Cap.98
Capítulo 98: A Carga e o Caos no Segundo Dia
(POv atila Felix.
O sol de Monselha decidiu ser impiedoso naquela manhã, filtrando-se pelas vidraças e iluminando a poeira que dançava no ar do meu apartamento. Acordei com as costas reclamando do chão — dormir ao lado do sofá tinha suas desvantagens — mas a primeira coisa que fiz foi olhar para cima.
Ela ainda estava lá.
O "meu pequeno tigre" estava mergulhado em um sono profundo, os cabelos castanhos com mechas loiras espalhados pelo braço do edredom como seda despenteada. A respiração dela era lenta, pacífica. Seus lábios estavam levemente entreabertos, e eu me peguei imaginando que tipo de sonho a faria sorrir daquele jeito.
Preparei o café com um silêncio que beirava o ritualístico. Enquanto o aroma do grão moído preenchia a cozinha, eu a observava de longe. A culpa, aquela velha conhecida, tentava se sentar à mesa comigo, mas eu a enxotei. Pelo menos por hoje, eu queria ser apenas o homem que provê. O homem que cuida. O homem que ela pensa que eu sou.
Caminhei até o sofá e, sem aviso, a peguei no colo.
— Átila! — ela exclamou, acordando em um susto, os olhos castanhos arregalados, os braços se agarrando ao meu pescoço por puro reflexo. — O que... para onde você está me levando agora?
— Café da manhã. Regra número um da casa: ninguém come sozinho no sofá enquanto eu estiver no comando.
— Que regras são essas? — Ela franziu o nariz, ainda sonolenta e irritada. — Você sempre morou sozinho. Até então eu pensei que sobrevivia com água e esquecimento.
— O quê? — perguntei, cético, enquanto a carregava escada acima. — Antes eu mal morava aqui. Mas agora estamos juntos. As regras mudaram.
— Que juntos o quê? Você está delirando.
— Estou estabelecendo território. É instinto básico.
Levei-a para a cozinha e, em vez de sentá-la em uma das banquetas altas de metal — desconfortáveis para alguém ferido — eu me sentei e a acomodei diretamente no meu colo. Ela era leve. Tão leve que parecia que um sopro a levaria. Mas eu não ia deixar.
— Você vai me carregar para todo lugar agora? — ela reclamou, embora não fizesse esforço real para sair. Se debateu fracamente, o que só serviu para me fazer apertar mais o abraço. — O que eu sou, Átila? Uma boneca? Uma mochila de carne?
— Uma mochila de carne — repeti, como se estivesse considerando o termo. — Gostei. Vou adotar.
— Não era um elogio!
— Eu vou te incomodar o tempo todo, Katleia — sussurrei perto do ouvido dela, sentindo o arrepio que percorreu seu pescoço e desceu pela espinha. — Vou te carregar, te apertar e te irritar até que não sobre espaço na sua mente para lembrar de problema nenhum.
Apertei-a contra meu peito, sentindo o coração dela bater contra o meu, acelerado, descompassado, vivo. Por um segundo, desejei que aquele abraço pudesse esmagar o passado dela. E o meu também.
— Até você andar — continuei, passando manteiga no pão e oferecendo a ela —, eu carrego. Depois disso... talvez eu continue. Só por esporte.
— Céus... — ela murmurou, mordendo o pão com uma expressão entre irritada e derrotada. — Você é a pessoa mais constrangedora que eu já conheci. Como eu nunca vi isso antes?
— Você estava muito ocupada tendo medo de mim. Agora está ocupada tendo vergonha. É um progresso.
Ela não respondeu. Apenas comeu o pão em silêncio, o rosto corado, os olhos fixos em algum ponto da janela. Eu a observei mastigar, beber o café, limpar as migalhas dos lábios com a ponta da língua. Cada movimento era um pequeno tesouro que eu guardava em alguma parte escura da memória.
Após o café, o destino era o banheiro. E sim, ela reclamou cada centímetro do caminho.
— Eu posso andar sozinha! — protestou, enquanto eu a carregava escada abaixo.
— Não pode. O médico disse repouso.
— O médico não disse que eu precisava ser carregada igual um saco de batatas!
— Saco de batatas é ofensivo. Prefiro "mochila de carne".
— EU VOU TE MATAR, ÁTILA!
Apoiei-a novamente na bancada da pia — que estava se tornando o lugar favorito dela naquela casa, nos meus pensamentos, já que ela não estava gostando nada, mas era para meu deleite visual. Entreguei a escova de dentes com a pasta já colocada.
— Aqui. Até nisso você precisa de ajuda?
— Eu não preciso de ajuda para escovar os dentes! — Ela pegou a escova com uma mão enfaixada, os dedos trêmulos, e começou a tarefa com uma determinação que beirava o patético.
Escovamos os dentes lado a lado, refletidos no espelho imenso. Eu, um gigante de barba por fazer e expressão dura. Ela, uma criatura franzina com uma camisa minha que batia no meio das coxas, os pés enfaixados balançando no ar.
Katleia levava a tarefa a sério, se esforçando ao máximo mesmo sem conseguir segurar a escova direito. Mas, em sua empolgação, uma nuvem de espuma branca acumulou-se no canto da boca dela. Depois escorreu pelo queixo. Depois pingou na camisa.
Eu parei. Olhei para ela. E não consegui segurar o riso.
— Do que você está rindo? — ela tentou dizer, mas a voz saiu abafada pela espuma. — Sabe que minhas mãos estão machucadas!
— Parece uma criança — respondi, usando o polegar para limpar o rastro branco de seu lábio. — Uma criança teimosa e suja que não quer ajuda.
— Eu não sou uma criança!
— Então para de babar na minha camisa.
Ela cuspiu a água e me encarou com os olhos semicerrados, as bochechas coradas de indignação, a espuma ainda nos cantos da boca.
— Cala a boca, Átila! O único infantil aqui é você! Como pode se divertir tanto me atormentando? Você deveria ser um homem sério!
— Ser um cara sério é cansativo — retruquei, secando o rosto dela com uma toalha, passando-a pelos lábios, pelas bochechas, pelo queixo. — Ser o seu tormento particular é muito mais recompensador.
Ela me empurrou com as mãos enfaixadas, um gesto fraco, inútil.
— Você é insuportável.
— E você está vermelha. Gosta de ser atormentada, pequena tigresa?
— Não gosto!
— Suas bochechas dizem o contrário.
Ela desviou o olhar, e eu sorri. Bom... eu só queria que ela estivesse focada totalmente em mim. Mesmo depois de ouvir aquela voz — a voz que ela não ouvia há muitos anos —, ela estava aqui. E não estava pensando em nada além de mim.
Por enquanto, isso era o suficiente.
Decidi que o confinamento estava deixando-a pálida. Já era metade da tarde, e ainda nem tínhamos visto a luz do sol realmente. Ela precisava de ar. E eu precisava que ela visse que o mundo não era um lugar onde ela precisava se esconder o tempo todo.
Mas havia o problema dos pés. E das mãos. E lá vamos nós para mais um belo show.
— Está decidido — anunciei, surgindo na sala com uma mochila tática de trilha de grande porte. — Vamos sair. Depois vamos à farmácia. O que acha?
— Cadeira de rodas, Átila. Por favor — ela implorou, os olhos arregalados com medo do meu próximo ato.
— Não tenho cadeira de rodas.
— Então aluga uma!
— Não vou alugar. Cadeiras de rodas são para hospitais. Você está em casa.
— Isso não faz o menor sentido!
— Você cabe direitinho nessa mochila.
O silêncio que se seguiu foi de puro horror.
— Átila Felix — ela começou, a voz perigosamente calma —, eu juro por tudo que é mais sagrado que eu vou te matar. Você está fazendo tudo isso de propósito?
— Guarde as ameaças para quando estiver boa. Vamos.
— Precisa, sim.
— Não preciso!
— Sua mão está aberta, Katleia. Seu pé parece uma carne moída. Você está tomando antibiótico de oito em oito horas, anti-inflamatório de doze em doze, analgésico de seis em seis, e ainda tem as pomadas para passar de quatro em quatro. Vamos testar quais são melhores.
— TESTAR? — Ela quase gritou, chamando a atenção de uma senhora que esperava na fila ao lado. — Você vai testar pomadas no meu corpo?
— Alguém tem que fazer isso.
— Eu não me candidatei a cobaia!
— Paciência.
As atendentes da farmácia trocavam olhares entre si, sorrisos contidos nos lábios. Uma delas, mais nova, com um avental branco e brinco de argola, sussurrou para a colega:
— Eles parecem até que são casados. Que lindinho.
Katleia ouviu. Seu rosto ficou vermelho como um pimentão.
— Não somos casados! — ela gritou, apontando para mim com um dedo trêmulo. — Ele é só... ele é só...
— O quê? — perguntei, cruzando os braços, esperando.
— Ele é só um idiota que me carrega pelas costas igual um macaco!
— Macaco é ofensivo.
— CALA A BOCA, ÁTILA!
As atendentes riam abertamente agora. A senhora na fila sorria com doçura, os olhos brilhando como se estivesse assistindo a uma novela. Katleia enterrou o rosto nas mãos enfaixadas, gemendo de vergonha.
Eu, por minha vez, peguei as sacolas com os remédios, paguei com o cartão sem nem olhar o valor, e me curvei na frente dela.
— Vamos.
— Não vou montar.
— Vamos, Katleia. A senhora está esperando.
— Ela que espere! Eu não vou sair daqui montada em você que nem uma...
— Mochila de carne?
— EU VOU TE MATAR!
— Você já disse isso umas dez vezes hoje. A criatividade está em falta.
Ela gemeu, derrotada, e se jogou nas minhas costas com um resmungo que eu não consegui distinguir. Eu a ajustei, sentindo seu peso familiar, seu calor, sua respiração contra a minha nuca.
— Obrigado pela preferência — a atendente mais nova disse, com um sorriso maroto. — Voltem sempre!
— Nunca mais! — Katleia gritou, enquanto eu a carregava para fora.
Caminhamos de volta para casa sob o sol da tarde, ela resmungando baixinho contra o meu ombro, eu sorrindo para o nada. As pessoas nos olhavam, alguns sorriam, outros balançavam a cabeça em descrença.
Apertei-a um pouco mais contra mim, sentindo seu coração bater junto ao meu. O parque estava ficando para trás, a farmácia também, e todos os olhares julgadores e divertidos se dissipavam na distância.
Restávamos apenas nós.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!