Entrar Via

Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 300

Cap.107

O Disfarce dos Condenados

O vestiário do galpão portuário tinha cheiro de mofo e metal enferrujado. Três homens trocavam seus ternos de alfaiataria por moletons escuros e jeans surrados, como atores se preparando para um papel que nenhum deles queria interpretar.

Adon puxou o capuz sobre a cabeça, ajustando-o para cobrir parcialmente o rosto. Olhou para o próprio reflexo no vidro embaçado de uma janela quebrada.

— Isso é inútil — resmungou, a voz carregada de amargura. — Nossas caras estão estampadas em todas as revistas de negócios e nas telas da Interpol. Um capuz não vai esconder nada.

— É o protocolo — Axel respondeu, amarrando os cadarços de um tênis preto. — Câmeras de rua, reconhecimento facial. Se usarmos os ternos, eles nos identificam antes de entrarmos. O capuz compra tempo, afinal... podemos ser visto para qualquer lugar menos delegacia.

— Que tempo? Meia hora? Vinte minutos?

— O suficiente para ele — Axel apontou com a cabeça na direção de Átila — assinar o que precisa assinar e saímos antes que o Don descubra a loucura.

Átila, que estivera em silêncio desde que saíram da sala de reunião, terminou de vestir um moletom cinza escuro.

Ele não usava capuz. Não via sentido em esconder o rosto que ia mostrar à delegacia em poucos minutos.

— Vamos — disse, a voz plana. — Quanto mais cedo, melhor.

Os três saíram do galpão e entraram em um carro comum, um sedã preto, sem identificação, alugado em nome de uma empresa de fachada. Adon foi no banco traseiro, Axel na frente ao lado de Átila. Ninguém falou durante o trajeto.

A chuva caía fina sobre Monselha, lavando as ruas como se tentasse limpar os pecados da cidade.

A delegacia central de Monselha era um prédio cinzento e impessoal, com janelas grades e uma fachada que mais parecia uma fortaleza sitiada. Os três homens desceram do carro em silêncio.

Na entrada, dois policiais armados observaram suas aproximações com desconfiança.

— Documentos — um deles ordenou, a mão já no coldre.

Átila estendeu sua identidade. O policial olhou para o documento, depois para o rosto do homem à sua frente. Seus olhos se arregalaram ligeiramente — ele reconheceu o nome.

— Átila Felix? — perguntou, a voz hesitante.

— Quero fazer uma confissão formal. Sobre o caso de stalking e ameaças contra a escritora Katleia Santos.

O silêncio que se seguiu foi pesado, carregado de implicações que o policial não tinha treinamento para processar.

Ele se afastou, falando baixo no rádio de comunicação.

Adon suspirou ao lado de Átila, os olhos fixos nas câmeras de vigilância que giravam lentamente em direção a eles.

— Devíamos ter ligado para o Alex antes — murmurou. — Isso já está fora de controle.

— acha mesmo que deveríamos envolver o matriarca? — Átila respondeu. — Não antes de...

— Antes de quê? De você queimar tudo sozinho? Admirável. E inútil.

A porta da delegacia se abriu. Um delegado de meia-idade, expressão grave, apareceu na entrada.

— Senhores Podem me acompanhar.

Os três entraram. O corredor era longo, iluminado por luzes fluorescentes que zumbiam baixo. Retratos de delegados antigos olhavam das paredes como testemunhas silenciosas.

O delegado os conduziu a uma sala de interrogatório, mesa metálica, cadeiras desconfortáveis, uma câmera no canto com uma luz vermelha piscando.

— Vou precisar que aguardem aqui. O delegado-chefe está a caminho.

Ele saiu, fechando a porta com um clique que soou como uma sentença.

Quinze minutos depois, a porta se abriu novamente. Não entrou apenas o delegado-chefe. Entraram quatro policiais armados, posicionados em cada canto da sala.

— Senhor Átila Felix — o delegado-chefe começou, abrindo uma pasta sobre a mesa. — Você está sendo formalmente detido sob suspeita de perseguição, ameaça, e invasão de privacidade qualificada contra a senhorita Katleia Santos, você e considerado foragido e será detido imediatamente.

— Eu sei. Eu vim para confessar.

— Seus irmãos também estão envolvidos?

— Não — Átila respondeu imediatamente. — Eles não sabiam de nada. Vieram me acompanhar por solidariedade familiar.

O delegado olhou para Adon e Axel, que estavam imóveis, os rostos impassíveis, mesmo que por dentro estivessem encurralados.

— Senhores, vou precisar que aguardem na sala ao lado enquanto registramos a confissão.

— Não vamos a lugar nenhum — Adon respondeu, a voz calma mas firme. — Estamos aqui como suporte. Não saímos da vista do nosso irmão.

O delegado hesitou. Seu olhar passou de Adon para Axel, avaliando, calculando.

— As regras são claras. Envolvidos em investigação criminal devem ser separados para evitar...

— Nós não somos envolvidos — Axel interrompeu, sua voz um fio de gelo. — Somos testemunhas. E temos direito de acompanhar o processo.

O silêncio se alongou. O delegado-chefe finalmente suspirou, fez um sinal para os policiais recuarem.

— Muito bem. Fiquem. Mas qualquer tentativa de interferência, e vocês serão detidos também.

— Entendido — Adon respondeu, embora sua expressão deixasse claro que ele não estava nem um pouco satisfeito.

O processo de confissão foi longo e meticuloso. Átila ditou cada e-mail, cada comentário, cada ameaça. Datas, horários, pseudônimos. Os policiais digitavam freneticamente, registrando cada palavra.

Quando terminou, o delegado-chefe fechou a pasta com um movimento seco.

— Isso será encaminhado ao Ministério Público. Enquanto isso...

— Enquanto isso? — Átila perguntou, embora já soubesse a resposta.

— O senhor está detido, principalmente por ter se recusado diversas vezes a comparecer, usando o próprio poder para fugir de suas responsabilidades.

Adon se levantou abruptamente, a cadeira rangendo no chão.

— Isso é absurdo. Ele veio voluntariamente, confessou tudo, colaborou com tudo...

— E a lei precisa ser cumprida — o delegado interrompeu, a voz fria. — Seus irmãos também ficarão detidos até que se prove que não tiveram participação, afinal vocês se negaram varias vezes a receber o mandato, isso já está além da denúncia da vitima.

— VOCÊ NÃO PODE...

— ADON! — Átila levantou-se também, colocando a mão no ombro do irmão. — Calma. Não adianta.

— Não adianta? — Adon repetiu, incrédulo. — Eles vão nos trancar aqui como criminosos comuns, pelo menos.

— Somos criminosos comuns — Átila respondeu, a voz cansada. — Pelo menos nesse caso.

Adon o encarou por um longo momento, os punhos cerrados, a respiração pesada. Então, lentamente, sentou-se novamente.

Os policiais se aproximaram, algemas nas mãos.

— Não é necessário — Átila disse, estendendo os pulsos. — Não vou resistir.

— Protocolo.

As algemas se fecharam com um clique metálico. Adon e Axel também foram algemados, embora nenhum deles tivesse sido formalmente acusado de nada.

Eles foram conduzidos a celas separadas de atila, corredores de concreto e barras de aço, iluminados por luzes pálidas que nunca se apagavam.

Na cela, Adon sentou no chão, as costas encostadas na parede fria. O celular que os policiais não haviam apreendido pesava em seu bolso. Ele o tirou, olhou para a tela, e suspirou.

— Não tem outro jeito — murmurou para si mesmo. Digitou o número com os dedos trêmulos.

— Sério? — Axel perguntou.

— Bom... pelo menos não tiraram nossos pertences como fizeram com atila, aposto que esses caras fizeram isso com nos dois de sacanagem, só para se divertir com nossa cara.

— Alex? — disse quando a ligação foi atendida. — Precisamos de você na delegacia central. O Átila... ele fez merda. Merda grande.

Do outro lado da linha, houve um silêncio pesado.

— Que tipo de merda? — a voz de Alex era calma, mas carregada de uma fúria contida que Adon conhecia bem.

— Do tipo que envolve Bertans. E nós dois detidos junto com ele.

— Estou indo.

A linha foi encerrada.

Vinte minutos depois, o som de passos firmes ecoou no corredor. Alex Felix entrou na delegacia como um furacão em terno escuro, a expressão de quem já havia resolto problemas maiores que aquele com uma mão nas costas e a outra no bolso.

Ele não foi à sala de interrogatório. Foi direto à mesa do delegado-chefe.

— Quero ver meus filhos. Agora.

Cap.107 1

Verify captcha to read the content.VERIFYCAPTCHA_LABEL

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!