Cap.134: O Que Restou Dela
POV, Átila Felix
Eu não pensava mais. Apenas seguia o ponto vermelho piscando no aparelho.
O jipe parou no limite da comunidade.
Não esperei Adon desligar o motor. Saltei com a katana nas costas e a pistola na mão. A chuva caía forte, transformando o chão de terra em lama escorregadia.
Cada passo que eu dava era um juramento silencioso.
Se alguém ficar no meu caminho, morre.
Adon veio logo atrás, arma em punho. Não tentou me deter.
Apenas cobriu minha retaguarda, atirando em quem tentava se aproximar ou me atacar por trás. Os tiros ecoavam abafados pela tempestade.
Eu nem olhava para trás. Meus olhos estavam fixos no galpão velho à frente, um território que um dia já fora dos Corvos, eu sabia que eles a trariam para cá, eu sabia que era o único lugar que eles poderiam a esconder sem que ela fosse encontrada, a não ser por mim.
Já fazia tanto tempo que não víamos a esse lugar desde que Omar pegou o domínio, mas eles me fizeram voltar e não vou deixar que vivam para contar historia.
Empurrei a porta enferrujada com o ombro. A madeira cedeu com um estrondo.
O cheiro me acertou primeiro. Mofo, medo, sangue velho. E então eu a vi.
Katleia.
Dentro de um quarto improvisado de paredes de vidro sujo, como se fosse um maldito espetáculo. Ela estava no chão, encolhida. Pulsos e tornozelos amarrados com cordas ásperas.
O corpo tremia tanto que eu conseguia ver mesmo de longe. Seus olhos estavam abertos, mas vazios, perdidos em algum inferno particular.
Dois homens estavam agachados ao redor dela, rindo baixo, tocando seu cabelo, seu ombro, sussurrando coisas que eu não precisava ouvir para entender.
A dor que explodiu no meu peito foi pior que qualquer tiro que já levei.
Eles amarraram ela? E era a coisa que ela mais tinha traumas, porque depois disso... o que vinha era ainda pior.
Eu sabia exatamente o que aquelas cordas significavam para Katleia. Sabia do porão. Sabia das noites em que ela tentara se matar para escapar, mesmo sendo só uma criança. Sabia que cada nó naquela corda era uma lâmina reabrindo feridas que nunca cicatrizaram de verdade.
E eles estavam brincando com isso. Usando o trauma dela como diversão.
Eu não gritei. Não avisei. Apenas avancei, eu não sei quantos homens cortei, mas era uma coisa prazerosa, ver o sangue jorrar, todos que fizeram parte e viram o que eles estavam tentando fazer e permitiram, merece morrer.
Invadi a sala.
O primeiro homem mal teve tempo de se virar. Eu o agarrei pela nuca e lancei com toda a força contra a parede de vidro. O impacto foi brutal. O vidro rachou. Ele caiu gemendo, sangue escorrendo da testa.
O segundo sacou uma a arma. Errou.
Eu segurei seu pulso, torci até ouvir o osso estalar, e depois o arremessei contra o chão com tanta força que ele perdeu toda a capacidade de se mover. Seu corpo bateu com um baque surdo que ficou inconsciente.
Eles não morreriam. Ainda não. Eu tinha planos melhores para esses dois.
Mas faltava um. O terceiro. O que eu sabia que existia desde que eu tratei ela com hipnose, soube de cada coisa, soube de cada pessoa, o padrasto dela e esses três desgraçados que abusavam dela juntos, o que ela tinha apagado da mente, estava na minha mente, e eu sabia que eu tinha que caçar quatro pessoas e não uma.
Três monstros que agora, anos depois, tinham coragem de tocar na minha mulher novamente.
Eu me ajoelhei diante dela.
Katleia estava quase desmaiada, o rosto molhado de lágrimas, o corpo convulsionando em soluços silenciosos. Suas roupas ainda estavam no lugar, graças a Deus, mas o terror em seus olhos era o mesmo de uma criança de onze anos, ela não podia me ver, seus olhos pareciam turvos.
— Katleia... — minha voz saiu rouca, partida.
Cortei as cordas com a faca. Primeiro os pulsos, depois os tornozelos. Assim que ficou livre, ela desabou contra mim. Eu a segurei com força, puxando seu corpo pequeno e trêmulo para o meu peito. Meu coração martelava tão forte que eu tinha certeza que ela conseguia ouvir.
Ela não respondeu. Estava apagando. Mas seus dedos ainda se agarravam fraco à minha camisa cinza de detento, como se mesmo inconsciente soubesse que era eu.
Eu a apertei mais contra mim, enterrando o rosto em seus cabelos molhados de chuva e suor. O cheiro dela misturado com medo quase me quebrou.
— Eu não saberia como te colar de novo se eles te quebrassem mais uma vez... — sussurrei, a voz falhando pela primeira vez em anos. Beijei sua testa com um desespero que eu nunca sentira antes. — Me perdoa por demorar. Me perdoa por tudo.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!