Cap 100: Monstros e Presentes
POv Katleia
O silêncio do apartamento de Átila tem um peso diferente. Não é o silêncio opressor da solidão que eu sentia no meu antigo quarto mesmo na Casa da Ponte ou na antiga e humilde residência quando o medo me trancava entre quatro paredes e eu só ouvia os meus próprios pensamentos me consumindo. Não... aqui... eu nem conseguia ouvir meus pensamentos mesmo quando estava em silencio.
Aqui, o silêncio é denso, vibrante, carregado de eletricidade estática. Como se as paredes estivessem prestes a explodir. Como se o ar esperasse por algo, ou eu esperasse por algo, estava sendo difícil de me acostumar com ele me tocando todos os dias, me dando banho... sendo que eu não tenho controle dos meus pensamentos e muito menos ele, mas eu prefiro fingir que não vejo.
Pela primeira vez em cinco dias, minhas pernas parecem me obedecer, mesmo que sob protesto. Os curativos nos pés ainda doem quando pressiono o chão, mas a dor é um lembrete de que estou viva, de que estou melhorando, de que os dias de cama e sofá estão ficando para trás.
Manco lentamente pelo corredor, sentindo o atrito do tapete felpudo sob meus pés cobertos de gaze.
As mãos ainda enfaixadas, desliza pela parede para me dar equilíbrio. O som do chuveiro ecoa do banheiro, Átila está lavando a guerra do dia, se é que ele chama de "guerra" o que ele faz. Sem falar dos treinos. Treinos com aquelas armas que ele guarda em algum lugar que eu ainda não descobri.
Curiosidade. Essa pequena chama que ele insiste em atiçar com seu jeito misterioso, com seus silêncios calculados, com a forma como ele me olha como se estivesse decifrando um código que só ele pode entender, cada canto desse lugar parecia guardar segredos e eu... eu tinha vontade de desvendar.
Minha mão encontra uma maçaneta. Uma porta que eu ainda não tinha explorado.
Eu a abro.
Eu esperava um escritório. Ou um quarto de hóspedes vazio. Ou talvez uma sala de mídia com telas e sofás escuros.
O que encontrei fez o ar escapar dos meus pulmões como se alguém tivesse me dado um soco no estômago.
A sala é ampla, muito mais do que parece por fora. Luzes embutidas no teto iluminam superfícies frias, metálicas, que refletem o brilho como espelhos d'água. As paredes não têm quadros. Não têm estantes. Não têm nada que eu associaria a uma casa normal.
Elas têm dentes.
Facas táticas alinhadas em fileiras impecáveis, cabos de madeira escura ou borracha antiderrapante. Adagas de lâminas curvas que parecem sorrir na penumbra.
Katanas dispostas em suportes de parede, cada uma com sua personalidade, algumas austeras, outras ornamentadas com detalhes em ouro e prata.
Há um cheiro no ar. Metálico, misturado a óleo de limpeza e couro. É o cheiro de um arsenal. É o cheiro de preparação. É o cheiro de um homem que espera guerra em cada esquina.
É intimidador.
Mas também há uma beleza brutal ali. Não há enfeites, não há fingimento. Cada objeto naquela sala tem um propósito. Cada lâmina foi escolhida por uma razão e tudo ali dentro parecia chegar à milhões em investimentos, desde aos mostruários as peças.
É o reflexo exato do homem que me acolheu.
Fico ali parada, no centro da sala, girando lentamente, os olhos percorrendo cada peça como quem lê um livro de capa dura. Minhas mãos coçam para tocar, para sentir o frio do aço, para entender.
— Gostou da minha coleção?
O susto me faz dar um sobressalto tão violento que meu pé lateja em protesto. Viro-me tão rápido que quase caio.
Átila está encostado no batente da porta.
Apenas com uma toalha branca amarrada na cintura baixa.
O peito largo ainda está úmido, gotículas de água escorrendo pelos músculos definidos, desaparecendo na toalha.
O cabelo escuro, molhado, goteja sobre os ombros. A barba por fazer está mais cerrada do que ontem, sombreando seu queixo com uma escuridão que o faz parecer ao mesmo tempo perigoso e... lindo.
Ele parece uma estátua grega. Só que as estátuas gregas não respiram. Não têm aquele olhar. Não me fazem esquecer o que eu estava fazendo.
— É... impressionante — consigo dizer, a voz saindo mais fraca do que eu gostaria. Limpo a garganta. — Você sabe usar tudo isso?
— Cada uma delas tem uma função — ele diz, caminhando em minha direção com passos felinos, silenciosos, como se o chão não existisse sob seus pés descalços. — E sim. Sei usar.
— Todas?
— Todas, são só laminas e elas cumprem apenas um papel, cortar
Ele para a um braço de distância. O cheiro de sabonete e água quente me envolve. Sinto-me pequena. Não de um jeito ruim. De um jeito que faz meu coração acelerar.
— Você está molhada — ele observa.
— Você que está pingando em mim.
Ele sorri. Um sorriso de canto, quase imperceptível, que me faz querer descobrir como fazer ele sorrir de verdade.
Meus olhos são atraídos para o centro da sala. Um pedestal de madeira escura, entalhada com detalhes que parecem runas antigas. Sobre ele, repousa uma lâmina solitária.
Diferente das outras, essa não está em um suporte de parede. Não está em uma fileira. Está isolada. Reverenciada.
O brilho dela parece absorver a luz do ambiente em vez de refleti-la. A lâmina é escura, quase negra, com um veio prateado que corre como um rio de estrelas. O cabo é preto, envolto em couro trançado, sem nenhum adorno.
É a mais simples. E a mais aterrorizante.
— Qual é a sua favorita? — pergunto, hipnotizada, sem conseguir desviar os olhos.
Átila aponta para a lâmina no pedestal. Sua voz, quando fala, é mais grave do que o normal.
— Essa. Eu a chamo de Matadora de Monstros.
— Matadora de monstros? — repito, a pergunta saindo como um eco.
— É o que ela faz.
Estendo a mão, fascinada. Os dedos tremem levemente. A curvatura perfeita do aço parece me chamar, me convidar a entender o que significa carregar um peso assim.
Meus dedos quase tocam o cabo quando sinto uma mão quente e firme envolver meu pulso.
O toque de Átila é quente. Firme. A delicadeza com que ele me afasta, no entanto, é quase um carinho, como se ele tivesse medo de me quebrar, mas também medo de me deixar chegar perto demais do que ele realmente é.
— Não toque — ele adverte, a voz baixando uma oitava, tornando-se quase um rosnado. — É afiada demais.
— Afiada como?
— Essa já matou mais de duzentos, por isso esse nome, eu uso ela... uhm... desde meus 22 anos, e eu já fiz muita coisa suja com ela, Katleia, então essa espada é a única que eu não recomendo que você toque.
Recuo a mão rapidamente, como se tivesse levado um choque. Um calafrio sobe pela minha espinha, eriçando os pelos do meu braço, dá para entender porque ela me chamou atenção, ela tem cheiro de morte e cemitério cheio.
Duzentos.
Duzentos o quê? Homens? Monstros? Os dois?
Olho para o rosto dele. Por um segundo, seus olhos ficam escuros, não o escuro de quem está bravo, mas o escuro de quem está longe. Muito longe. Perdido em um lugar onde eu não posso alcançá-lo.
Um lugar de sombras. Um lugar de guerra. Um lugar que ele tenta esconder de mim com cafés da manhã no colo e carregadas no parque e mordidas no pescoço que me fazem esquecer meu próprio nome.
— Átila? — chamo, a voz pequena.
Ele pisca. O escuro some. O verde-acinzentado de seus olhos volta, e ele sorri, um sorriso que não chega aos olhos, mas tenta.
— Você não precisa ter medo — ele diz. — Não aqui. Não de mim.
“Mas eu tenho”, penso. “Não de você me machucar. De você me mostrar um mundo que eu não sei se sou forte o suficiente para encarar.”
Para quebrar a tensão, para quebrar o gelo que se formou entre nós meus olhos vagam para a parede lateral.
E encontram algo que me tira o fôlego.
Solitária em um suporte de parede, iluminada por um foco de luz que parece feito sob medida para ela, está uma katana deslumbrante.
— Enquanto você usar esse anel, significa que deseja continuar comigo. — Seus olhos encontram os meus, e há algo ali que eu nunca vi antes. Vulnerabilidade. Medo. Esperança. — É um pacto, Katleia. Você aceita?
Não hesito.
Não consigo. Não quero.
A segurança que sinto nos braços dele, mesmo cercada por instrumentos de morte, mesmo sabendo que ele é capaz de coisas que eu não posso nem imaginar é a única coisa real que me restou.
A única coisa que me faz acreditar que eu posso ser mais do que o que fizeram de mim.
— Então vou usar para sempre — respondo.
Ele desliza o anel no meu dedo. O aro frio toca minha pele, e eu sinto um calafrio, não de medo, mas de pertencimento, ele era meu primeiro namorado... sim... eu podia considerar assim e ele poderia ser para a vida inteira.
Pertenço a alguém. Pela primeira vez na vida, eu pertenço a alguém, e não como propriedade, não como objeto, mas como escolha.
Ele sorri.
Mas é um sorriso quebrado, carregado de uma melancolia que me faz querer abraçá-lo até que toda aquela escuridão desapareça, porque em todos esses dias que estou aqui, tenho percebido como ele anda estranho, como as vezes parece se sentir culpado, não queria que ele se sentisse assim, mas não sei seus motivos, não sei se é por causa das escolhas que fez indo contra a própria família, mas ele é um homem adulto como eu poderia ajuda-lo, melhor deixar as coisas como estão.
— Não termine comigo, dona Katleia — ele sussurra. — Não tão cedo.
— Não vou, nem tão cedo, nem tão tarde.
Ele me puxa para um abraço, e eu enterro o rosto no peito dele, sentindo seu coração bater rápido sob a pele ainda úmida do banho. A toalha ameaça escorregar, mas nenhum de nós se importa.
Por um momento, o mundo é só isso. O calor dele. O cheiro dele. A certeza de que, mesmo em uma sala cheia de armas, eu nunca estive tão segura.
depois ele me soltou, com um beijo na bochecha ele se despediu para ir se vestir.
Mas eu continuei ali.
Sentei-me no chão da sala de armas, recostada na parede fria, as pernas esticadas à minha frente. O anel brilha no meu dedo, refletindo a luz da sala em pequenos pontos vermelhos que dançam nas paredes.
A katana vermelha está apoiada ao meu lado, encostada no ombro, como uma sentinela silenciosa.
Sinto-me poderosa. Sinto-me protegida. Sinto-me como se, finalmente, eu tivesse uma chance de lutar, mesmo que não soubesse usar, sabe...? ele estava certo, eu gostei desse presente mais do que qualquer outra coisa, parece que é a mesma sensação que ele sente ao ter a sua espada em mãos, eu sinto como se todos pudessem ter medo de mim se seu segurar isso tanto quanto uma pistola.
Olho para a porta. Átila está ali, vestido agora, uma camisa escura e calças de moletom, encostado no batente, os braços cruzados.
Ele me observa.
Não fala. Apenas olha.
Seus olhos percorrem meu rosto, o anel, a espada, e param. Há algo ali que eu não consigo decifrar. Uma tristeza antiga. Uma culpa que não tem nome. Um peso que ele carrega sozinho.
— Está tudo bem? — pergunto.
— Agora está — ele responde, mas a voz é estranha. Distante. — Você está aqui.
Eu não sei o que se passa na cabeça dele. Não sei que monstros ele enfrentou para chegar até aqui. Não sei o que o mantém acordado à noite quando ele pensa que eu estou dormindo.
Mas, enquanto olho para o anel, sinto que ele é o meu escudo contra o mundo.
E que, por mais escuro que seja o passado dele, eu quero estar ao seu lado quando o futuro chegar.
Na minha mente, ganhei uma arma para me defender dos meus medos. Uma katana vermelha para cortar as sombras. Um anel para lembrar que eu pertenço a alguém que me protege.
Na mente dele, a verdade é muito mais cruel.
Ele me deu uma espada para eu me defender de monstros, monstros que ele foi feito para matar.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!