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Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 293

Cap 100: Monstros e Presentes

POv Katleia

O silêncio do apartamento de Átila tem um peso diferente. Não é o silêncio opressor da solidão que eu sentia no meu antigo quarto mesmo na Casa da Ponte ou na antiga e humilde residência quando o medo me trancava entre quatro paredes e eu só ouvia os meus próprios pensamentos me consumindo. Não... aqui... eu nem conseguia ouvir meus pensamentos mesmo quando estava em silencio.

Aqui, o silêncio é denso, vibrante, carregado de eletricidade estática. Como se as paredes estivessem prestes a explodir. Como se o ar esperasse por algo, ou eu esperasse por algo, estava sendo difícil de me acostumar com ele me tocando todos os dias, me dando banho... sendo que eu não tenho controle dos meus pensamentos e muito menos ele, mas eu prefiro fingir que não vejo.

Pela primeira vez em cinco dias, minhas pernas parecem me obedecer, mesmo que sob protesto. Os curativos nos pés ainda doem quando pressiono o chão, mas a dor é um lembrete de que estou viva, de que estou melhorando, de que os dias de cama e sofá estão ficando para trás.

Manco lentamente pelo corredor, sentindo o atrito do tapete felpudo sob meus pés cobertos de gaze.

As mãos ainda enfaixadas, desliza pela parede para me dar equilíbrio. O som do chuveiro ecoa do banheiro, Átila está lavando a guerra do dia, se é que ele chama de "guerra" o que ele faz. Sem falar dos treinos. Treinos com aquelas armas que ele guarda em algum lugar que eu ainda não descobri.

Curiosidade. Essa pequena chama que ele insiste em atiçar com seu jeito misterioso, com seus silêncios calculados, com a forma como ele me olha como se estivesse decifrando um código que só ele pode entender, cada canto desse lugar parecia guardar segredos e eu... eu tinha vontade de desvendar.

Minha mão encontra uma maçaneta. Uma porta que eu ainda não tinha explorado.

Eu a abro.

Eu esperava um escritório. Ou um quarto de hóspedes vazio. Ou talvez uma sala de mídia com telas e sofás escuros.

O que encontrei fez o ar escapar dos meus pulmões como se alguém tivesse me dado um soco no estômago.

A sala é ampla, muito mais do que parece por fora. Luzes embutidas no teto iluminam superfícies frias, metálicas, que refletem o brilho como espelhos d'água. As paredes não têm quadros. Não têm estantes. Não têm nada que eu associaria a uma casa normal.

Elas têm dentes.

Facas táticas alinhadas em fileiras impecáveis, cabos de madeira escura ou borracha antiderrapante. Adagas de lâminas curvas que parecem sorrir na penumbra.

Katanas dispostas em suportes de parede, cada uma com sua personalidade, algumas austeras, outras ornamentadas com detalhes em ouro e prata.

Há um cheiro no ar. Metálico, misturado a óleo de limpeza e couro. É o cheiro de um arsenal. É o cheiro de preparação. É o cheiro de um homem que espera guerra em cada esquina.

É intimidador.

Mas também há uma beleza brutal ali. Não há enfeites, não há fingimento. Cada objeto naquela sala tem um propósito. Cada lâmina foi escolhida por uma razão e tudo ali dentro parecia chegar à milhões em investimentos, desde aos mostruários as peças.

É o reflexo exato do homem que me acolheu.

Fico ali parada, no centro da sala, girando lentamente, os olhos percorrendo cada peça como quem lê um livro de capa dura. Minhas mãos coçam para tocar, para sentir o frio do aço, para entender.

— Gostou da minha coleção?

O susto me faz dar um sobressalto tão violento que meu pé lateja em protesto. Viro-me tão rápido que quase caio.

Átila está encostado no batente da porta.

Apenas com uma toalha branca amarrada na cintura baixa.

O peito largo ainda está úmido, gotículas de água escorrendo pelos músculos definidos, desaparecendo na toalha.

O cabelo escuro, molhado, goteja sobre os ombros. A barba por fazer está mais cerrada do que ontem, sombreando seu queixo com uma escuridão que o faz parecer ao mesmo tempo perigoso e... lindo.

Ele parece uma estátua grega. Só que as estátuas gregas não respiram. Não têm aquele olhar. Não me fazem esquecer o que eu estava fazendo.

— É... impressionante — consigo dizer, a voz saindo mais fraca do que eu gostaria. Limpo a garganta. — Você sabe usar tudo isso?

— Cada uma delas tem uma função — ele diz, caminhando em minha direção com passos felinos, silenciosos, como se o chão não existisse sob seus pés descalços. — E sim. Sei usar.

— Todas?

— Todas, são só laminas e elas cumprem apenas um papel, cortar

Ele para a um braço de distância. O cheiro de sabonete e água quente me envolve. Sinto-me pequena. Não de um jeito ruim. De um jeito que faz meu coração acelerar.

— Você está molhada — ele observa.

— Você que está pingando em mim.

Ele sorri. Um sorriso de canto, quase imperceptível, que me faz querer descobrir como fazer ele sorrir de verdade.

Meus olhos são atraídos para o centro da sala. Um pedestal de madeira escura, entalhada com detalhes que parecem runas antigas. Sobre ele, repousa uma lâmina solitária.

Diferente das outras, essa não está em um suporte de parede. Não está em uma fileira. Está isolada. Reverenciada.

O brilho dela parece absorver a luz do ambiente em vez de refleti-la. A lâmina é escura, quase negra, com um veio prateado que corre como um rio de estrelas. O cabo é preto, envolto em couro trançado, sem nenhum adorno.

É a mais simples. E a mais aterrorizante.

— Qual é a sua favorita? — pergunto, hipnotizada, sem conseguir desviar os olhos.

Átila aponta para a lâmina no pedestal. Sua voz, quando fala, é mais grave do que o normal.

— Essa. Eu a chamo de Matadora de Monstros.

— Matadora de monstros? — repito, a pergunta saindo como um eco.

— É o que ela faz.

Estendo a mão, fascinada. Os dedos tremem levemente. A curvatura perfeita do aço parece me chamar, me convidar a entender o que significa carregar um peso assim.

Meus dedos quase tocam o cabo quando sinto uma mão quente e firme envolver meu pulso.

O toque de Átila é quente. Firme. A delicadeza com que ele me afasta, no entanto, é quase um carinho, como se ele tivesse medo de me quebrar, mas também medo de me deixar chegar perto demais do que ele realmente é.

— Não toque — ele adverte, a voz baixando uma oitava, tornando-se quase um rosnado. — É afiada demais.

— Afiada como?

— Essa já matou mais de duzentos, por isso esse nome, eu uso ela... uhm... desde meus 22 anos, e eu já fiz muita coisa suja com ela, Katleia, então essa espada é a única que eu não recomendo que você toque.

Recuo a mão rapidamente, como se tivesse levado um choque. Um calafrio sobe pela minha espinha, eriçando os pelos do meu braço, dá para entender porque ela me chamou atenção, ela tem cheiro de morte e cemitério cheio.

Duzentos.

Duzentos o quê? Homens? Monstros? Os dois?

Olho para o rosto dele. Por um segundo, seus olhos ficam escuros, não o escuro de quem está bravo, mas o escuro de quem está longe. Muito longe. Perdido em um lugar onde eu não posso alcançá-lo.

Um lugar de sombras. Um lugar de guerra. Um lugar que ele tenta esconder de mim com cafés da manhã no colo e carregadas no parque e mordidas no pescoço que me fazem esquecer meu próprio nome.

— Átila? — chamo, a voz pequena.

Ele pisca. O escuro some. O verde-acinzentado de seus olhos volta, e ele sorri, um sorriso que não chega aos olhos, mas tenta.

— Você não precisa ter medo — ele diz. — Não aqui. Não de mim.

“Mas eu tenho”, penso. “Não de você me machucar. De você me mostrar um mundo que eu não sei se sou forte o suficiente para encarar.”

Para quebrar a tensão, para quebrar o gelo que se formou entre nós meus olhos vagam para a parede lateral.

E encontram algo que me tira o fôlego.

Solitária em um suporte de parede, iluminada por um foco de luz que parece feito sob medida para ela, está uma katana deslumbrante.

Cap 100 1

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