Cap.135
O apelido que me chama.
O cheiro de antisséptico foi a primeira coisa que Katleia registrou ao emergir da escuridão.
Frio. O cheiro frio e cortante de hospital, de álcool e gaze e morte adiada.
O segundo foi a dor, uma dor surda, latejante, que parecia vir de todos os lugares ao mesmo tempo, mas que não pertencia a nenhum ferimento físico. Era a dor de ter sido arrancada de dentro para fora. Era a dor de lembrar.
Aquelas memorias estavam ali a consumindo como se fossem a atormentar.
Seus olhos se abriram com um sobressalto.
O teto branco. A luz fluorescente pálida. E rostos. Muitos rostos ao redor da cama.
Selene estava à sua esquerda, segurando sua mão com tanta força que os nós dos dedos estavam brancos.
Seus olhos estavam vermelhos, inchados.
Gildete estava aos pés da cama, os braços cruzados, o rosto uma máscara de calma forçada que não enganava ninguém. Sua mandíbula estava travada.
Maju estava encolhida na cadeira ao lado da janela, os joelhos contra o peito, os olhos fixos em Katleia como se ela pudesse desaparecer a qualquer momento, cada olhar guardava um peso do que estava acontecendo lá fora.
— Onde... — a voz de Katleia saiu rouca, estranha, como se não fosse dela. — Onde estou?
Selene apertou sua mão com mais força.
— No hospital. Você está no hospital, Kat. Está segura. Não passou de um pesadelo...
— Não foi um pesadelo! — Katleia interrompeu, e o grito arrancou sua garganta como uma lâmina. Ela tentou sentar, mas os braços de Selene a seguraram. — Não foi! Eu vi! Eu vi tudo, eu... eu não fui machucada, mas... A Mima... onde está a Mima?
O nome pairou no ar como um fantasma.
Selene sorriu. Era um sorriso frágil, trêmulo, que não chegava aos olhos, olhos que estavam cheios de lágrimas.
— Fique tranquila, Kat. Ela vai ficar bem. Eu prometo. Nós...
As mãos de Selene tremeram. As palavras falharam.
Katleia apertou os olhos. Quando os abriu, viu Gildete desviar o rosto. Viu Maju enterrar o queixo nos joelhos, os ombros sacudindo em soluços silenciosos.
— Ela foi machucada por minha causa, ta grave, não é? — Katleia sussurrou, a voz quebrada. — Tudo por minha causa. A Mima levou uma facada porque eu... porque eu não pude... eu... eu vacilei e sai sem avisar! Eu sou a culpada!
— Não foi sua culpa — Gildete disse, a voz firme, mas havia um tremor nela que Katleia nunca tinha ouvido antes, elas estavam com bastante mesmo.
— Foi! Foi sim! Eu trouxe eles para perto de vocês! Eu trouxe o inferno para dentro da sua casa! Eu... vocês viviam em paz... deveriam ter me deixado naquela casa velha sozinha.
As lágrimas escorriam agora, quentes e incontroláveis, escorrendo pelo seu rosto, molhando o travesseiro branco.
— Eu só quero que ela fique viva... — continuou, a voz falhando a cada sílaba. — Não é justo com ela, com nenhuma de vocês, carregar o peso que eu carrego. Eu não quero! Eu não quero mais colocar ninguém em perigo!
— Katleia...
— Não volto mais para a mansão — ela disse, e a frase foi um tiro. — Não vou voltar.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. As meninas se entreolharam. Selene apertou os lábios, contendo o choro. Gildete balançou a cabeça lentamente, como se recusasse a aceitar.
— Não vamos deixar você sozinha — Selene disse, finalmente. — Nunca. Você ouviu?
— Mas...
— Não importa o que aconteça, Kat. Nós estamos apavoradas. Todas nós. Mas não vamos te abandonar. Nunca.
Katleia tentou se levantar novamente.
— Eu preciso ver a Mima. Agora.
— Você não pode se levantar — Gildete disse, pressionando suavemente seus ombros de volta ao colchão. — O médico disse para você descansar. Seu corpo entrou em colapso.
— Eu estou bem! Saí ilesa! Ela que...
— Você não está bem — Maju falou pela primeira vez, a voz pequena, trêmula. — Você está tremendo, Kat. Seus olhos estão... estranhos.
Katleia olhou para as próprias mãos. Estavam tremendo. Estavam tremendo tanto que parecia que ela estava segurando um terremoto dentro da pele.
— Eu estou bem — repetiu, mas a voz não era convincente nem para ela mesma.
Selene a puxou para um abraço, e Katleia se deixou cair, exausta, os braços moles ao redor do corpo da amiga.
— Fica quieta — Selene sussurrou contra seus cabelos. — Fica quieta e respira. A Mima está sendo cuidada. Os médicos disseram que ela vai ficar bem. Vai demorar, mas ela vai ficar bem.
Katleia fechou os olhos. As lágrimas continuavam a escorrer, silenciosas agora.
— Eu achei que ia morrer — confessou, a voz abafada no ombro de Selene. — Eu achei que eles iam...
— Não pensa nisso. Você está aqui. Você está viva, ninguém te tocou, nem te machucou, ok?
— Por pouco.
O som da porta se abrindo fez todas virarem a cabeça.
Adon entrou.
Ele não estava vestido com o terno impecável de sempre.
Usava uma calça escura e uma camisa de botão desabotoada no pescoço, as mangas dobradas até os cotovelos. Seu rosto estava cansado, os olhos percorrendo o quarto antes de pousar em Katleia.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!