Cap.103
POv
Parecia que minha dedicação tinha dado bons resultados, e posso entregar ela sã e salva, sem nenhum imprevisto ou crises.
Ela se movia pela casa com uma graça recuperada, não a graça de quem nunca caiu, mas de quem esta feliz por mais uma vez se levantar.
O pé ferido deixava apenas um rastro de hesitação no passo, uma pequena pausa antes de cada movimento, como se o corpo ainda estivesse aprendendo a confiar no chão novamente com mais vigor.
Mas confiava.
E ela confiava em mim. Essa era a parte mais difícil.
— Venha — chamei, pegando a katana de cabo vermelho que eu lhe dera no dia do anel. O peso do aço era familiar na minha mão, mas hoje parecia mais pesado. — Precisa ver uma coisa.
— O que é?
— Você vai ver.
Indiquei a escada em espiral que levava à cobertura privativa. Ela hesitou por um segundo, a escada era íngreme, e o pé ainda não estava cem por cento, mas então se levantou e me seguiu.
Sem reclamar. Sem perguntar para onde.
A cobertura era um espaço vasto e aberto, cercado por parapeitos de vidro que davam a ilusão de que estávamos flutuando sobre a metrópole. Lá embaixo, os carros eram formigas brilhantes. Os prédios eram montanhas de vidro e aço.
O céu, lá em cima, era uma massa cinzenta e carregada que prometia tempestade assim como os outros dias, parecia que o céu estava contrário.
O vento soprava forte aqui em cima, muito mais forte do que na rua. Ele agitava o cabelo loiro de Katleia, jogando mechas sobre seu rosto, e trazia o cheiro úmido de chuva iminente.
Retirei a lâmina da bainha com um som metálico que cortou o vento. O aço brilhou sob a luz difusa das nuvens, refletindo o céu cinzento como um espelho distorcido.
— O aço não mente, vai fazer o que ele veio para fazer, Katleia — falei, aproximando-me e entregando o cabo a ela. O verniz vermelho brilhou sob seus dedos quando os fechou sobre ele. — Ele não tem segredos. Ele é o que é, afiado, perigoso, honesto. Se você o respeitar, ele se torna uma extensão do seu braço. Se você duvidar dele, ele te corta.
Ela olhou para a lâmina, depois para mim.
— Você está me dando uma aula de esgrima?
— Estou te dando uma aula de confiança, porque você deveria usar quando estiver em perigo.
Vi o momento exato em que os dedos dela se fecharam sobre o cabo. Uma faísca de algo novo brilhou em seus olhos, não era medo.
Era poder, ninguém entendia Katleia ou sua capacidade de verdade, as coisas que ela sofreu fez ela desenvolver uma personalidade que ela mantem trancada, mas que em algum momento, ela vai encontrar o gatilho para se libertar.
Ela sentiu a periculosidade da arma vibrar em sua palma, uma voltagem elétrica que parecia conectá-la diretamente à minha própria natureza. A lâmina tremia levemente em sua mão, não de fraqueza, mas de excitação.
Eu vi a transformação acontecer ali, diante dos meus olhos.
— A postura é tudo — murmurei, posicionando-me atrás dela.
Coloquei minhas mãos sobre seus quadris. Senti-a prender a respiração, um suspiro curto, quase inaudível, que se perdeu no vento. Meus dedos apertaram levemente a carne firme, sentindo o calor através do tecido fino da roupa de treino.
— Alinhe os quadris com os ombros. Seu corpo é uma linha reta. Se você quebrar essa linha, a lâmina quebra junto.
Subi as mãos para seus ombros, forçando-os para baixo, eliminando a tensão que ela nem sabia que carregava.
— Relaxe. O medo é um peso morto. Você não precisa dele aqui.
— Mais baixo — instruí, deslizando minhas mãos pelos braços dela para corrigir o ângulo da lâmina. — Use o peso do seu corpo, não a força dos braços. Deixe o aço trabalhar por você.
Eu era o mestre. A aula era real. Os movimentos que eu ensinava eram precisos, técnicos, úteis.
Mas o toque era uma provocação que eu não conseguia resistir.
Cada vez que eu deslizava meus braços pelos dela, cada vez que eu ajustava seus quadris com as palmas das minhas mãos, cada vez que minha respiração roçava seu pescoço, a tensão física subia um degrau.
Estávamos tão perto que eu podia sentir o batimento acelerado no pulso dela, a pulsação que ecoava na veia do seu pescoço.
Estávamos tão perto que eu podia sentir o calor do corpo dela através da roupa, podia sentir a forma como ela se inclinava ligeiramente para trás, como se quisesse diminuir a distância entre nós.
O treino era uma desculpa.
O que estávamos fazendo ali era uma dança preliminar. Um reconhecimento de território. Uma promessa disfarçada de lição.
— Assim? — ela perguntou, executando um corte descendente.
O movimento foi desastrado, os ombros ainda estavam tensos, o quadril desalinhado. O equilíbrio dela vacilou por causa do pé ainda sensível, e ela pendeu para trás.
Diretamente contra o meu peito.
Eu a segurei antes que ela caísse. Meus braços envolveram sua cintura, um reflexo automático e a puxaram contra mim.
O aço ainda estava na mão dela, a lâmina apontada para o céu cinzento. Meu corpo estava colado ao dela, do peito aos joelhos. O vento uivava ao nosso redor, mas eu não ouvia nada além do sangue correndo nas minhas veias.
O mundo parou.
O aço entre nós. O vento nos rostos. A promessa de um incêndio iminente.
Ela não se afastou.
Eu não a soltei.
— Isso... — ela começou, a voz saindo num fio. — Isso faz parte da aula?
— Não. — Minha resposta foi imediata. Sincera. — Isso é outra coisa.
O céu finalmente se rasgou.
Não foi uma garoa tímida, dessas que molham só o suficiente para atrapalhar. Foi um dilúvio instantâneo, violento, como se o céu tivesse aberto comportas há muito tempo represadas.
Em segundos, estávamos encharcados.
A água escorria pelo meu rosto, colando minha camisa ao peito, aos braços, às costas. Pingava do meu nariz, do meu queixo, das pontas dos meus cabelos escuros. Ao cabelo de Katleia que pesavam sobre seus ombros, escurecidos pela água, grudados em seu pescoço e testa.
Ela olhou para cima.
A chuva caía sobre seu rosto como uma benção violenta, lavando o suor do treino.
Pensei que reclamaria e tentaria correr, mas ela riu.
Não foi um riso nervoso, nem um riso forçado. Foi um riso solto, leve, cristalino, o riso de alguém que, pela primeira vez em muito tempo, não estava pensando em monstros.
Eu a observei.
O cabelo colado à testa. A água traçando o caminho das curvas dela, escorrendo pelo pescoço, desaparecendo na gola da camisa encharcada. Os olhos brilhando sob a tempestade, vivos, presentes.
Eu sorri.
Foi o sorriso de um homem que, pela primeira vez em anos, sentia que a água da chuva podia limpar um pouco da mancha em sua alma.
— Chega por hoje — eu disse, a voz competindo com o barulho do temporal. — O treino acabou.
Ela baixou a katana, a lâmina brilhando sob a água da chuva, e me encarou. A água pingava da ponta do nariz, dos lábios entreabertos.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!