Cap.64
A Cura após a Tormenta
POv Katleia.
O clique eletrônico da porta soou como uma sentença de morte no silêncio do meu quarto.
Eu ainda estava perto da janela, tentando processar o turbilhão das últimas horas, as almofadas voando, os xingamentos de Selene, a minha própria audácia de ter apontado o dedo para Átila e acusado ele na frente de todo mundo, quando a trava se ativou.
Meu coração deu um salto tão violento que por um segundo achei que ia sair pela boca.
Pronto, Katleia. Você foi longe demais. Agora ele vai te dar um sermão sobre limites, ou pior, vai usar aquela voz gelada que faz a gente se sentir um inseto insignificante.
Me virei bruscamente, os pés descalços girando no tapete macio, pronta para enfrentar um Átila furioso, com os olhos cinzentos transformados em tempestade.
Pronta para receber o troco pelas almofadas, pelos gritos, por Selene ter praticamente o deserdado.
Mas o homem que caminhava em minha direção não parecia nenhum predador.
Ele parecia... cansado. E havia algo nos olhos dele que eu não sabia nomear.
Antes que eu pudesse abrir a boca para balbuciar uma desculpa, ou um desafio, porque com Átila eu nunca sabia se precisava me defender ou me render, ele me alcançou.
E num movimento tão fluido que parecia coreografado, me envolveu nos braços e me puxou contra o peito.
Congelei.
Meus sentidos foram inundados por ele. Aquele cheiro, sabonete caro, o leve toque de vinho que ainda parecia pairar entre nós, e algo fundamentalmente dele que fazia meu cérebro desligar e meu corpo querer se aninhar ali para sempre.
Mas eu estranhei. Esperava gritos. Esperava frieza. Esperava qualquer coisa, menos isso.
— Átila? — minha voz saiu abafada contra o peito dele, contra o tecido macio da camisa que eu reconhecia tão bem. — Você... você não está chateado?
Ele riu.
Uma risada curta, baixa, que vibrou no peito dele e ecoou no meu ouvido colado ali. Então ele me afastou só o suficiente para olhar meu rosto, mas as mãos dele permaneceram na minha cintura, firmes, quentes, presentes.
— Nem um pouquinho — respondeu, e eu vi: um brilho de diversão genuína nos olhos cinzentos. Não era ironia. Era calor.
Pisquei, confusa. A cena da sala ainda estava fresca na minha memória.
— Mas... você apanhou das meninas! — gaguejei. — Elas te xingaram de tudo quanto é nome, e a Selene quase te deserdou, Átila! Eu menti na cara de todo mundo, falei que você me maltratou quando na verdade você... bem, você sabe o que você fez ontem à noite.
Ele sorriu de canto. Um sorriso diferente. Era quase... terno.
Uma mão dele soltou minha cintura e subiu até meu rosto, afastando uma mecha de cabelo que teimava em cair sobre meus olhos. O toque foi tão leve que quase arrepiei.
— Katleia — a voz dele era baixa, paciente, como se estivesse explicando algo a uma criança querida. — Para um homem que vive cercado por pessoas que se escondem atrás de máscaras de submissão ou medo, ver você reagir é a melhor coisa que pode acontecer, eu so estava brincando, so queria te assustar um pouco.
Ele inclinou o rosto, se aproximando. Seu hálito quente roçou minha testa.
— É engraçado te ver irritada. É fascinante ver você criando coragem para se defender, mesmo que seja com mentiras teatrais, em vez de apenas se encolher no canto e esperar o pior. Eu prefiro mil vezes o seu tapa e o seu show na sala do que o seu silêncio assustado. Você está aprendendo a lutar, Mesmo que os alvos sejam os meus ombros.
Foi como se alguém tivesse virado uma chave dentro de mim.
A adrenalina da vingança, a euforia de ter enfrentado ele, a sensação de poder que eu senti quando Selene acreditou na minha mentira, tudo isso dissipou num segundo, substituído por um remorso tão agudo que quase doeu fisicamente.
Ele não está bravo. Ele tinha feito de proposito?
Meus olhos se arregalaram, e eu senti o calor subir pelo meu rosto.
Comecei a analisar cada centímetro do rosto dele, procurando sinais de que aquilo era alguma brincadeira cruel, algum jogo mental.
Foi quando eu vi.
Uma mancha avermelhada na bochecha dele, logo abaixo do osso da mandíbula. Uma marca clara, viva, onde um dos golpes, provavelmente o sapato que Gildete arremessou com uma pontaria digna de jogadora de futebol, havia acertado em cheio.
— Oh, Átila... — o suspiro escapou antes que eu pudesse controlar, minha voz carregada de culpa.
Minha mão se ergueu hesitante, trêmula, como se pedisse permissão para tocar. Quando meus dedos finalmente encontraram a pele dele, foi o toque mais leve do mundo, quase uma borboleta pousando.
— Você está bem? — sussurrei. — Dói muito? Eu não devia ter incentivado elas... eu só estava brava porque você me chamou de perigosa na frente de todo mundo, e eu...
Ele balançou a cabeça, negando. Fechou os olhos por um segundo, e eu vi, eu senti que ele estava apreciando meu toque, que aquele contato significava algo para ele.
— Eu já passei por coisas muito piores do que almofadas e xingamentos de irmãs mimadas, acredite em mim. — A voz dele estava calma, serena. — Isso aqui? É apenas um troféu de guerra.
Mas eu não me dei por satisfeita. Então eu o abracei de novo.
Dessa vez por iniciativa própria. Dessa vez escondendo o rosto no ombro dele, enterrando o nariz na curva do pescoço dele, sentindo o calor da pele dele contra a minha.
— Eu gosto tanto de você — a confissão saiu num sopro, honesta e vulnerável, sem nenhum dos escudos que eu costumava levantar. — Às vezes eu acho que é errado, ou que eu estou ficando louca, mas eu gosto. De verdade.
Minhas mãos correram pelas costas dele, sentindo a musculatura firme sob o tecido.
Eu queria memorizar cada centímetro daquele corpo, cada textura, cada calor. Queria gravar na pele a sensação de estar nos braços dele.
Ele me apertou mais forte. O queixo dele apoiou no topo da minha cabeça, e eu senti a respiração dele profunda, estável.
E senti meus pés perderem o chão só dele se erguer, droga... ele sempre me faz me sentir um nada...
— E eu nem preciso dizer o que sinto, não é? — murmurou me deixando tocar o chão novamente. — Minhas ações de ontem à noite foram mais eloquentes do que qualquer diagnóstico que eu pudesse te dar.
Levantei o rosto, encarando-o. E pela primeira vez, senti que não era a menina frágil que tinha entrado naquela casa meses atrás.
Ele parou na porta, virando-se com uma sobrancelha arqueada.
— Eu não fujo, Katleia. Eu apenas faço uma retirada estratégica.
E piscou.
Piscou.
Eu fiquei parada no meio do quarto, sentindo o sorriso bobo que não queria abandonar meu rosto. A porta se fechou, mas dessa vez o clique não soou como sentença. Soou como promessa.
Corri para a porta antes mesmo de perceber o que estava fazendo.
Abri uma fresta, só o suficiente para espiar o corredor, e vi ele caminhando em direção à escadaria de mármore, as mãos nos bolsos, assobiando baixinho uma melodia que eu não reconhecia. Ele parecia tão leve, tão solto, que meu coração se apertou de alegria.
Mas aí eu vi Selene subindo as escadas.
Ela estava com os braços cruzados, a expressão carregada, os olhos estreitados em desconfiança pura. Parou no degrau superior, bloqueando a passagem de Átila.
— Átila? — a voz dela era afiada como vidro. — O que você estava fazendo aqui em cima? Eu pensei que você ia para o escritório, além disso Adon não te chamou para ir com ele?
Ele não perdeu o passo. Parou na frente dela com a mesma postura imponente de sempre, mas o sorriso que abriu era pura provocação.
— Fui apenas verificar se a minha paciente não precisava de algum calmante após o surto que ela teve na sala — mentiu com uma perfeição tão irritante que eu quase ri alto. — Ela está bem, Selene. Dormindo como um anjo. Recomendo que você faça o mesmo. Você parece... tensa.
Selene estreitou ainda mais os olhos, examinando o rosto dele. A bochecha ainda brilhava levemente por causa da pomada.
— Por que seu rosto está brilhando, Átila?
— Suor, minha querida irmã. Fugir de vocês exige um esforço físico considerável.
Ele passou por ela com um tapinha amigável no ombro.
— Ai! — gemeu em seguida, levando a mão à panturrilha. Selene tinha chutado ele.
— Parece que não apanhou o suficiente! Não é? — a voz dela ecoou escada abaixo.
— Parece que seu espirito de cavalo ainda não saiu, irmãzinha, cuidado com os coices que anda dando por ai.
— você... você me chamou de cavalo? O que anda acontecendo com você!? Anda agindo como criança!
Mordi o lábio para não rir. Ali, na fresta da porta, eu via tudo. Via ele descendo as escadas com aquela postura imbatível, mesmo mancando levemente. Via Selene bufando no degrau superior.
Fechei a porta devagar, encostando as costas na madeira fria. Soltei um suspiro longo, profundo, que parecia ter saído do fundo da minha alma.
Meu coração ainda dançava uma valsa descompassada.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!