Cap. 138
Pov Katleia.
O trajeto de táxi até o bairro simples, longe dos muros altos das mansões e do cheiro de pólvora e sangue, pareceu uma viagem para outro mundo. O ar ali era diferente. Havia cheiro de terra, de jantar sendo preparado, de vizinhos conversando em calçadas. Era uma simplicidade que me desarmava. Meu pai, ao meu lado, mantinha a mão fechada, tensa, mas quando o carro finalmente estacionou, vi seus ombros relaxarem um milímetro.
Quando descemos, o portão de uma casa de madeira pintada de azul se abriu.
O meu coração, que já estava em frangalhos, parou de bater por um segundo inteiro.
Duas crianças, um menino que aparentava uns oito anos e outro de uns seis, saíram correndo, rindo.
Logo atrás, uma mulher de semblante sereno apareceu, limpando as mãos no avental. Meu pai não esperou.
Ele deu dois passos largos e se abaixou, abrindo os braços. A alegria com que aquelas crianças se jogaram nele, o modo como ele as suspendeu e as abraçou, foi uma cena que me empurrou para trás, para o meio-fio, como se o chão tivesse desaparecido debaixo dos meus pés.
Ele tem outra família.
O pensamento veio como um golpe seco na boca do estômago.
Ele não tinha apenas me perdido, ele tinha substituído o vazio que eu deixei.
A culpa, que já era gigante, agora vinha acompanhada de uma solidão nova, fria.
Ele tinha filhos que riam, uma esposa que o esperava. Onde, em nome de Deus, caberia uma mulher quebrada e cheia de fantasmas como eu naquele quadro?
Senti o ar faltar. Virei o rosto, deixando que uma lágrima solitária, rápida e traiçoeira, escapasse antes que eu pudesse contê-la.
— Não tem espaço... — murmurei para mim mesma, o peito apertado. — Como eu posso ser filha dele se ele já tem um mundo inteiro aqui?
Mas a realidade, teimosa, me trouxe de volta. O menino mais velho, com olhos curiosos que me analisavam de cima a baixo, parou de rir. Ele olhou para o meu pai e depois para mim.
— É ela, pai? — o menino perguntou, a voz clara e sem malícia. — É a irmã? A do mural?
Meu pai se ergueu, o menino de seis anos ainda no colo, e sorriu para mim, um sorriso que eu não esperava.
Mas antes que ele pudesse responder, o menino de oito anos, com uma espontaneidade que só a infância possui, correu até mim. Ele não hesitou. Ele simplesmente abraçou minha cintura, enterrando o rosto no meu casaco.
Fiquei petrificada. O calor daquele corpo pequeno me assustou, o que ele estava fazendo? Eu nem sei quem eles eram.
— Irmã... — ele disse, olhando para cima e sorrindo como se me conhecesse de toda a vida. — Irmã Gatinho, não é?
O mundo parou. Gatinho? Como eles sabem?
Encarei meu pai, o choque evidente no meu rosto. Ele se aproximou, deixando o outro menino no chão.
— Desculpa... — ele disse, a voz trêmula. — Eles te conhecem como Gatinho desde que nasceram. É como falamos de você aqui.
Falam de mim?
O menino menor, com a inocência de seus seis anos, inclinou a cabeça.
— Pai, mas ela não parece um gatinho. Ela não é um gato... — Ele apontou para mim. — É a irmã da foto da sala?
Eu não conseguia processar. Foto? Que foto?minhas mãos tremiam, eu nem sabia o que sentir e como me sentir... mas estava sentindo muito medo agora.
A mulher, a esposa dele, se aproximou. Ela não tinha raiva, ou olhar possessivo que eu temia, eu esperava qualquer hostilidade, mas... mas ela tinha apenas compaixão. Ela tocou meu ombro, gentilmente.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!