Cap.61
O Despertar dos Cúmplices e a Corte de Inverno
pov Katleia
O calor foi a primeira coisa que senti. Não era o calor árido do sol de verão ou o bafo abafado de um aquecedor eletrônico, era um calor vivo, rítmico, que cheirava a cedro e a uma masculinidade reconfortante.
Eu não sabia por quanto tempo havia esperado naquela sala, ou em que momento exato a exaustão emocional finalmente venceu a adrenalina do vinho, mas quando abri os olhos, o mundo parecia ter se ajustado em um ângulo perfeito.
Pela primeira vez em anos, eu acordara sem o gosto amargo de um pesadelo na boca. Não houve gritos silenciados, não houve a sensação de mãos invisíveis me puxando para o abismo. Havia apenas paz.
E havia Átila.
Percebi, com um sobressalto interno que fez meu coração dar uma pirueta, o motivo daquela segurança inédita.
Eu não estava apenas perto dele, eu estava praticamente fundida a ele. Átila estava deitado de lado, me abraçando com uma possessividade que continuava mesmo durante o sono.
Minhas pernas estavam entrelaçadas ao quadril dele, e meus braços o rodeavam com tanta força que eu o usava como se ele fosse meu próprio travesseiro humano, não sei porque sempre parece que sou eu que estou me aproveitando dele.
Quase soltei uma risada baixa. Era uma cena absurdamente cômica e, ao mesmo tempo, de uma ternura que me assustava. Aquele homem enorme, o temido herdeiro dos Felix, o psicólogo que dissecava mentes com a frieza de um cirurgião, parecia... fofo.
Seus traços estavam relaxados, a mandíbula não estava cerrada, e ele parecia apenas um homem que encontrara um porto seguro após uma longa tempestade.
Mas então, como um balde de água gelada, as memórias da noite anterior inundaram minha mente.
O vinho. A mesa de mármore. Minha audácia em pedir para vê-lo. O espetáculo de luxúria que ele me proporcionara enquanto eu estava sentada em suas coxas.
Minha face entrou em combustão instantânea. Senti o sangue latejar nas minhas bochechas e tentei me levantar com uma pressa desajeitada, quase dando um susto em Átila.
— Onde você vai? — a voz dele saiu rouca, grave, vibrando contra o meu peito enquanto ele me puxava de volta com ainda mais força, me prendendo contra seu corpo quente. — Durma mais um pouco, Katleia. Ainda é cedo.
— Não podemos! — sussurrei, lutando contra a vontade de me aninhar de volta naquele abraço. — Átila, já deve ser tarde. As meninas... Selene... Adon... Eles devem estar em uma pilha de nervos! Se eu sumir por uma noite inteira, eles vão achar que você me sequestrou de verdade!
Ele soltou um suspiro pesado, enterrando o rosto na curva do meu pescoço por um segundo antes de me soltar.
— Infelizmente, você tem razão — ele resmungou, sentando-se e passando a mão pelos cabelos bagunçados, o que o deixava irritantemente atraente. — O comitê de recepção não será gentil.
A viagem de volta foi mergulhada em um silêncio carregado, mas não era um silêncio ruim. Era o silêncio de dois cúmplices que compartilhavam um segredo que poderia incendiar a mansão inteira. Eu olhava pela janela, vendo a paisagem passar, enquanto sentia o peso do olhar de Átila em mim de vez em quando.
A cena, porém, mudou de romântica para cômica no exato momento em que ele parou o carro em frente ao portão principal da mansão.
Eu abri a porta, esperando que ele desligasse o motor, mas percebi que ele mantinha o carro ligado, as mãos firmes no volante, olhando para a entrada como se esperasse um pelotão de fuzilamento.
— Você não vai entrar? — perguntei, franzindo a testa.
— Não. Tenho coisas para fazer no escritório — ele disse, com um cinismo tão óbvio que quase chegava a ser palpável. — Você está entregue. Sã e salva. Vá lá.
Eu parei com a porta aberta, encarando-o com um ceticismo absoluto.
— Você está brincando, não é? — cruzei os braços. — Você me deixa a noite toda fora de casa, me faz passar por tudo aquilo, e agora não tem a responsabilidade de me levar de volta para enfrentar a fera que é o seu irmão e a preocupação da Selene?
— Katleia, eu sou um homem muito ocupado, além disso o que aconteceu ontem foi porque você quis. — ele disse, olhando para o relógio como se tivesse uma reunião com o Papa. Mas eu via o suor frio na têmpora dele. Ele estava com medo do Adon certeza, um marmanjo desse!
— Ocupado com o quê? Com a sua covardia? — soltei uma risada indignada. — Você não vai me deixar sozinha nessa! Se você não entrar comigo agora, Átila, eu juro que entro naquela sala e conto cada detalhe da nossa noite. Desde o primeiro gole de vinho até o momento em que você...
— Ok, ok! Vamos entrar! — ele cortou, desligando o carro com uma agressividade teatral. Ele me encarou, os olhos faiscando. — Mas o que eu ganho com isso? Além de um sermão de três horas do Adon? Ainda assim ate parece que você tem coragem para contar. — ele bufou com deboche.
— Você ganha a minha gratidão e o fato de eu não destruir a sua reputação de "homem sério" em cinco minutos — respondi, saindo do carro.
Ele saiu logo em seguida, batendo a porta. Caminhou até mim, parando na minha frente e apontando o dedo de forma acusadora.
— Você é mesmo uma cínica, sua pervertida — ele sibilou, embora houvesse um brilho de diversão no fundo dos olhos. — Olha só... até então, só você se aproveita de mim. Isso é justo? Você é uma pervertida sem vergonha! Como pode exigir que eu enfrente minha família se eu nem te acuso de assédio? Como assim você virou a carnívora da relação da noite para o dia?
Eu o encarei sem reação por um segundo, a boca aberta pela audácia das palavras dele.
— Carnívora?! Eu?! — apontei para mim mesma. — Você foi quem começou tudo aquilo!
— E você adorou! — ele rebateu, aproximando-se mais, invadindo meu espaço. — E ainda é virgem! Como pode ser tão assanhada sendo que nem sabe o que fazer com metade das coisas que viu ontem?
— Eu não sou assanhada! E muito menos virgem. — protestei, sentindo meu rosto ferver novamente.
— Se você ainda não ficou comigo, você é com certeza — ele disse, com uma confiança irritante. — Eu sou seu primeiro namorado, baby. Falando nisso... eu quero resolver essa sua "curiosidade" logo.

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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!