Cap. 142
Hora da Colheita
Ela estava no quintal, ajudando os meninos a molharem as plantas com a mangueira. Lucas ria enquanto a água escapava entre seus dedos.
Davi corria em círculos, tentando pegar as gotas com a boca aberta. Uma cena banal. Uma cena feliz.
Mas ela não conseguia ignorar a picada entre as omoplatas.
A sensação de estar sendo observada.
Katleia ergueu os olhos para a rua.
O movimento estava estranhamente escasso. Um carro passou devagar demais. Uma senhora varria a calçada em frente à casa ao lado, mas seus olhos não estavam na vassoura, estavam nela.
Paranoia, pensou. É só paranoia.
Ela sorriu para os meninos e entrou em casa.
No quarto, sentou-se diante do laptop. A página em branco piscava, esperando. Começou a escrever. As palavras fluíam como água.
O mundo exterior deixou de existir.
Ela não ouviu os carros passando. Não ouviu o silêncio se alongando. Não percebeu as horas escorrendo como areia entre os dedos.
Apenas escrevia.
— Katleia!
A voz de Helena a trouxe de volta. A madrasta estava na porta do quarto, os meninos já calçados e com as mochilinhas nas costas.
— Vou levar eles ao posto para a vacinação de rotina. Vamos aproveitar que o movimento está baixo. Você quer vir?
Katleia olhou para a tela. O capítulo estava no clímax. A protagonista estava prestes a descobrir a verdade.
— Não, obrigada — respondeu com um sorriso. — Vou avançar mais um pouco. Está tudo bem, eu fico aqui.
Helena hesitou. Seus olhos percorreram o quarto, a janela entreaberta, a porta da rua.
— Tem certeza?
— Tenho. Fiquem tranquilos. Voltem logo.
Helena a observou por mais um segundo. Depois sorriu, um sorriso que não escondia completamente a preocupação.
— Qualquer coisa, grita. A vizinha está em casa.
— Pode deixar.
A porta da frente se fechou. O barulho do carro se afastou.
E o silêncio instalou-se como um cobertor pesado demais.
Katleia voltou a escrever.
Mais de duas horas se passaram, ela tinha ate estranhando que eles ainda não tinham chegado.
— será que um posto vazio demora tanto assim? Que estranho.
O sol já começava a descer, pintando o quarto em tons alaranjados. Katleia estava imersa, os dedos voando sobre o teclado, quando o som a atingiu.
Creck.
Não foi alto. Foi um rangido seco, como madeira cedendo sob um peso calculado. Veio da sala.
Ela parou. Os dedos congelaram sobre as teclas.
— Gente? — chamou, a voz saindo num fio. — Vocês voltaram cedo?
Silêncio.
Katleia se levantou devagar, um sorriso automático nos lábios. Talvez os meninos estivessem pregando uma peça. Talvez Helena tivesse esquecido a chave.
— Por que não ouço nada? — disse, tentando soar mais firme do que se sentia.
Ela saiu do quarto.
A sala estava escura. As cortinas, que ela deixara abertas, agora estavam semi-cerradas, bloqueando a maior parte da luz. No canto, perto da entrada da cozinha, um vulto se moveu.
Não os meninos nem Helena.
Era um homem. Alto, de ombros largos, imóvel como uma estátua usando roupas negras e rosto coberto.
O sangue de Katleia gelou.
O vulto correu para a cozinha, um movimento rápido, preciso, como se conhecesse a casa.
O grito ficou preso na garganta.
Ela recuou. Os pés descalços escorregaram no piso frio.
Entrou no quarto às cegas, as mãos tateando a parede em busca da maçaneta. Conseguiu fechar a porta. Trancou. As costas bateram na madeira, o coração martelando contra as costelas como um animal enjaulado.
Telefone. Onde está o telefone?
A escrivaninha. O celular estava na escrivaninha.
Ela avançou, os dedos trêmulos agarrando o aparelho. Discou os três dígitos — 1, 9, 0 — enquanto a respiração se tornava um soluço contido.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Quarto errado, Mafioso certo!