Cap.104...
POv Atila.
O vapor no banheiro começava a dissipar, mas o calor entre nós permanecia sólido, quase tátil. Katleia estava sentada sobre a bancada de mármore negro, envolta em uma das minhas toalhas de algodão egípcio que parecia grande demais para o seu corpo delicado. Seus cabelos, aquele "fogo molhado", gotejavam sobre os ombros, e ela soltou uma risada curta, rouca, que vibrou no ar úmido.
— Você me trata como se eu fosse uma boneca de porcelana, Átila — ela murmurou, balançando os pés levemente, os olhos brilhando com uma mistura de deboche e carinho.
Eu parei diante dela, a água ainda escorrendo pelo meu peito nu, e deixei que um sorriso raro e genuíno curvasse meus lábios.
A visão dela era inebriante, o rosto corado, os lábios inchados pelos meus beijos e aquela expressão de lassidão, quase como se estivesse embriagada pelo prazer que tínhamos acabado de partilhar.
— Só estou cumprindo minha missão de cuidar de você, pequena — respondi, minha voz soando como um trovão baixo no espaço confinado. — Alguém tem que garantir que você não se quebre enquanto decide desafiar o mundo.
Ela não contestou. Em vez disso, soltou um suspiro longo e estendeu os braços em minha direção, os olhos fechando-se como se o peso das pálpebras fosse demais para suportar.
— Leva-me para a cama? — pediu, a voz sumindo num sussurro manhoso.
Eu a levantei com um movimento fluido. Katleia prontamente envolveu minha cintura com as pernas, prendendo-se a mim como se eu fosse seu único solo firme, e descansou o rosto no meu ombro. Eu também enrolei uma toalha na cintura, sentindo a pele úmida dela contra a minha enquanto caminhava em direção ao quarto principal.
Cada passo era uma afirmação de posse, mas também de uma proteção que beirava o desespero.
O quarto estava mergulhado em uma luz âmbar suave. Deitei-a sobre os lençóis de seda com uma lentidão calculada, mas quando tentei me afastar para buscar algo para vestirmos, as mãos dela, ainda com os movimentos limitados, mas persistentes, agarraram a gola da minha toalha, puxando-me de volta para o seu raio de gravidade.
— Se você não me soltar agora, Katleia... — murmurei, apoiando os braços de cada lado do corpo dela, ficando a milímetros do seu rosto — eu vou ser obrigado a começar tudo de novo. E aí você vai realmente ficar sem conseguir andar, porque eu vou te usar até não sobrar nada.
Ela não se intimidou. Pelo contrário, abriu um sorriso de orelha a orelha, um sorriso que iluminou a penumbra do quarto. Sua voz saiu pastosa, arrastada, como se ela tivesse bebido o melhor dos vinhos, embora a única coisa que tivéssemos consumido fosse o corpo um do outro.
— Sabe... — ela começou, os olhos castanhos fixos nos meus, transbordando uma confiança que me desarmava — eu não sei por que, mas quando estou com você, não consigo me lembrar de nada. Tudo desaparece. Os problemas, os traumas... é como se você apagasse o passado com a ponta dos dedos.
Engoli em seco, sentindo o peso daquela declaração. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som da nossa respiração.
— Nem minhas amigas conseguem me fazer confiar nelas como confio em você — ela continuou, acariciando meu rosto. — Quanto mais eu te vejo, menos me lembro de qualquer problema..
Eu me inclinei, encostando minha testa na dela, sentindo o calor da sua pele.
O que eu sentia era uma mistura agonizante de triunfo e horror. Eu era o homem que ela amava porque eu era o homem que a salvou da sombra que eu mesmo projetei.
— Ah... eu sei o que é isso — sussurrei contra seus lábios. — Efeitos colaterais do amor?
— Sim! — ela exclamou, quase em um riso soprado. — Eu amo você, Átila Felix. Amo você para sempre.
O mundo pareceu parar. As paredes do meu império de vidro estremeceram. Eu a encarei, segurando sua mão com força, os dedos entrelaçados.
— Você jura? — perguntei, a voz falhando por um milímetro de segundo.
— Calem a boca, bando de idiotas — rosnei, sem paciência para as provocações habituais. Apoiei os cotovelos na bancada, a expressão ficando gélida, o desânimo e a seriedade pesando em cada traço do meu rosto. — Prestem atenção. Amanhã preciso encontrar com vocês, pensando bem não é seguro conversar sobre isso aqui e assim... eu tenho exatamente dois dias antes da bomba estourar de vez.
Apontei o dedo para a tela, focando em Adon.
— Preciso conversar sério com vocês. Principalmente com você, Adon Felix. Você vai ter que salvar a família de novo.
Adon se sentou na cama, a expressão de deboche desaparecendo instantaneamente. Ele conhecia aquele meu tom de voz. Era o tom de quando o sangue estava prestes a ser derramado.
— Que merda você aprontou agora, Átila? Eu já imaginava que os Bertans indo atrás de você não era coisa boa. — ele perguntou, a voz baixa.
— Amanhã, assim que Katleia sair pela aquela porta e estiver segura com as meninas, vamos nos reunir na sede. Sem atrasos. Sem desculpas.
— Ok — Adon respondeu, curto e grosso. Axel apenas assentiu, a seriedade espelhada no irmão.
Desliguei a chamada sem me despedir. O whisky na garrafa tinha baixado consideravelmente, mas minha cabeça ainda girava com as palavras dela. "Amo você para sempre".
Um dia o sempre dela será testado pelo fogo.
Eu terminei o copo, lavei-o mecanicamente e voltei para o quarto. Deitei-me ao lado dela, sentindo o calor que emanava do seu corpo adormecido.
Eu era um homem condenado, vivendo as últimas horas de uma liberdade que eu não merecia, mas enquanto o sol não nascia, eu me permiti fechar os olhos e fingir, por apenas alguns minutos, que eu era o homem que ela acreditava que eu era.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!