Cap.76
O Peso da Coroa de Espinhos
POv Katleia.
Eu tentei manter o queixo erguido, mas minhas mãos tremiam tanto que tive de escondê-las nas dobras da seda azul do vestido. O mesmo vestido que, minutos atrás, parecia uma armadura de poder, agora parecia apenas um disfarce ridículo.
— O que você quer, Rose? Ele já foi. Você ganhou o que queria, ele vai encontrar o seu pai, pelo que ouvi vocês estão prometidos? Então não tenho o que lutar, o que quer? — minha voz saiu mais firme do que eu esperava, mas ainda carregava a fragilidade do meu estado emocional.
Rose soltou uma risada melodiosa e cruel. Ela caminhou em minha direção, o som de seus saltos no piso de madeira soando como marteladas em um caixão.
— O que eu quero? Ah, querida, eu já tenho o que quero. Eu tenho o nome dele, o futuro dele e, acima de tudo, o legado dele. Você acha que o que aconteceu nesta cama — ela apontou para os lençóis desfeitos com um desdém supremo — significa algo no nosso mundo? Átila é herdeiro de um império. Casamentos, para homens como ele, são ferramentas de poder. Devem trazer benefícios, alianças, expansão. O que você traz, Katleia? Traumas? Um diário de sonhos?
— Nós nos amamos — eu disse, a palavra "amor" soando como um escudo desesperado. — Não é como você e esses burocratas que prendem as pessoas por interesse. Ele se importa comigo.
Rose parou a centímetros de mim. O cheiro do perfume dela era sufocante e insuportável demais.
— Ele te ama? — ela perguntou, arqueando uma sobrancelha com um deboche genuíno. — Já perguntou isso a ele? Homens como o Átila não se apaixonam assim, do nada, por meninas perdidas. Átila amou apenas uma mulher em toda a vida dele. Ele passou anos esperando por este acordo, por esta oportunidade de consolidar o que é nosso. Ele é apaixonado por mim desde que éramos adolescentes, Katleia. O que você está vivendo é apenas um intervalo. Uma diversão para aliviar o estresse de carregar o mundo nas costas.
Eu recuei, sentindo as lágrimas arderem em meus olhos. As palavras dela eram como estilhaços de vidro.
— Você está mentindo...
— Estou? — Rose avançou, seu tom agora suavizando para uma falsa preocupação que era mil vezes pior. — Eu não atacaria uma menina como você. Estou te dando um conselho. Tome cuidado. Não se envolva demais para não se machucar ainda mais. Esse acordo de casamento é irrevogável. Você não quer ver todo o império Felix caindo por causa de um capricho, quer? Se ele quebrar esse contrato, as repercussões destruiriam a família dele. Ele sabe disso. Por isso ele foi encontrar meu pai agora. Para aceitar o destino dele.
Eu balancei a cabeça, sentindo o mundo girar.
— Não chore, você é tão novinha — ela debochou, tocando de leve no meu ombro. — Deveria aproveitar sua juventude, sair com garotos da sua idade, não se prender a um homem como ele. Eu só estou me prendendo a ele por interesse político, mas espero que possamos ser felizes no casamento e, claro, ter filhos para continuar a linhagem Felix.
— Ele não quer isso! — gritei, minha voz quebrando.
— Ele quer o que é necessário. E se você for esperta, irá embora agora. Guarde o que restou da sua dignidade.
Rose deu as costas e saiu da suíte, deixando o rastro de sua arrogância para trás. Eu desabei. Meus joelhos cederam e eu me encolhi no chão de mármore, as lágrimas finalmente transbordando.
Olhei para a cama, para o lugar onde quase nos entregamos, e senti um vazio imenso. Por que ele não me contou? Por que me deixou acreditar que éramos apenas nós dois?
[...]
Algum tempo depois, não sei quanto, as horas haviam perdido o sentido, ouvi a porta se abrir novamente. Átila entrou com pressa, o rosto pálido e o olhar frenético. Quando me viu no chão, ele correu e me levantou, envolvendo-me em um abraço apertado.
— Katleia! Você está bem? Ela te machucou? — ele perguntava, beijando o topo da minha cabeça, mas ele parecia distraído, como se sua mente ainda estivesse na conversa com o Embaixador.
— Estou bem — menti, minha voz sem vida.
— Preciso te levar para casa. É mais seguro lá agora. As coisas ficaram... complicadas — ele disse, guiando-me para fora da suíte.
A viagem de volta para a mansão foi um túmulo de silêncio. As luzes passavam pela janela do carro como vultos borrados. Átila mantinha uma mão no volante e a outra apertava a minha, mas não havia a mesma conexão de antes. Havia uma barreira invisível entre nós.
— Vocês vão mesmo se casar? — perguntei, reunindo o que restava da minha coragem.
Átila travou o maxilar. Ele me encarou por um breve segundo antes de voltar os olhos para a estrada.
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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!