Cap.106
A Colheita de Sangue
POv atila.
O Espelho do Condenado
O espelho do banheiro me devolvia uma imagem que eu detestava.
Não era o hematoma roxo-avermelhado que Selene me dera com a mordida, uma lembrança física, infantil e dolorosa de que eu tinha uma família que, apesar de tudo, ainda respirava.
Não era a barba por fazer, que me dava um ar de náufrago em vez do estrategista impecável que os Felix precisavam.
Era o olhar.
O olhar de um homem que se arrumava para o próprio funeral.
Ajustei o paletó de alfaiataria escura, Prendi o coldre sob o braço com a precisão mecânica de quem vive no limite há tempo demais. A arma era um peso familiar, mas hoje parecia um tijolo, de toda forma era de costume sempre carregar isso, mas os dias sem usa-la hoje me deu uma sensação estranha.
Agora que estava pronta, chegou a hora de ir, para algo que para mim não era só uma reunião.
Seria como uma sentença de morte.
Ou, no mínimo, o desmantelamento de tudo o que os Felix construíram em Monselha. Tudo o que meu pai suou para conquistar. Tudo o que Adon lutou para manter. Tudo o que Axel tentou proteger fugindo para o exterior.
Tudo. Por minha causa.
Porque eu, o estrategista, o psicólogo, o homem que estudava mentiras como outros estudam estrelas, não consegui enxergar a verdade mais simples.
E agora, a conta havia chegado.
Dirigi até o galpão que servia como fachada da nossa operação de logística na zona portuária. O céu estava cinzento, daquele cinza pesado que antecede tempestades, ou talvez fosse só a minha percepção.
O silêncio dentro do carro era absoluto, quebrado apenas pelo zumbido dos meus pensamentos.
“Katleia.”
Eu já a tinha chegado a Casa da Ponte. Selene jurou cuidar dela. Gildete prometeu não deixá-la sozinha. Mima e Maju fariam companhia, distrairiam, dariam risadas e chá e normalidade, mas eu não sei a que normalidade voltar.
Mas de toda forma, Ela estava segura.
Longe de mim.
“Como deveria estar desde o início.”
Estacionei o carro. O galpão parecia um monstro adormecido na penumbra da tarde, suas janelas sujas refletindo a luz opaca do céu. Entrei.
Axel e Adon já estavam lá.
Eles estavam envoltos pela penumbra dos holofotes industriais que pendiam do teto como olhos cegos.
A mesa de metal no centro da sala estava coberta por mapas táticos, fotografias, relatórios — os ossos do nosso império, dissecados e expostos. Axel estava recostado na parede, os braços cruzados, a expressão ilegível.
Adon estava sentado, roendo a unha do polegar, um tique de infância que ele nunca perdera, e que aparecia apenas quando o estresse atingia níveis insuportáveis.
— Atrasado — Axel comentou, sem tirar os olhos do mapa tático sobre a mesa. Sua voz era fria, calculista, a mesma que ele usava em negociações de morte. — E com um hematoma na cara que não condiz com a sua elegância habitual.
— Selene — respondi, passando pela mesa e parando do lado oposto a eles. — Ela descobriu algo que não deveria.
— Selene descobre tudo — Adon murmurou, sem erguer os olhos. A unha do polegar já estava sangrando. — É o dom dela. O nosso castigo.
O silêncio que se seguiu foi tão pesado que senti a pressão nos meus ouvidos.
— Guardem o sarcasmo — comecei, a voz saindo mais grave do que eu pretendia. — Precisamos falar de Katleia. De quem ela é. De quem eu fui para ela.
Adon parou de roer a unha. Axel descruzou os braços lentamente, como um felino se preparando para o bote.
— Fala — ordenou Axel.
E eu falei.
O relato foi cru.
Não poupei detalhes. Apenas despejei os fatos como quem despeja balas sobre uma mesa, uma por uma, cada uma com seu peso, cada uma com seu destino.
Contei sobre os comentários que eles já sabiam e da minha obsessão Sobre o pseudônimo "Spectre".
Contei sobre a descoberta, sobre Katleia ser Kat-x e que era ela que estava me processando.
Quando terminei, a sala parecia menor. O ar estava pesado, irrespirável. Axel havia parado de se mover completamente, era uma estátua de pedra contra a parede, os olhos fixos em mim com uma intensidade que eu nunca tinha visto.
Adon, que roía a unha de pura ansiedade, deixou o braço cair inerte ao lado do corpo.
O silêncio que se seguiu foi tão absoluto que ouvi o sangue correndo nas minhas veias.
— O que você vai fazer? — Axel perguntou finalmente.
Sua voz não era mais de deboche. Não era sarcástica, Era gélida. Desprovida de qualquer emoção.
— Vou assumir a responsabilidade — respondi. Minha voz saiu estável, apesar do terremoto dentro de mim. — Vou limpar o nome da nossa família. Desmantelar as conexões. Me entregar. Vou forçar uma negociação antes que os Bertans descubram tudo por conta própria e façam a limpa na nossa linhagem.
Adon explodiu.
Foi um vulcão.
— ISSO VAI DAR MERDA, ÁTILA! — Ele avançou sobre a mesa, as mãos espalmadas no metal, os olhos arregalados, a veia do pescoço saltando como um rio de lava. — VAI DAR UMA MERDA COLOSSAL!
Levantou-se, começou a andar em círculos ao redor da mesa, as mãos na cabeça, os dedos enterrados nos cabelos, afinal... era ele que ficava com a bagunça toda nas costas e ele sabe que o que eu vou fazer, vai lhe dá mais trabalho.
— Você não nos disse que o nível do problema era Bertans? Que o problema era BERTANS? — Ele parou, apontou o dedo para mim com uma violência que fez meu sangue gelar. — Eles não são homens, Átila! São terremotos! Eles passam por cima de tudo e deixam apenas ruínas! A ultima vez que os bertans se movimentaram perdemos a área 4 do corvo se eles quiserem tiram o controle da área 3, e o terceiro corvo desce e nos leva junto.
— Adon...


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!