Cap. 137
POv Katleia.
por um instante, tudo o que eu conseguia sentir era o calor da mão do meu pai sobre a minha. Era uma sensação tão antiga, tão profundamente enterrada na minha consciência, que por um segundo, apenas um segundo de delírio, eu me senti com sete anos de idade novamente.
A dificuldade, a pobreza, a vida simples que levávamos antes da sombra daquele homem, daquele monstro cair sobre nós... tudo parecia ter voltado a ter cor.
Eu estava feliz. Não uma felicidade plena, mas uma felicidade de sobrevivente que encontra um bote no meio de um naufrágio.
Levantei-me da cama. O mundo rodou, mas meu pai me segurou, o olhar preocupado.
— Onde você vai? — ele perguntou, a voz rouca.
— Preciso saber da Guilhermina — respondi, sem olhar para trás.
Caminhei pelo corredor do hospital com um peso que não era meu, mas que eu tinha carregado a vida toda.
Ao dobrar o corredor, vi as meninas. Maju, Gildete e Selene estavam ali, encostadas na parede, formando uma barreira invisível.
Elas estavam exaustas. Observei-as em silêncio por um momento.
Elas estavam sempre em alerta. Quando algum médico passava, quando um enfermeiro fazia um barulho mais alto, elas tencionavam os ombros, as mãos prontas para o que fosse necessário.
Eu comprimi os lábios, sentindo um gosto de bile e amargura.
Quanto tempo faz que elas não têm paz por minha causa? Elas nem conseguiam relaxar quando alguém estranho se aproximava.
Minha mera existência era um gatilho para o caos delas e esse caos quase matou Mima.
Minha mente voltou, como um relâmpago, para o dia em que a Madre me salvou. Lembrei-me do meu corpo quebrado, da incapacidade de levantar, de falar, de comer.
Lembrei-me delas, anos atrás, ocupando cada minuto de suas vidas para me manter viva, para me ensinar a respirar de novo. Anos de dedicação, anos de cuidado. E o que eu dei em troca? Problemas. Sangue. Dor, nesse momento... olho para Gildete e Selene... e Mima e me lembro do quanto elas se esforçavam por mim, mesmo quando Selene e Mima tiveram seu período de desentendimentos, Guilhermina nunca foi indiferente comigo, não comigo.
Cheguei à porta da UTI. Mima estava sendo estabilizada e parece que estava sendo constantemente assim, para que conseguissem a manter viva.
O médico, com uma expressão grave que me quebrou o coração, explicou que a facada tinha atingido um ponto vital e que as chances... eram poucas.
Guilhermina, a minha Mima, a mulher que foi grossa com Selene, que foi dura com a vida, mas que sempre teve garras afiadas para me proteger, estava ali, entre a vida e a morte. Por minha causa.
Eu... eu não queria que nelhuma delas morressem por minha causa.
Olhei ao redor, estavam mais pessoas ali, Os gêmeos Bertans estavam ali, figuras neutras e imponentes como se tivesse prontos para qualquer imprevisto, eu devo tanto a eles agora, porque foram eles que a salvaram a tempo.
Selene se aproximou deles, falando baixo, com urgência. Aproximei-me, querendo ouvir o meu destino.
— Já avisamos o clã — um dos gêmeos dizia, a voz fria como gelo. — Conseguimos pegar um dos homens. Mas os outros dois... o Átila os interceptou antes de nós. Ele os levou sem permissão.
Meu coração saltou.
— Onde ele está? — perguntei, interrompendo a conversa. Minha voz saiu trêmula, mas firme. — Onde está o Átila?
Eles viraram o rosto. Não disseram nada. O silêncio deles foi uma sentença.
— Por favor! — implorei, as lágrimas voltando a queimar. — Eu sei que ele me salvou. Onde ele está?
— Ele está fugindo, Katleia — um deles respondeu, sem emoção. — Ele está fora da lei agora. Não vai aparecer para você, por vergonha..
Lembrei-me do que os homens dele tinham dito antes de tudo desmoronar: ele foi preso por sua causa.

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