Cap.63
Átila ajeitou a camisa de linho amassada, sentindo a ardência na bochecha onde um sapato ou uma almofada, ele já não tinha certeza de qual objeto fora, o atingira.
Ele olhou para o topo da escada, por onde Katleia acabara de desaparecer com a graça de uma rainha vitoriosa, e soltou um rosnado baixo.
— Eu sou a vítima! — Átila exclamou, sua voz falhando levemente pela indignação. — Vocês viram o que ela fez? Ela me manipulou, me usou como escudo humano e agora me jogou aos lobos! Vocês esqueceram o que aconteceu naquela biblioteca? Eu fui assediado! Eu temi pela minha integridade!
Adon, que permanecia encostado na pilastra com os braços cruzados, soltou uma risada seca que cortou o drama de Átila como uma navalha.
— Poupe-nos do seu teatro, Átila — disse Adon, sua voz carregada de um cinismo profundo. — Você se sacrificou para "ajudá-la", não foi? Sei bem o tipo de ajuda que você oferece em apartamentos isolados à meia-noite. Se ela fizer algo, Ela está apenas cobrando a conta. E, pelo que vejo, os juros estão saindo bem caros para o seu orgulho.
William, que ainda mantinha a mão protetoramente na frente de seu membro após as revelações de Adon sobre a força de Selene, balançou a cabeça em sinal de desaprovação.
— É melhor você ficar quieto, Átila — aconselhou William. — Quanto mais você fala, mais as meninas parecem querer testar a resistência das suas costelas e de suas bolas.
Adon ignorou os resmungos de Átila e voltou sua atenção para o pequeno Ryuk.
O menino estava sentado no braço do sofá agora ao lado de Gildete que acabara de se sentar, observando o caos com uma calma que não pertencia a uma criança da sua idade. Havia algo no olhar de Ryuk, um brilho de inteligência fria e observação, ele parecia calmo demais para uma situação como aquela.
— Chega de palhaçada — Adon decretou, batendo no braço de William. — Pegue seu filho. Vamos sair. Ele é um membro desta família agora, quer você queira ou não. Vamos passá-lo pela iniciação. Ele precisa entender quem somos.
O clima na sala mudou instantaneamente. Gildete empalideceu, suas mãos apertando o tecido do vestido.
Ela encarou William com um desespero silencioso, um pedido mudo para que ele impedisse o que estava prestes a acontecer.
A mentira que eles construíram, o frágil castelo de cartas sobre a origem de Ryuk, parecia prestes a ruir sob o olhar inquisitivo de Adon.
— Adon, espere — William interveio, a voz soando mais tensa do que pretendia. — Ele ainda está doente. O menino mal se recuperou. Não é hora para iniciações ou rituais de família. Deixe-o descansar.
Gildete rapidamente se juntou à defesa, a voz trêmula.
— Sim, ele ainda está muito fraco. Ele precisa de cuidados, de... de sopa e repouso.
Adon soltou um suspiro de impaciência, dando um passo em direção ao menino.
— Gildete, sou eu quem cuida de todas as engrenagens desta casa. O médico já veio, já examinou o menino e me deu o relatório. Eu não sou imprudente. Ele está fisicamente apto. Além disso... ele é filho de William. William decide, mas... eu decido por William também e o menino vem!
Adon voltou o olhar afiado para William, desafiando-o.
— Em breve, o Conselheiro vai querer conhecer o neto. Temos que deixá-lo apresentável. Não sei em que esquina você encontrou essa criança, William, mas ele parece ter vindo do mesmo buraco que a Selene — ele fez uma pausa, olhando para a esposa — ...sem preconceito, ok?
Selene apontou o dedo para Adon, os olhos faiscando.
— Não começa, Adon! O menino está bem limpo, arrumado e cheiroso. Ele não é um mendigo.
— droga... será que... — Gildete murmurou preocupada, mas não podia impedir.
Assim que Adon e William saíram levando com eles Ryuk, Átila se levantava do sofá com a dignidade de um rei exilado. Ele ignorou os olhares de Selene e Gildete, que ainda pareciam prontas para uma segunda rodada de almofadas. Seu foco era um só: a garota que o transformara em piada diante de sua família.
Ele subiu os degraus da escada em passos lentos e deliberados.
Cada passo era impulsionado pela lembrança do toque dela no apartamento e pela fúria de ter sido "derrotado" pelo teatro dela na sala.
Ao chegar em frente à porta do quarto de Katleia, Átila não parou para bater.
Ele não pediu permissão e certamente não esperaria um convite que não viria de alguém que só queria fugir e se esconder.
Ele era o dono daquela casa, o dono daquelas regras e, em sua mente distorcida pela adrenalina e pelo desejo, ele sentia que tinha uma dívida a cobrar.
Seus dedos longos digitaram o código de segurança na fechadura eletrônica com uma precisão gélida. O som do mecanismo destravando foi o único aviso.
Átila abriu a porta e entrou.
Katleia estava de pé perto da janela, ainda vestindo a camisa dele, os cabelos levemente bagunçados. Ela se virou bruscamente, o susto evidente em seus olhos, mas Átila apenas fechou a porta atrás de si, encostando-se nela e cruzando os braços. O "mocinho" havia ficado lá embaixo; o homem que ela provocara até o limite estava agora trancado com ela.
— Você achou mesmo que ia sair impune dessa, Katleia? — ele perguntou, sua voz agora um sussurro perigoso que preenchia todo o quarto.

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