Cap.65
POv Atila.
Eu ainda podia sentir o fantasma do toque de Katleia na minha bochecha, o rastro daquela pomada fria contrastando com o calor que ela sempre conseguia despertar em mim.
Parei exatamente na metade da escadaria de mármore, o corpo ainda vibrando com a leveza daquela interação no quarto.
Eu estava sorrindo pateticamente sorriso, não aquela máscara expressão gélida que reservava para os negócios da família.
Mas o vibrar do celular no meu bolso interrompeu o devaneio.
Era uma mensagem de Adon. Curta, direta e ligeiramente desesperada, embora ele jamais admitisse o uso dessa palavra.
“Estamos na Maison Petit. William está perdendo a cabeça e o garoto parece um personagem de Dickens. Venha ajudar.”
Soltei uma risada baixa, o som ecoando pelo hall vazio. Imaginei Adon, o homem que comandava execuções e estratégias de mercado sem piscar, sendo derrotado por cabides de roupas infantis e o choro de uma criança.
— Interessante — murmurei para mim mesmo, guardando o aparelho.
Apoiei as mãos no corrimão e olhei para o andar de baixo. Dali, eu tinha uma visão privilegiada do "ninho". Maju, Mima e Gildete estavam sentadas no círculo de poltronas perto da lareira apagada.
Elas conversavam em tons baixos, mas a linguagem corporal de Gildete era um livro aberto para mim.
Ela não apenas participava da conversa, ela estava inquieta. Suas mãos não paravam de alisar a saia, seus olhos vagavam constantemente para a porta principal, e havia uma tensão nos ombros que não condizia com o momento, pelo que conseguir brevemente ouvir, logo entendi sobre o que se tratava.
Gildete demonstrava preocupação demais com Ryuk. Coisa que ninguém mais ousava observar, Havia um segredo ali, uma peça solta no quebra-cabeça de William que eu ainda não havia encaixado totalmente, mas que agora brilhava sob o meu radar analítico, assim como também nas suspeitas de Adon que conhece William melhor do que ninguém.
— Agora eles vão saber por que sou considerado um bom estrategista — disse em voz alta, embora ninguém pudesse ouvir. — Nada como um pouco de caos organizado para fazer as verdades virem à tona.
A Maison Petit, vamos ao Caos em Tecido Nobre
A loja de roupas adultos e infantis masculinas era o epítome do luxo desnecessário.
O cheiro de talco caro e algodão egípcio era quase sufocante.
Quando entrei, vi Axel sentado em um sofá de veludo bege, a imagem perfeita do tédio aristocrático, até ele não tinha escapado.
Ele observava a cena à sua frente com um desdém mal disfarçado.
Adon e William, por outro lado, pareciam dois generais tentando planejar uma invasão em um terreno pantanoso.
William segurava três cabides com mini-smokings, enquanto Adon analisava um par de sapatos de verniz como se estivesse verificando se havia escutas neles.
Sentei-me ao lado de Axel, cruzando as pernas e ajustando os punhos da minha camisa.
— O que a gente tem a ver com isso? — Axel resmungou, sem tirar os olhos do teto. — Desde quando a iniciação de um Corvo consiste em escolher entre azul-marinho e cinza-chumbo para uma criança de seis anos?
— Deixe Adon se divertir — respondi, observando meu irmão mais velho franzir a testa para uma gravata borboleta. — Daqui a pouco essa maré boa acaba. O pai está pressionando, a sucessão é iminente. Adon terá que carregar o peso da coroa em breve. Deixe que ele se estresse com botões por enquanto.
Axel finalmente se endireitou, saindo da sua letargia. Ele me olhou de soslaio, e o brilho em seus olhos mudou. Havia algo sério ali, mas as dúvidas em mim gritava mais alto.
— E você? O que anda fazendo? — perguntei.
— Nada demais e você? Parece que levou bem a sério a parte de se manter longe dos negócios pesados ultimamente. Ou é apenas a "paciente" que está tomando todo o seu tempo?
Ignorei a provocação sobre Katleia, embora o nome dela tenha causado um leve formigamento no meu peito.
— O que você descobriu, Axel? Sei que você não esteve apenas jogando videogame nas últimas semanas.
Axel inclinou-se em minha direção, baixando a voz como se estivéssemos em uma zona de guerra, e não cercados por ursinhos de pelúcia de grife.
— Tem um problema — ele começou. — Eu estive trabalhando ao lado do pai e investigando cada passo dele, como você sabe. Adon vai suceder o patriarca para que o velho possa finalmente entrar no Senado com as mãos "limpas e assim encobrir a máfia. Mas... ele ainda pretende selar a aliança com o pai de Rose.
Encarei Axel, genuinamente confuso.
— Como ele pensa em se aliar ao pai dela se aquele homem só aceita alianças através de sangue? Casamento é a única moeda de troca que ele reconhece.
Axel deu de ombros, um gesto carregado de um fatalismo cínico.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!