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Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 299

Cap.106

A Colheita de Sangue

POv atila.

O Espelho do Condenado

O espelho do banheiro me devolvia uma imagem que eu detestava.

Não era o hematoma roxo-avermelhado que Selene me dera com a mordida, uma lembrança física, infantil e dolorosa de que eu tinha uma família que, apesar de tudo, ainda respirava.

Não era a barba por fazer, que me dava um ar de náufrago em vez do estrategista impecável que os Felix precisavam.

Era o olhar.

O olhar de um homem que se arrumava para o próprio funeral.

Ajustei o paletó de alfaiataria escura, Prendi o coldre sob o braço com a precisão mecânica de quem vive no limite há tempo demais. A arma era um peso familiar, mas hoje parecia um tijolo, de toda forma era de costume sempre carregar isso, mas os dias sem usa-la hoje me deu uma sensação estranha.

Agora que estava pronta, chegou a hora de ir, para algo que para mim não era só uma reunião.

Seria como uma sentença de morte.

Ou, no mínimo, o desmantelamento de tudo o que os Felix construíram em Monselha. Tudo o que meu pai suou para conquistar. Tudo o que Adon lutou para manter. Tudo o que Axel tentou proteger fugindo para o exterior.

Tudo. Por minha causa.

Porque eu, o estrategista, o psicólogo, o homem que estudava mentiras como outros estudam estrelas, não consegui enxergar a verdade mais simples.

E agora, a conta havia chegado.

Dirigi até o galpão que servia como fachada da nossa operação de logística na zona portuária. O céu estava cinzento, daquele cinza pesado que antecede tempestades, ou talvez fosse só a minha percepção.

O silêncio dentro do carro era absoluto, quebrado apenas pelo zumbido dos meus pensamentos.

“Katleia.”

Eu já a tinha chegado a Casa da Ponte. Selene jurou cuidar dela. Gildete prometeu não deixá-la sozinha. Mima e Maju fariam companhia, distrairiam, dariam risadas e chá e normalidade, mas eu não sei a que normalidade voltar.

Mas de toda forma, Ela estava segura.

Longe de mim.

“Como deveria estar desde o início.”

Estacionei o carro. O galpão parecia um monstro adormecido na penumbra da tarde, suas janelas sujas refletindo a luz opaca do céu. Entrei.

Axel e Adon já estavam lá.

Eles estavam envoltos pela penumbra dos holofotes industriais que pendiam do teto como olhos cegos.

A mesa de metal no centro da sala estava coberta por mapas táticos, fotografias, relatórios — os ossos do nosso império, dissecados e expostos. Axel estava recostado na parede, os braços cruzados, a expressão ilegível.

Adon estava sentado, roendo a unha do polegar, um tique de infância que ele nunca perdera, e que aparecia apenas quando o estresse atingia níveis insuportáveis.

— Atrasado — Axel comentou, sem tirar os olhos do mapa tático sobre a mesa. Sua voz era fria, calculista, a mesma que ele usava em negociações de morte. — E com um hematoma na cara que não condiz com a sua elegância habitual.

— Selene — respondi, passando pela mesa e parando do lado oposto a eles. — Ela descobriu algo que não deveria.

— Selene descobre tudo — Adon murmurou, sem erguer os olhos. A unha do polegar já estava sangrando. — É o dom dela. O nosso castigo.

O silêncio que se seguiu foi tão pesado que senti a pressão nos meus ouvidos.

— Guardem o sarcasmo — comecei, a voz saindo mais grave do que eu pretendia. — Precisamos falar de Katleia. De quem ela é. De quem eu fui para ela.

Adon parou de roer a unha. Axel descruzou os braços lentamente, como um felino se preparando para o bote.

— Fala — ordenou Axel.

E eu falei.

O relato foi cru.

Não poupei detalhes. Apenas despejei os fatos como quem despeja balas sobre uma mesa, uma por uma, cada uma com seu peso, cada uma com seu destino.

Contei sobre os comentários que eles já sabiam e da minha obsessão Sobre o pseudônimo "Spectre".

Contei sobre a descoberta, sobre Katleia ser Kat-x e que era ela que estava me processando.

Quando terminei, a sala parecia menor. O ar estava pesado, irrespirável. Axel havia parado de se mover completamente, era uma estátua de pedra contra a parede, os olhos fixos em mim com uma intensidade que eu nunca tinha visto.

Adon, que roía a unha de pura ansiedade, deixou o braço cair inerte ao lado do corpo.

O silêncio que se seguiu foi tão absoluto que ouvi o sangue correndo nas minhas veias.

— O que você vai fazer? — Axel perguntou finalmente.

Sua voz não era mais de deboche. Não era sarcástica, Era gélida. Desprovida de qualquer emoção.

— Vou assumir a responsabilidade — respondi. Minha voz saiu estável, apesar do terremoto dentro de mim. — Vou limpar o nome da nossa família. Desmantelar as conexões. Me entregar. Vou forçar uma negociação antes que os Bertans descubram tudo por conta própria e façam a limpa na nossa linhagem.

Adon explodiu.

Foi um vulcão.

— ISSO VAI DAR MERDA, ÁTILA! — Ele avançou sobre a mesa, as mãos espalmadas no metal, os olhos arregalados, a veia do pescoço saltando como um rio de lava. — VAI DAR UMA MERDA COLOSSAL!

Levantou-se, começou a andar em círculos ao redor da mesa, as mãos na cabeça, os dedos enterrados nos cabelos, afinal... era ele que ficava com a bagunça toda nas costas e ele sabe que o que eu vou fazer, vai lhe dá mais trabalho.

— Você não nos disse que o nível do problema era Bertans? Que o problema era BERTANS? — Ele parou, apontou o dedo para mim com uma violência que fez meu sangue gelar. — Eles não são homens, Átila! São terremotos! Eles passam por cima de tudo e deixam apenas ruínas! A ultima vez que os bertans se movimentaram perdemos a área 4 do corvo se eles quiserem tiram o controle da área 3, e o terceiro corvo desce e nos leva junto.

— Adon...

Adon soltou um riso amargo, seco, que não tinha nada de humor.

— Consequências. Bonito eufemismo para "morte lenta e dolorosa".

— Adon... — Axel começou.

— NÃO! — Adon bateu a mão na mesa, a palma aberta, o som ecoando como um tapa. — Eu não vou ficar aqui ouvindo vocês dois planejarem o nosso fim como se fosse um roteiro de teatro! Vocês querem ir para a delegacia? Vão! Eu não vou impedir! Mas não esperem que eu fique de braços cruzados esperando os Bertans nos comerem vivos!

— Não é sobre esperar — eu disse, a voz cansada. — É sobre controlar os danos. Sobre garantir que, quando a poeira baixar, ainda sobre algo. Alguém.

— Alguém? — Adon repetiu, incrédulo. — Você quer dizer ELA, não é? Katleia. É ela que você quer proteger.

— Ela também.

— Também? — Adon deu um passo em minha direção, o rosto contorcido. — Você destruiu tudo por causa dela! Tudo! A família, o império, a nossa segurança! E agora quer que eu me curve e aceite porque você está apaixonado?

— Não estou pedindo para você se curvar. Estou pedindo para você sobreviver.

— SOBREVIVER? — Ele riu, um som grotesco. — Com os Bertans no nosso cangote, com a máfia inimiga nos esperando como urubus, com o Omar ainda respirando e de alguma forma controlando? Sobreviver, Átila, não é uma opção, é bom que você tenha um bom plano para livrar nossa cara disso, você é bom em estratégia, então... deve ter feito alguma coisa, pensando em algo, porque na minha cabeça a única coisa que meu pensamento quer é meter bala na cabeça dos avos de Selene e daqueles gêmeos malditos e sumir do pais com ela.

Axel se aproximou de Adon e colocou a mão em seu ombro, um gesto raro, quase íntimo, que eu não via desde a morte da nossa mãe.

— Ele está certo, Adon — Axel disse, a voz baixa. — A única chance que temos é nos anteciparmos.

— Então você concorda com ele? — Adon perguntou, incrédulo. — Você vai deixar ele se entregar?

— Não é sobre deixar. É sobre não ter escolha.

Adon olhou para Axel, depois para mim, depois para o teto do galpão, como se procurasse respostas em algum lugar que não existia. Seus ombros caíram. Sua postura, sempre ereta como a de um soldado, se curvou.

— Vamos — ele disse finalmente, a voz um fio. — Vamos acabar com isso.

Pegou a chave do carro da mesa, os dedos tremendo ligeiramente. Sabíamos, todos nós, que ao sair daquele galpão, a vida como conhecíamos estaria morta. Não haveria mais império Felix. Não haveria mais territórios, negociações, poder. Haveria apenas ruínas.

E eu, no centro delas, esperando o julgamento.

Eu só rezava para que, nas cinzas do que eu tinha criado, houvesse algo que pudesse ser salvo.

Principalmente ela.

Principalmente Katleia.

— Vamos — eu repeti, a voz firme agora, sem olhar para trás. — Vamos buscar o nosso fim.

Caminhamos em direção à porta. O galpão escuro ficou para trás, Lá fora, o céu cinzento finalmente começou a desabar, primeiro uma garoa fina, depois um dilúvio.

Adon entrou no carro sem dizer uma palavra. Axel sentou ao lado dele, no banco do passageiro. Eu fui para o motorista.

Enquanto a chuva lavava as ruas de Monselha, eu dirigi em direção à delegacia.

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