Cap.105
O Cerco das Amazonas
POv atila.
O último dia amanheceu com um gosto de café forte e o prenúncio de um caos que eu já conhecia bem.
Katleia estava sentada na beira da cama, com um biquinho de indignação que faria qualquer homem de joelhos dobrar a vontade, mas eu precisava ser firme.
Se eu a mantivesse aqui por mais uma hora, Selene seria capaz de contratar uma equipe de demolição para derrubar a porta do meu apartamento.
— Você está de mau humor? — perguntei, cruzando os braços enquanto a observava tentar, sem sucesso, ignorar minha presença.
— Não estou de mau humor, Átila. Só estou... reflexiva — ela rebateu, mas o jeito que ela batia o pé, agora já recuperado, no chão denunciava a mentira. — Por que o apuro? Achei que você gostasse da minha companhia.
— Eu adoro a sua companhia. O problema são as hienas que estão vindo te buscar. Se você continuar aqui isolada, a Selene não vai me matar; ela vai me torturar lentamente antes de me dar o golpe de misericórdia. Você já está bem, consegue andar, e as meninas precisam saber que você não desapareceu do mapa.
Katleia suspirou, fazendo um drama digno das protagonistas dos seus livros. Ela olhou ao redor do meu quarto, para o meu lençol bagunçado e para a camisa minha que ela ainda usava.
— Eu pensei que moraria com você agora — ela soltou, com uma voz pequena que me atingiu como um soco no estômago.
Eu ri, balançando a cabeça.
— Katleia, as meninas nem permitiriam isso. Selene é a autodeclarada guardiã da sua virtude, apesar de saber que o navio já partiu há muito tempo. Elas não aceitariam você morando aqui sem uma aliança no dedo. Elas são tradicionais quando lhes convém, especialmente se for para me irritar.
Ela me encarou por um longo tempo. O silêncio no quarto ficou denso, carregado daquela eletricidade que sempre surgia entre nós.
— Então... por que não casamos? — ela perguntou, com uma naturalidade que quase me fez perder o equilíbrio.
Eu parei. Olhei para ela, sentindo um calor estranho subir pelo meu pescoço. Deixei um sorriso cínico e leviano ao mesmo tempo escapar.
Eu não esperava por aquela jogada, mas, porra, eu gostei da ideia. Gostei mais do que qualquer homem sensato deveria gostar de um compromisso eterno sob pressão.
— Você está me pedindo em casamento, Katleia? — perguntei, arqueando uma sobrancelha. — Quer mesmo se amarrar a um tipo como eu?
Ela percebeu que eu não estava apenas brincando. O brilho nos olhos dela se intensificou, um misto de surpresa e alegria genuína.
Que loucura... eu nem mesmo pensei um dia na possibilidade de me casar com alguém que eu realmente gostasse tanto.
Mas então, como se uma nuvem passasse pelo sol, a expressão dela suavizou para algo mais sério, quase melancólico.
— Eu entendo que estou atrapalhando sua vida, Átila — ela disse, baixando o olhar para as próprias mãos. — Sei que você tem medo de me deixar só, medo que eu surte por causa de tudo o que aconteceu. Mas eu vou ficar bem. E, olha... eu vou para casa, está bem? Não quero ser um fardo, você mal saiu esses dias.
Aproximei-me dela, segurando seu rosto com as duas mãos.
— Nada mudou, É só que eu não posso te manter em um potinho de vidro para sempre, por mais que minha vontade seja essa. Você tem uma vida, tem um mundo para enfrentar e trancada não vai te ajudar.
— Obrigada por me manter sob controle nesses dias — ela sussurrou, encostando a testa na minha. — Eu queria fazer isso todos os dias. Ter você cuidando de mim... — Ela parou, olhando para a parede onde a Katana de cabo vermelho estava apoiada.
— Leve sua Katana. Ande com ela ou com uma pistola. O que você acha? — ela riu cética.
— eu gosto dela, mas não devo andar, mas vou pendurar de frente para a minha cama, mas se eu sentir medo levo ela para todos os lugares.
— Eu acho que você está ficando perigosa — ri baixo. — Não precisa levar a espada para o supermercado, mas vou guardá-la com carinho. Ela é sua agora. Um símbolo de que você sabe morder de volta.
O interfone tocou três vezes seguidas. Rápido, impaciente, agressivo.
— Elas chegaram — resmunguei. — Cedo demais. Como sempre.
Abri a porta e o corredor foi inundado pelo som de saltos altos e vozes sobrepostas. Selene liderava o bando, já entrando no meu apartamento como se fosse a dona do contrato de aluguel e nem é alugado.
— Onde ela está? — Selene disparou, apontando o dedo para o meu peito. — Átila, se eu encontrar um único arranhão novo nela, eu vou transformar sua vida em um inferno jurídico e físico!
— Bom dia para você também, Simone, além disso aranhão seria o mínimo já que voces me entregaram ela retalhada, palhaça. — respondi, usando o nome dela para provocá-la.
Selene se aproximou de mim com uma cara de quem não quer nada. Uma expressão de "irmãzinha fofa" que eu deveria ter aprendido a temer desde a infância.
— Olha... mas tem uma parte que eu achei muito engraçada — ela disse, parando bem na minha frente.
— Qual? — perguntei, baixando a guarda por um milésimo de segundo.
Selene se aproximou ainda mais, como se fosse me dar um abraço de despedida. Ela estendeu o pé para ganhar altura, envolveu meu pescoço e, em vez de um beijo na bochecha, ela cravou os dentes na minha pele.
— AI! — gritei, pulando para trás enquanto ela me dava uma mordida certeira e dolorida na bochecha. — Que porra é essa, Simone?!
Ela se afastou correndo em direção ao elevador, rindo como uma hiena.
— Quem gosta de morder, gosta de ser mordido! — ela gritou, apontando para mim. — A Kat descreveu muito bem os seus "hábitos", irmãozão! Obrigada por cuidar dela, mas você ainda é um animal, seu Canalha!
— Não se atreva mais a ler essas coisas, Simone Felix! — esbravejei, a bochecha ardendo. — Eu vou queimar esse tablet! Eu vou proibir a publicação!
Bati a porta com tanta força que o quadro no corredor tremeu. Fui direto para o espelho do banheiro, resmungando palavrões que fariam um marinheiro orar.
— Que nível eu cheguei... — reclamei, olhando para o reflexo. Havia uma marca perfeita de dentes na minha bochecha esquerda. — Uma irmã agressiva dessas. Onde foi que a criação falhou? Ela não deveria ser fofa e mimada? Não deveria me pedir conselhos em vez de me marcar como um gado?
Passei a mão pela ferida, sentindo a pulsação no local. Eu estava com raiva, realmente com raiva, mas no fundo, uma parte de mim sabia que aquele era o jeito torto dos Felix demonstrarem amor. Selene também tinha esse jeito terrível, se ela fizer isso de novo, melhor ela correr ou perde um dedo.
Mas o que realmente me preocupava era o que mais Katleia tinha escrito naquele livro. Se Selene tinha lido, Maju também leria. Adon leria. O clã inteiro saberia detalhes sobre mim e detalhes que ninguém precisava escrever, Katleia nem bem saiu e eu já tava uma pilha querendo ela em minhas mãos, mas... ela ainda não podia saber que eu sei sobre seu hobby.
— mas Eu ainda vou pegar essa escritora — murmurei, mas o sorriso involuntário que apareceu no meu rosto enquanto eu olhava para a bochecha mordida dizia o contrário.
Eu estava em apuros. Estava apaixonado por uma mulher que transformava minha vida em capítulos de romance, e estava cercado por uma família que não tinha o menor senso de limite. Mas, enquanto olhava para o espaço vazio onde Katleia esteve, eu sabia que não trocaria aquele caos por nenhuma paz no mundo.
Peguei o celular e liguei para Adon.
— encontro vocês no lugar indicado.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!