Cap.141
O Silêncio que Precede o Caos
A semana se arrastou como uma névoa densa sobre o bairro simples de casas simples e muros baixos.
A rotina de Katleia na nova casa de seu pai tornara-se um ritual quase sagrado.
Acordar com o cheiro de café passado por Helena.
Ouvir a gritaria dos meninos correndo pelo corredor. Sentar-se à mesa da sala para escrever ou nas muitas vezes em seu quarto, enquanto a luz da manhã entrava pelas cortinas de renda.
Ela estava aprendendo a respirar de novo.
Mas o silêncio da rua tinha dentes e olhos afiados que ela nem imaginava.
Três dias atrás
O primeiro bilhete apareceu preso no portão, dobrado em um triângulo imperfeito.
Katleia o encontrou ao voltar do mercadinho da esquina com Helena. O papel era amarelado, rasgado às pressas de um caderno qualquer. A caligrafia era disfarçada, letras de forma nervosas que pareciam arranhar a superfície.
"Você acha que pode recomeçar? Talvez possamos ter um recomeço bem agradavel"
Seu coração disparou. As mãos gelaram. Por um segundo, o mundo girou, era uma nova escrita, no começo ela pensou
— O que é isso? — A voz de Sebastião veio de trás, grave, controlada.
Antes que ela pudesse esconder, ele já estava ao seu lado. Não arrancou o papel da mão dela, apenas o tomou com uma delicadeza que doía. Leu em silêncio. O maxilar travou.
— Quem deixou isto?
— Não sei... estava no portão.
Sebastião não fez alarde, Apenas amassou o bilhete com força e guardou no bolso da calça jeans surrada. Depois, colocou a mão no ombro da filha.
— Você está com medo?
Katleia hesitou. A resposta honesta seria sim.
O coração ainda martelava. A lembrança de outras ameaças, do que passou, de outras noites em claro, subia pela garganta como fel.
Mas ela olhou para o pai. Viu a tensão nos ombros dele, a forma como seus olhos varriam a rua, calculando cada janela, cada sombra. Ele estava mais assustado do que ela. E, de alguma forma, isso a acalmou.
— Não — respondeu, e a voz saiu mais firme do que ela esperava. — Estou bem. Estou segura perto de você. Perto deles, sei que nada vai acontecer.
Sebastião a observou por um longo segundo. Buscou por qualquer trêmulo, qualquer sinal de colapso.
Não encontrou. A filha dele não era mais a menina que se encolhia no escuro, ela se sentia mesmo segura ao seu lado como se nada pudesse encostar nela com ele ali.
Ele assentiu. Guardou o bilhete.
E, naquela noite, queimou o papel no quintal, observando as cinzas subirem como fantasmas na escuridão.
O segundo bilhete veio enfiado na fresta da janela do quarto de Katleia.
"Ele não vai te salvar para sempre."
Ela leu, respirou fundo, e levou diretamente ao pai. Dessa vez, as mãos tremiam menos.
Sebastião leu, guardou no bolso, e perguntou novamente.
— Está com medo?
— Não — ela respondeu.
E era verdade, mas ela sentia como se algo estivesse prestes a acontecer.
Mas internamente pensava, eu sei que atila esta por ai, eu sei que ele não vai me deixar correr nenhum perigo e ao lado do meu pai, não tem porque eu fugir, então... porque eu vou temer.
O terceiro bilhete foi encontrado pelo pequeno Lucas, de oito anos, que o pegou do chão perto da calçada e entregou à mãe sem entender direito o que era.
"Ainda lembra do cheiro do porão?"
Helena leu. Seu rosto empalideceu, mas ela não deixou que as crianças vissem. Guardou o papel na gaveta da cozinha e esperou Sebastião chegar do trabalho.
Quando ele leu, seus punhos se fecharam com tanta força que os nós dos dedos estalaram.
— Está chegando perto — ele murmurou, mais para si mesmo do que para Helena. — Ele está perdendo a paciência.
— Será que ele está tão perto assim?
— ele nunca esteve longe, ele sabe se camuflar bem, por isso temos que dobrar os cuidados.
— Ainda bem que esse bilhete, ela não leu, depois de tudo que ela passou, acho que é a única coisa que ela não deve ler agora.
Katleia ouviu da porta da cozinha. Viu o pai guardar o bilhete, viu Helena apertar seus ombros, viu os meninos brincando como se o mundo não estivesse prestes a pegar fogo.
Ela não disse nada. Apenas entrou, pegou um copo d'água, e sorriu para os dois.
— O jantar está quase pronto?
Helena a encarou por um momento. Depois, devolveu o sorriso.
— Sim. Senta. Vamos comer juntos.
A mesa estava posta com a simplicidade que Katleia aprendera a amar.
Louça branca sem muitos enfeites, talheres de alumínio, um jarro de suco de laranja no centro. Os meninos disputavam quem contaria primeiro o que aprenderam na escola.
Lucas, o mais velho, de oito anos, tagarelava sobre uma prova de ciências. Davi, de seis, mexia no arroz com o garfo, os olhos preguiçosos de quem estava à beira do sono.
Helena serviu o ensopado fumegante, a receita da avó, ela dizia.
Sebastião cortava o pão, a barba grisalha iluminada pela luz amarela do abajur.
Katleia se sentiu ali como sempre deveria ter estado.
— Katleia — Helena disse, limpando a boca no guardanapo —, seu pai quer te mostrar uma coisa.
Sebastião fez um gesto com a cabeça, e Helena se levantou. Foi até a cômoda antiga no canto da sala, abriu a gaveta de baixo, e retirou um envelope pardo, grosso, amarelado pelo tempo.
Ele parecia pesar mais do que o papel deveria pesar.
Helena colocou o envelope sobre a mesa, empurrando-o gentilmente em direção a Katleia.
— O que é isso? — Katleia perguntou, os dedos já tocando a superfície áspera.
— Abra — Sebastião disse.
Ela abriu.
Dentro, havia notas. Muitas notas. Cédulas antigas, algumas que ela mal reconhecia, com cores desbotadas. Havia notas novas também, amontoadas, dobradas com um cuidado obsessivo, como se cada uma tivesse sido passada a ferro antes de ser guardada.
O cheiro do papel velho subiu até suas narinas.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!