Cap.114
Eu a abracei com força a fiquei ali ate ouvir o BAM! BAM! BAM!
A porta do quarto não apenas tremeu, ela quase saiu dos gonzos com a violência das batidas. Se eu não soubesse quem era, teria pensado que os Bertans tinha voltado com um aríete.
— Katleia! Pelo amor de deus, você está viva? — A voz de Selene atingiu uma oitava que eu nem sabia que era humanamente possível. Era o som do pânico puro.
Katleia se afastou de mim, com uma relutância que eu fiz questão de registrar mentalmente para inflar meu ego mais tarde, e caminhou até a porta. Quando ela girou a maçaneta, o corredor pareceu vomitar gente para dentro do quarto.
O cenário era digno de uma peça de teatro de baixo orçamento.
Selene estava na linha de frente, segurando uma vela que tremelicava tanto que a cera quente ameaçava selar seus dedos.
Sua expressão era de terror absoluto, o rosto pálido sob a luz bruxuleante. Ao ver Katleia inteira, a respiração dela saiu em um silvo de alívio, mas seus olhos logo se desviaram para mim, parado no fundo do quarto como um fantasma encharcado.
— Katleia! Você está bem? Ele... ele... — Selene recuou um passo, a mão livre no peito. — Você! O que você está fazendo aqui, seu animal?
— Eu — confirmei, soltando um suspiro pesado e cruzando os braços. — Sobrevivi ao dilúvio e à tentativa de decapitação para livrar vocês do cativeiro que se enfiaram e estão reclamando?
Adon apareceu logo atrás dela, mantendo uma distância segura. Ele segurava uma daquelas velas de sete dias, segurando-a longe do corpo como se fosse um artefato explosivo.
O sarcasmo dele, no entanto, estava intacto e mais afiado do que nunca.
— Adivinhem quem foi o gênio da estratégia militar que resolveu dar uma espada de verdade para a pessoa mais traumatizada da casa... no meio de um apagão total — Adon disparou, a voz gotejando ironia.
— Adon, agora não é hora... — Selene tentou repreender, mas ele já tinha engatado a marcha.
— Não, Selene! Eu vou falar! — ele interrompeu, a voz subindo de tom conforme a indignação crescia. — eu vou falar porque eu quase morri! Ainda bem que ela não resolveu testar a lâmina no lugar dele, porque se ela me visse no escuro com essa vela, eu ia parar em outro lugar! Sabe onde? No necrotério!
Selene deu um tapa sonoro nas costas dele, mas Adon estava possuído pelo espírito do drama.
— Cala a boca, adon!
— ela ia arrancar minha cabeça fora! — ele continuou, ignorando o golpe da esposa. — Vocês viram o olhar dela? Hein? Eu vi! Através da fresta da porta! Era o mesmo olhar psicopata que o Átila tem quando decide que alguém não vai chegar ao jantar!
— Ela não ia te matar, Adon. Deixa de ser dramático — tentei intervir, sentindo uma pontada de diversão apesar de tudo.
— Ela ia! — ele insistiu, os olhos arregalados para mim. — E sabe o que é pior? Todo mundo ia ficar do lado dela! "Ah, coitada da Kat, teve um trauma", "Ela estava em surto, não sabia o que estava fazendo", "O Adon provavelmente mereceu". Eu seria o único morto sem direito a um advogado de defesa!
— Adon — Selene disse, sua voz caindo para aquele tom perigosamente calmo que precede um furacão —, se você não calar a boca e apagar essa vela agora, eu mesma vou te dar um trauma que nem dez anos de terapia vão resolver.
Ele fechou a boca instantaneamente, mas continuou lançando olhares de soslaio para a Katana no chão.
Ao fundo, na penumbra do corredor, vi o resto da comitiva.
William estava recostado no batente da porta, os braços cruzados com uma serenidade invejável. Ele já tinha visto guerras, execuções e o caos da máfia, um apagão e um casal disfuncional eram apenas entretenimento de terça-feira para ele.
Ao seu lado, o pequeno Ryuk, o menino que Gildete tratava como tesouro e que William protegia como um cão de guarda e que supostamente era mesmo o filho dele, ele estava agarrado à perna do "pai". O garoto tinha os olhos como pires, a boca entreaberta, olhando para mim como se eu fosse um monstro marinho que acabou de sair do oceano.
— O tio Átila é um pirata? — Ryuk sussurrou para William, apontando para minhas roupas coladas e meu estado deplorável.
William deu um tapinha na cabeça do menino, sem desviar os olhos de mim.
— Quase isso, pequeno. Ele é só um homem que não sabe quando parar.
— Chega de show — decretei, tentando retomar o controle da situação. — O apagão não vai durar para sempre e eu preciso de roupas secas antes que eu vire uma estátua de gelo no meio do quarto da Katleia. Adon, pare de chorar pela sua cabeça. Selene, ela está bem.
Katleia deu um passo à frente, segurando minha mão. O contato fez a sala silenciar por um segundo. A proteção dela sobre mim, mesmo depois de quase me furar, era evidente.
— Ele veio me ver — ela disse para o grupo, com uma nota de orgulho na voz que me fez esquecer o frio.
— É — Adon resmungou, voltando a se esconder atrás de Selene. — Veio ver ela e quase levou um "harakiri" de brinde. Felix sendo Felix. Que noite maravilhosa.
Gildete estava logo ao lado, operando como o pilar de sanidade que aquela comitiva desesperadamente não tinha.
Uma de suas mãos repousava no ombro de Maju, que oscilava perigosamente entre o sono profundo e um estado de choque catatônico, enquanto a outra equilibrava uma vela tão próxima de seu próprio penteado que eu já estava mentalmente calculando o tempo de resposta do extintor de incêndio mais próximo.
Mima, fiel ao seu estilo, permanecia nas sombras, quase uma extensão da escuridão do corredor.
Eu não conseguia ver seu rosto, mas sentia o peso do seu julgamento queimando minha nuca. Se o silêncio dela fosse uma arma, eu já estaria cravejado de balas de prata.
— Está tudo bem, pessoal — Katleia anunciou, projetando uma calma que contrastava absurdamente com o fato de ela estar segurando uma arma branca minutos antes. Ela sorriu para o grupo, um sorriso que tentava costurar os nervos esgarçados de todos. — O Átila veio.
— Veio? — Selene disparou, a voz subindo um tom, beirando a histeria. — Ele INVADIU a mansão, Katleia! Entrou como um batedor de carteiras no meio do apagão!
— Ele tem a senha, Selene — Katleia respondeu com uma lógica inabalável. — Além disso foi ele que cuidou de todo o sistema da casa.
— Deveria bater na porta. — Selene gesticulou com a vela, derramando uma gota de cera no tapete. — A senha é para invasões de cartéis, terremotos ou o apocalipse, não para ele vir direto para o seu quarto de madrugada como um Romeu encharcado! Mas... que bom... — ela suspirou abaixando a cabeça, ela tentava ser dura, mas... é assim que ela demonstra que estava desesperada, falando demais igual um patinho grasnando
— Tecnicamente, não é madrugada — Adon interrompeu, consultando o relógio de pulso com uma precisão irritante. — São onze e meia. Ainda é horário nobre.
Olhei ao redor para aquela assembleia de velas, pijamas e rostos assustados. Vi o tremor na mão de Selene, o cansaço nos olhos de Gildete e até o mau humor crônico de Adon.
Senti algo estranho expandir no meu peito. Não era a adrenalina da luta, nem a culpa que costumava me consumir. Era... calor. Um aconchego incômodo e desconhecido, normalmente cada Felix vivia por si mesmo, presos em seus espaços e sem ninguém, estar em uma casa cheia. É estranho, pena que Alex se mantem em sua bolha, sempre isolado, mesmo quando tenta se aproximar de Selene.
Ele me olhou com aqueles olhos enormes e expressivos, piscou lentamente, como se estivesse processando se eu era o herói ou o vilão do livro da Katleia, e enterrou o rosto na calça de William.
— Ele é tímido com estranhos encharcados — William explicou, com um sorriso de canto que carregava uma camaradagem silenciosa.
— Percebi. Boa noite, pequeno guerreiro.
Eles se afastaram, a silhueta alta de William guiando os passos incertos do menino pela penumbra. Gildete e Maju seguiram logo atrás, as chamas de suas velas criando sombras dançantes nas paredes. Mima, como um fantasma eficiente, já havia evaporado para o andar de baixo, de toda forma, ela continua fugindo de mim.
Sobramos nós três na porta.
Selene ainda mantinha os braços cruzados, a expressão dividida entre a vontade de me dar um soco e o desejo de me abraçar por eu ter vindo, no final eu sou seu irmão mais velho, entender seu jeito de dá carinho e bater... não! é irracional, eu não vou entender isso.
— Você vai ficar mesmo aqui? — perguntou, seus olhos fixos nos meus.
— Vou. Não saio do lado dela, lembre que Katleia e eu estamos juntos.
— E vai proteger ela? — O tom dela mudou. Ficou sério. Real.
— Com a minha vida, Selene. Você sabe disso, além disso não há perigo.
Ela suspirou, um som longo e cansado que pareceu esvaziar toda a tensão da sala.
— Não é a vida dela que me preocupa, Átila.
— O quê?
— É a sua, seu idiota — ela disse, dando um passo à frente e batendo levemente com os nós dos dedos no meu peito, exatamente onde o coração batia. — Tente não ser morto por ela ou por si mesmo antes do amanhecer, como pode dá uma espada a Katleia? E eu já vi ela segurando isso mais de uma vez.
— Selene! O que é? Eu sou uma ameaça agora? — Katleia protestou.
Ela se virou e caminhou pelo corredor antes que eu pudesse formular uma defesa em pro de Klateia ou agradecer pelo que, na linguagem dos Felix, era um "eu te amo".
Ficamos ali, Katleia e eu, no quarto agora mergulhado em uma penumbra suave, iluminado apenas pelas últimas velas e pelo luar prateado que finalmente vencia as nuvens de tempestade.
— Vamos dormir? Depois de um banho é claro. — sussurrei.
— A porta vai ficar aberta, como você prometeu?
— acho que é uma opção. Mas se o Adon aparecer aqui de novo, eu não respondo por mim.
Ela se aninhou contra o meu peito, o encaixe perfeito de duas peças quebradas que, juntas, formavam algo sólido. Lá fora, o trovão era apenas um eco distante e a chuva havia se transformado em um chuvisco calmante. Dentro do quarto, depois do dia sangrento não pensei que eu tivesse encontrado o caminho de casa e eu nem pensei que isso seria possível.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!