Cap 72,
O Jantar nas Nuvens e a Queda das Máscaras
Pov. Katleia.
O elevador panorâmico do Edifício Felix subia com uma suavidade quase imperceptível, mas para mim, cada andar que deixávamos para trás parecia uma camada de realidade que se desprendia. Dentro daquela caixa de vidro e aço escovado, o silêncio era preenchido apenas pelo som da nossa respiração e pelo roçar suave da seda do meu vestido azul contra o tecido do paletó de Átila. Ele estava parado atrás de mim, sua presença como uma âncora em meio à vertigem da subida. No reflexo do vidro, eu via seus olhos — cinzentos, profundos e focados apenas em mim.
Quando as portas se abriram no quadragésimo andar, o mundo lá fora simplesmente desapareceu.
A cobertura do Felix não era apenas um restaurante; era um jardim suspenso nas nuvens. O ar noturno da cidade de Monselha, carregado com a umidade e o perfume de jasmim das jardineiras suspensas, nos atingiu como uma carícia.
O chão era de madeira escura e polida, e as mesas eram estrategicamente afastadas umas das outras, cercadas por paredes de vidro que davam a ilusão de que estávamos flutuando sobre o abismo de luzes da cidade.
Átila colocou a mão espalmada na base das minhas costas, ali onde o vestido revelava a minha nudez. O toque de sua palma quente contra a minha pele fria pela brisa da noite me fez suspirar. Ele me conduziu até uma mesa isolada, no ponto mais alto do terraço, protegida por uma cortina de seda branca que balançava suavemente ao vento.
— É como se o mundo tivesse parado — sussurrei, enquanto ele puxava a cadeira para eu me sentar.
— Para nós, nesta noite, ele parou — Átila respondeu, sua voz soando como um veludo sombrio.
Ele não se sentou imediatamente. Primeiro, inclinou-se sobre mim, suas mãos apoiando-se nos braços da minha cadeira.
Seus dedos longos estavam a milímetros da minha pele, e ele usou o indicador para afastar uma mecha de cabelo que o vento teimava em jogar sobre o meu rosto.
O gesto foi tão lento, tão carregado de um cuidado quase devocional, que eu fechei os olhos para sentir melhor a vibração que ele emanava.
— Você está deslumbrante sob o luar, Katleia. O azul desse vestido... ele não apenas te veste. Ele parece ter sido feito para ser a moldura da sua pele.
Ele se sentou à minha frente, mas não retirou a atenção de mim nem por um segundo.
A luz das velas na mesa dançava em suas pupilas.
Átila era, naquela noite, a personificação de um cavalheiro romântico, mas havia uma intensidade em seus gestos que ia além da etiqueta.
Ele estendeu a mão sobre a mesa, a palma voltada para cima, em um convite mudo. Eu coloquei a minha mão sobre a dele, sentindo o contraste de tamanho e força. Ele começou a acariciar o dorso da minha mão com o polegar, em movimentos circulares que pareciam hipnotizar meu sistema nervoso.
O jantar foi uma sucessão de sensações sensoriais. Sabores cítricos, vinhos que pareciam veludo e conversas que flutuavam entre o riso e confissões baixas.
Mas, apesar de todo o luxo e do romance, eu sentia o peso das palavras não ditas entre nós. Contudo, ao olhar para ele, ao sentir o toque de seus dedos brincando com os meus, eu não queria pensar no amanhã.
— Eu não quero ir para casa — a confissão escapou dos meus lábios antes que eu pudesse filtrá-la.
Átila soltou uma risada baixa, um som rico e quente que me fez estremecer.
— Nunca? — ele perguntou, com uma surpresa genuína que rapidamente se transformou em um prazer predatório. — Então esta é a sua chance, É a sua noite de primeiras vezes. A primeira vez que você foge de um shopping, a primeira vez que usa um vestido que desafia a gravidade... e pode ser a primeira vez que descobre como é relaxar de verdade, sem preocupações, sem medos, estando ao meu lado, não tem com o que se preocupar.
Ele se levantou lentamente. O movimento foi fluido, elegante, o corpo esguio e imponente se destacando contra o fundo negro do céu. Ele contornou a mesa e parou ao meu lado. Senti o calor de sua perna roçar o meu braço. Átila estendeu a mão para mim, a palma aberta, os dedos longos esperando.
— Venha comigo — ele disse, e não era mais um pedido, era um chamado. — Esqueça a Gildete, esqueça o Adon, esqueça todos. Esta noite, não há contratos, não há pacientes e não há obrigações. Há apenas eu e você, em uma ilha de vidro acima do mundo. Você confia em mim para te mostrar o resto do caminho?
Eu olhei para a mão dele. Uma mão que sabia ser letal, mas que até agora só me trouxera cuidado a mesma que me vestira com a paciência de um artesão e que agora me oferecia um refúgio.
Eu não respondi com palavras.
Coloquei minha mão na dele, sentindo seus dedos se fecharem imediatamente ao redor dos meus, um encaixe perfeito.
— Eu confio — sussurrei.
Átila sorriu, um sorriso que não era mais cético, mas carregado de um triunfo. Ele me puxou para perto, sua outra mão encontrando novamente a minha cintura, guiando-me para longe da mesa, para longe do restaurante e em direção ao elevador que nos levaria para as profundezas do luxo escondido naquele lugar.
E que por acaso eu estava ansiosa para ver e descobrir tudo que poderia acontecer.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!