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Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 259

Cap.66

CAOS NA MAISON PETIT

O ar na Maison Petit tinha aquele cheiro específico de dinheiro antigo, talco de luxo, madeira encerada e o tilintar discreto de cabides de prata batendo uns nos outros como sinos de uma catedral do consumo.

Era um ambiente projetado para a serenidade, para que as elites comprassem em paz, sem serem incomodadas pela plebe.

Mas a paz nunca foi minha especialidade.

Eu estava sentado no grande sofá de veludo capitonê, observando a cena com a paciência de um mestre de xadrez que acabara de posicionar sua peça mais importante.

Meu irmão e William se espalhavam pela loja como generais ocupando território inimigo, cada um absorto em sua própria missão.

Adon examinava um terno miniatura para Ryuk com a seriedade de quem escolhe uma armadura para a batalha final.

William segurava o menino no colo, apontando para cores e texturas, os dois compartilhando uma intimidade silenciosa que me fez arquivar a informação para futuras provocações.

Ao redor, as vendedoras mantinham distância respeitosa, ou medrosa , mas os olhares eram inevitáveis. Quatro homens de presença exagerada não passavam despercebidos em lugar nenhum.

Olhei para o relógio de pulso. Os ponteiros marchavam ao ritmo da minha antecipação, cada segundo me aproximando do momento que eu mesmo havia orquestrado. A coceira debaixo da pele era familiar — aquela excitação controlada que antecedia cada um dos meus pequenos experimentos sociais.

Basta esperar quinze minutos, pensei, um sorriso leviano curvando meus lábios. E a peça final do meu tabuleiro cruzará aquela porta e eu vou poder tornar meu tempo em algo de qualidade.

— O que você aprontou agora, Átila?

A voz de Axel veio do canto do sofá, onde ele estava jogado com a perna cruzada e uma expressão de tédio que eu sabia ser fingida.

Ele me conhecia bem demais. Conhecia aquele brilho nos meus olhos, o mesmo que eu exibia quando acabava de sabotar um sistema ou orquestrar um colapso emocional.

— Esse seu sorrisinho de "eu sei algo que vocês não sabem" é sempre o prenúncio de um desastre — ele completou, a voz baixa, carregada de desconfiança.

Eu nem me dei ao trabalho de olhar para ele. Meus olhos continuaram fixos na porta de vidro.

— Ah, meu caro Axel... você já vai saber. É uma lição de logística e... reencontro. — Levantei uma sobrancelha, apreciando o momento.

— Vamos lá, em três, dois, um...

O sino de cristal acima da porta tocou.

O som, normalmente suave, pareceu uma fanfarra de guerra nos meus ouvidos. E então elas entraram, uma frente fria atingindo uma planície ensolarada, um furacão de saias e ansiedade feminina invadindo o território sagrado da masculinidade.

Perfeito.

Gildete foi a primeira a romper o perímetro, e confesso que sua performance superou minhas expectativas.

Ela não entrou para fazer compras. Ela entrou para um resgate.

A respiração dela estava curta, os olhos varrendo o salão com um desespero tão genuíno que quase me fez sentir um ponta de culpa.

Quase.

Assim que avistou William, ela ignorou todas as convenções sociais, e olha que Gildete era a própria encarnação das convenções sociais, e avançou como uma leoa protegendo o filhote. Segurou o braço dele com uma força que o fez estremecer.

— O que está acontecendo aqui? — A voz dela tremia, os olhos revistando o rosto de William em busca de sinais de perigo. — Por que você o trouxe para cá se ele está mal?

William, coitado, parecia um cervo diante dos faróis. Ele olhou para mim por cima do ombro de Gildete, e eu respondi com o sorriso mais inocente que consegui fabricar.

— Calma, Gildete. Respire — ele disse, colocando a mão sobre a dela com uma paciência quase paternal. — Só estamos nos divertindo. O menino está perfeitamente bem.

Gildete parou. Piscou. Seus olhos desceram para Ryuk, que estava de pé sobre um pequeno pedestal de alfaiataria, e eu vi o momento exato em que a ficha dela caiu.

O menino não estava doente. Ele era uma visão de elegância precoce. O traje completo de grife, em tons de azul profundo e cinza, o fazia parecer um pequeno aristocrata italiano recém-saído de um retrato do século XVIII. E a semelhança com William, agora que estavam vestidos com o mesmo padrão de sofisticação, era quase assustadora, não é que o menino é mesmo filho dele... afinal... como eles teriam os mesmos traços agora que o cabelo do menino esta escovado e usando a mesma roupa?

Ryuk sorriu para ela, os olhos brilhando com a novidade.

— Mas... mas... — Gildete gaguejou, a confusão substituindo o medo. — Eu pensei que... Átila disse que...

— Não estrague este momento entre homens, Gildete, que preocupação é essa com o filho dos outros? Ou... o filho é de vocês dois?

— Claro que não! — os dois disseram uníssono mas foi tão divertido.

— Bom... isso já está na cara, afinal a criança não tem nada seu, mas em compensação, ele está agora uma cópia fiel do pai, me deu até calafrios, se alguém duvidar que é seu filho, eu mato! Ok? Somos amigos!

Cassete! Adon disse com uma seriedade de amigos que me fez até ter calafrios, mas de fato, nem mesmo precisa de teste, essa criança é sem dúvida de William, seja quem for a puta que ele pegou fez um bom trabalho, pena que abandonou a criança.

Por alguma razão William também está sem reação analisando o menino, sabe lá qual os pensamentos que lhe incomodaram agora.

Mas não consegui segurar o riso quando ele tirou o celular e tirou uma foto com o menino para conseguir analisar seus rostos, ele está até pálido, como se tivesse fazendo alguma descoberta.

Adon por sua vez agora estava diante de um espelho de corpo inteiro, provando uma gravata de seda para si mesmo, como se a loja infantil fosse sua alfaiataria pessoal. A imagem era tão absurda que eu quase ri com sua vaidade.

— Estamos resolvendo questões de linhagem e estilo — Adon continuou, impassível. — O menino precisava de uma armadura nova.

Gildete sentiu o sangue subir ao rosto. Ela se virou bruscamente e me encarou com um olhar de acusação pura, daqueles que prometiam vingança futura. Eu apenas recostei no sofá, a imagem da inocência calculada.

Mas meu interesse por ela nunca existiu, era so porque se ela viesse, minha pequena tigresa estaria bem ali.

Meus olhos encontraram os dela.

Katleia estava parada a poucos metros, e o ar pareceu rarear ao meu redor quando finalmente a encontrei.

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