Cap,113
— Selene, o que está acontecendo? — minha voz saiu calma, controlada. O oposto do que eu sentia.
— Seu desgraçado! — o grito dela perfurou o alto-falante do celular com uma intensidade que fez o apartamento inteiro tremer. — você vai morrer!
Pisquei, confuso.
— Pode me explicar com calma?
— Com calma? Parece que caiu um raio bem na caixa de energia! Teve um apagão, e agora estamos aqui, todos com medo de se aproximar de Katleia.
Meu sangue gelou.
— Katleia? — interrompi, a voz saindo mais aguda do que eu gostaria.
— Seu idiota! — Selene continuou, implacável — estamos com medo de entrar! Depois que você deu uma espada pra ela, como vamos entrar no escuro se ela tá em pânico? Estamos todos trancados na biblioteca escondidos, nem Adon e nem William querem sair também, que merda! O que vamos fazer?
*ESPADA.*
*ESCURO.*
*PÂNICO.*
As palavras ecoaram na minha mente como marteladas.
— Átila — a voz de Adon surgiu ao fundo, mais calma que a de Selene, mas carregada de uma tensão que eu conhecia bem —, é melhor você vir. Afinal... se ela fizer alguma coisa com a espada, a culpa é sua, se ela morrer! Cassete, não vai ter mais que se preocupar com os Bertans.
Desliguei antes de ouvir o resto.
Olhei ao redor do apartamento. Estava de toalha. A chuva lá fora batia nas janelas como se quisesse derrubar as paredes.
"Carro. O carro vai demorar. O trânsito. Os engarrafamentos. O caminho até a garagem."
Meu olhar caiu sobre a chave pendurada na parede perto da porta.
A moto.
— Puta que pariu — murmurei, já me movendo.
Vesti a primeira coisa que encontrei, uma calça jeans velha, uma camisa fina de algodão que não protegia contra nada. Nem me dei ao trabalho de procurar meias. Os tênis foram enfiados nos pés descalços.
Peguei a jaqueta de couro — a única peça de roupa que oferecia alguma proteção contra a chuva, e corri para a garagem.
A moto estava lá. Preta. Possante. A mesma que eu usava para fugir quando precisava sumir da cidade.
Liguei o motor. O ronco ecoou no subsolo vazio.
"Eu nunca pensei em orar", pensei, enquanto acelerava rampa acima, a moto pulando para fora da garagem como um animal libertado. "Mas agora... eu oro para que ela não se machuque com aquilo."
"Eu cometi uma falha dessas?"
A culpa era um peso no meu peito, mais pesado do que qualquer uma das minhas armas.
Acelerei.
A chuva me atingiu como uma parede sólida assim que saí da cobertura do prédio. As gotas eram grossas, geladas, cortando meu rosto como pequenas navalhas.
A camisa fina colou no meu corpo em segundos. A jaqueta de couro, que eu imaginava que me protegeria, apenas reteve a água, criando uma segunda pele encharcada, mas cada gota que atingia minha pele parecia tiros.
O capacete, a única coisa que eu lembrei de pegar, embaralhava o som da chuva, transformando-a em um ruído branco constante.
Eu dirigia como um louco.
Costurei o trânsito, passei por entre carros parados nos semáforos, ignorei placas de limite de velocidade.
A cidade de Monselha era um borrão cinzento ao meu redor, prédios, postes, árvores, tudo se misturando em uma mancha úmida.
Em menos de cinco minutos, uma viagem que normalmente levaria vinte, eu estava chegando à mansão.
Estacionei a moto na calçada, joguei o capacete no chão, e corri para a porta.
Estava encharcado. Os cabelos colados na testa. Os tênis faziam squish-squish a cada passo. A camisa transparente, grudada no peito. O frio me atravessava os ossos, fazendo meus dentes baterem.
Mas eu não sentia nada.
Apenas ela.
A mansão estava escura.
Não a escuridão comum da noite, quando os olhos se acostumam e começam a distinguir formas.
Era uma escuridão absoluta, impenetrável, como se toda a luz do mundo tivesse sido sugada para dentro de um buraco negro.
Mas havia velas.
Pequenas chamas amareladas tremulavam nos corredores, nos cantos das escadas, sobre as mesas. Criavam sombras dançantes nas paredes, sombras que se moviam como criatura vivas, que pareciam observar cada um dos meus passos.
Entrei digitando a senha. A porta rangeu ao abrir.
Corri.
Subi as escadas no escuro, guiado apenas pelas velas e pela memória dos corredores. Meus pulmões queimavam. Minhas pernas doíam de tanto correr.
No último degrau, meu pé escorregou.
— PORRA!
A queda foi feia. Joelho no chão. Mão espalmada no degrau de madeira. Uma dor aguda disparou pelo meu braço, até o ombro.
Que droga... eu estou mesmo correndo riscos de vida por causa de uma única mulher? Me sinto como se fosse enfartar, até meu corpo está travando de medo? Medo? Eu? Nem ferrando!
Fiquei ali parado por um segundo no corredor escuro, tentando recuperar o fôlego que meus pulmões pareciam ter decidido aposentar.
A água da chuva escorria do meu queixo, morna e pesada, empapando o que restava da minha dignidade.
Empurrei meu corpo para cima, ignorando o protesto agudo dos meus joelhos e a ardência nas palmas das mãos, esfoladas pela pressa. Eu parecia um fugitivo de um hospício, não um herdeiro da máfia.
Parei em frente à porta do quarto dela, o coração martelando contra as costelas como um prisioneiro tentando escapar.
— Katleia! — chamei. Minha voz saiu mais alta do que eu pretendia, um grito rouco que ecoou pelo apartamento silencioso. — Sou eu! Está me ouvindo? É o Átila!
Silêncio. Um silêncio denso, daqueles que fazem você ouvir o próprio sangue circulando.
Liguei a lanterna do celular. A luz branca e clínica cortou a escuridão do quarto, revelando um cenário de guerra doméstica, a cama vazia, os travesseiros amassados como se tivessem sido usados para proteção, e o edredom revirado no chão em uma pilha de caos.
— Vim de moto, debaixo de um dilúvio, sem capa, sem nada! perdi a porra do celular no meio do corredor... Eu estava parecendo um sapo atropelado e você me recebe com uma execução samurai?
Senti o peito dela tremer contra o meu. Ela estava rindo. Uma risada nervosa, mas era uma risada.
— Ninguém me faz tremer tanto quanto você — sussurrei contra seus cabelos, fechando os olhos e finalmente permitindo que meus próprios braços a envolvessem.
O corpo dela ainda tremia, mas agora era de frio. Minha camisa fina estava encharcada e o contato da água gelada com a pele quente dela criava uma névoa de intimidade entre nós.
— Você é um idiota, Átila Felix — ela murmurou, apertando o abraço.
— Um idiota vivo, por sorte — respondi, beijando o topo da cabeça dela. — Agora, por favor, vamos sair de perto dessa espada antes que você decida que eu não sou o herói, mas o vilão de hoje.
Ela se afastou apenas o suficiente para me olhar nos olhos, um sorriso travesso começando a surgir no rosto pálido.
— No meu livro, o herói não cai sentado na cama gritando como uma mocinha.
— Foi um recuo tático! — protestei, mas já estava sorrindo também. — Agora, banho quente. Para nós dois. Antes que a pneumonia termine o serviço que você começou com essa Katana.
A tensão que quase me fez ter uma síncope estava se dissipando, dando lugar a uma exaustão cômica.
Katleia ainda segurava as lapelas da minha camisa encharcada, os dedos relaxando conforme a realidade de que eu não era um carrasco, apenas um idiota molhado, se assentava.
— Você está encharcado — observou ela, afastando o rosto apenas o suficiente para me analisar com aquela curiosidade de quem estuda um espécime raro de anfíbio.
— Estou. Muito. Sinto que se eu espirrar, vou inundar o quarto — respondi, tentando manter a dignidade enquanto uma gota solitária de água da chuva escorria da ponta do meu nariz.
— Você veio de moto? — Ela arqueou uma sobrancelha, o tom entre a preocupação e a incredulidade.
— Vim.
— Debaixo desse dilúvio?
— Debaixo de chuva, vento e provavelmente de alguns peixes que caíram do céu — retruquei, sentindo o frio finalmente morder minha pele. — Meus pneus fizeram mais hidroplanagem do que contato com o asfalto.
— Seu bobo. — ela murmurou, e o canto de sua boca se elevou em um sorriso que valia cada quilômetro de risco.
— Sua boba — devolvi, deixando meu sorriso se abrir, relaxado e genuíno. — Perigosa. Uma boba perigosa com instintos de samurai.
Ela riu. Foi um som baixo, rouco pelo cansaço e pelo susto, mas que aqueceu o ambiente mais do que qualquer aquecedor poderia. Ela me olhou de um jeito que me fez sentir como se eu tivesse acabado de vencer uma guerra, e não apenas sobrevivido a uma escada escorregadia.
— Você veio por mim? — A pergunta saiu pequena, carregada de uma esperança que ela ainda tinha medo de admitir.
— Óbvio. Por quem mais eu viria? Pelo Adon é que não seria.
Seus olhos, ainda brilhantes pela adrenalina, de repente se encheram de lágrimas. O sorriso dela vacilou, e meu coração deu um aperto diferente agora.
— Ei... — minha voz suavizou, e eu levei a mão, ainda úmida, ao seu rosto. — O que foi agora? A espada cortou o ar e te atingiu emocionalmente?
— Nada. — Ela enxugou o rosto rapidamente com as costas da mão, soltando um fungado que tentava esconder o choro. — É que... você é tão bobo. Tão idiota. Tão...
— Tão o quê? — incentivei, curioso.
— Tão meu.
Aquelas palavras foram o nocaute final. Apertei-a contra meu peito, sentindo o calor do seu corpo contrastar com o frio das minhas roupas. Meu coração, que minutos atrás queria saltar pela garganta, finalmente encontrou seu ritmo, batendo em sincronia com o dela.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!