barreiras. Você sabe disso melhor do que ninguém.
Eu sorri, uma expressão que carregava uma pitada de melancolia que ela provavelmente não percebeu.
— Todas as pessoas têm limites, Katleia. É o que define uma pessoa sóbria. Essas barreiras... elas não devem ser implodidas por uma substância; elas devem ser quebradas aos poucos, com confiança, com tempo. Eu posso ser paciente para ir até onde você puder ir. Eu não tenho pressa.
Internamente, eu sentia uma pontada de ironia.
“Mesmo sem a ajuda do álcool, ela já está indo longe demais” pensei.
Ela estava no meu apartamento, vestindo minha camisa, desafiando meu autocontrole com uma inocência que era a arma mais letal que eu já enfrentara.
Suspirei, derrotado pelos olhos de súplica que ela me lançava. Aqueles olhos eram o meu ponto fraco.
— Realmente... eu não consigo dizer não a você. Que estranho. — A confissão saiu antes que eu pudesse filtrá-la.
Katleia não esperou uma segunda chance.
Ela deu um pulinho de alegria, quase infantil, e correu para a cozinha. Eu a segui com o olhar, fascinado. Como era possível? Eu a vira surtar, ter ataques de pânico e se encolher como um animal ferido perto de outros homens, até mesmo de membros da própria família. Mas comigo... comigo ela se sentia confortável o suficiente para pular de alegria por uma taça de vinho.



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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!