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Quarto errado, Mafioso certo! romance Capítulo 329

Cap. 136

O Eco do Passado

Pov Katleia.

Gatinho?

A palavra ricocheteou dentro da minha mente como um grito abafado em um túnel vazio, me fazendo sair de debaixo da coberta.

Meus olhos, que até segundos atrás estavam fixos em um ponto qualquer da parede, travaram no rosto daquele homem.

A névoa de dor, de remédios e de trauma que envolvia meu cérebro desde que eu acordara, subitamente se dissipou.

Aquele apelido... ele era o único vestígio de uma vida anterior à escuridão, uma vida que eu julgava ter sido apagada por completo.

"Gatinho."

Eu não apenas me lembrava da palavra; eu me lembrava da voz. Uma voz que, em algum lugar dos arquivos mortos da minha memória, me contava histórias enquanto eu lutava contra a febre, uma voz que cantava baixinho para espantar o medo do escuro, uma voz que eu não pensava que ouviria de novo.

— Pai... — eu sussurrei, e a palavra saiu como um soluço, arranhando minha garganta.

Apontei o dedo trêmulo para ele, com os olhos arregalados, inundados por lágrimas que eu nem sabia que ainda tinha para chorar.

— É você... — gaguejei, a voz falhando, o ar recusando-se a entrar nos pulmões, sentindo as lagrimas caírem quente, ele não estava morto, eu sabia... — É você. Meu paizinho. É meu pai...

Eu não conseguia parar de repetir, como um mantra desesperado.

O homem à minha frente não aguentou. As lágrimas, que ele vinha tentando conter com uma força hercúlea, transbordaram.

Ele parecia ter envelhecido décadas em poucos segundos.

— Minha filha... — ele balbuciou, a voz quebrada por uma dor antiga, uma dor que ele carregara sozinho por tempo demais. — Você cresceu tanto... Meu Deus, Katleia, eu sou eu. Eu estou aqui. Você lembra? Por favor, me diga que você lembra.

Eu não conseguia responder.

As palavras haviam sumido, sugadas pelo vácuo de uma realidade que parecia impossível.

As perguntas, porém, começaram a martelar minha cabeça. Por que ele não estava lá quando eu mais precisei? Por que ele não salvou a mim e à mamãe daquele destino cruel?

— Por que você me abandonou? — a pergunta saiu, ácida, carregada de toda a mágoa que eu guardara por anos. — Por que minha mãe disse que você tinha morrido? Por que você me deixou sozinhas para morrer?

Ele não se defendeu. Não se afastou. Pelo contrário, ele se aproximou mais, invadindo meu espaço pessoal, mas, para minha surpresa absoluta, eu não senti medo.

Eu sentia um calor estranho, um cheiro que me trazia memórias de uma infância que eu acreditava ser um sonho ruim.

— Eu não te abandonei, Katleia. Nunca. — Ele se sentou na beirada da cama, sua mão calejada hesitando antes de pousar suavemente sobre a minha. — Eu descobri há pouco tempo que você estava viva. Naquela época... sua mãe me colocou para fora porque eu tinha perdido o emprego. Ela disse que eu não servia para ser o seu pai e nem marido dela. Você não lembra? Lembra daquelas brigas? — ele perguntava quase desesperado querendo se justificar.

A memória veio como um relâmpago, violenta e nítida. O som de pratos quebrando. O grito dela. O choro dele.

— Vocês brigavam tantas vezes em minha frente... — murmurei, os olhos fixos na colcha hospitalar. — Eu tentava me esconder debaixo da mesa, tampando os ouvidos.

— Eu me esforcei tanto, minha filha. Eu me esforcei para cuidar de vocês, mesmo que não tivéssemos nada. Eu trabalhava em dois empregos, chegava em casa com as mãos sangrando, mas eu via você sorrir e tudo valia a pena.

A imagem se formou na minha mente, ele, magro, exausto, os olhos fundos de tanto cansaço, mas sempre voltados para mim com uma devoção que eu não compreendia na época, mas que amava, ele era meu pai.

Lembrei-me de quando eu ficava doente, de como ele passava noites em claro, sem comer, apenas para garantir que eu tivesse o pouco de remédio que conseguíamos comprar.

— Você lembra, não lembra? — ele insistiu, a voz embargada. — Não duvide do meu amor por você. Mesmo que fôssemos muito pobres... eu jamais deixaria de te proteger. Havia apenas seis meses que eu tinha saído de casa, tentando desesperadamente conseguir dinheiro para alugar um lugar melhor para te buscar, para provar que eu era capaz. Quando eu finalmente arrumei um emprego digno e voltei para te buscar... ela...

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