Emily
A claridade do quarto me desperta, os raios de sol atravessando a janela como um lembrete de que o tempo melhorou.
Meus olhos encontram o rádio-relógio: Dez horas.
— Nossa, dormi bastante... — murmuro, sem ânimo.
Uma sensação de mal-estar me atinge como um soco no estômago. Okan. Cada momento daquela noite se repete na minha mente. Não dormi quase nada, passei horas revirando na cama, pensando nele. Em nós.
Ele não sabe, mas eu não me entreguei por mera luxúria. Não foi um capricho ou uma aventura. Algo dentro de mim me levou até ele. Dei muito mais do que meu corpo naquela noite.
Se fosse apenas desejo, por que me sinto assim? Por que a rejeição que vi em seus olhos me machuca tanto?
Seria mais fácil se eu tivesse negado tudo. Se tivesse virado as costas ao desejo. Mas agora estou aqui, vazia. Triste.
Deus, ainda vejo aquela expressão de culpa no rosto dele, como se não soubesse o que fazer com a revelação da minha entrega. E, de alguma forma absurda, isso só me fez gostar mais dele.
Outro homem teria se sentido o máximo, penso, com amargura. Mas ele não. Isso me confunde mais ainda.
Balanço a cabeça, tentando afastar os pensamentos. Preciso reagir. Vou até o banheiro, lavo o rosto e escovo os dentes. Penteio os cabelos com força, como se pudesse desembaraçar também o turbilhão na minha mente. Capricho no visual: sombra nos olhos, lápis, uma blusa branca de cashmere e uma calça marrom de veludo. Preciso parecer segura, agir como se tudo estivesse bem.
Vou embora. Decidi.
Arrumo as malas rapidamente — um sinal de que nunca me senti realmente aqui. Verifico as mensagens no celular. Minha mãe me mandou uma selfie na lareira acesa. Escrevo de volta:
Linda. O tempo aqui melhorou. Quando a neve derreter, estou indo para casa.
Saio do quarto. Arrasto minha mala pelo corredor e entro na sala.
E ele está lá.
Okan.
Lindo de morrer, como sempre. Jeans escuro, camiseta preta e uma jaqueta de couro. Os cabelos molhados denunciam um banho recente, e o perfume dele — aquele perfume que me enlouquece — chega até mim antes que eu consiga me preparar.
Meus olhos percorrem o homem que me fez perder o rumo. O peito aperta, o coração descompassa, e o fôlego me falta. Deus, como ele consegue me afetar tanto?
Ele pousa o jornal no sofá e se levanta. Seus olhos deslizam pelo meu corpo, me queimando de cima a baixo. Eu preciso ir embora. Preciso!
Procuro disfarçar o nervosismo.
— Bom dia. Onde estão todos? — pergunto, a voz mais fraca do que eu gostaria.
— Bom dia. Ômer e Kayra foram buscar o bolo de aniversário da nossa cozinheira. — Ele diz, e então vejo seus olhos pousarem nas minhas malas. Seu semblante muda. Fica sério. Duro.
— Bonito gesto de Kayra — respondo, tentando soar casual.
Ele assente, mas não se move.
— Verdade. Resolveu ir embora?
Respiro fundo.
— Sim. Resolvi. Despede-se de Kayra por mim. Estou indo.
Ele fica calado por um instante. Um silêncio que me pesa no peito.
— Por que está fugindo?
Minhas mãos tremem levemente enquanto aliso o tecido da minha blusa, nervosa.
— Eu... não estou fugindo. Apenas tomei uma decisão.
O olhar dele escurece, sombrio, me atravessando como uma faca. Sinto vontade de correr até ele, de esquecer o mundo e me jogar nos seus braços.
— A neve está alta — ele diz, seco.
E a tensão se instala entre nós.
A porta se abre. Kayra aparece ao lado de Ômer, que carrega um grande bolo com a ajuda de um empregado. O sorriso fácil de Ômer é como um raio de sol cortando a tensão, mas logo se dissipa quando seus olhos encontram minha mala. Ele segue para a sala de jantar, enquanto Kayra fica parada, observando-me com um semblante fechado.
— Você não vai embora agora, vai? — a voz dela soa como um desafio, mas também como um pedido.
Solto o ar, tentando me manter firme.
— Só vou esperar a neve derreter mais.
Ela estreita os olhos, claramente desconfiada.
— Por que a pressa?
Meu coração dispara, me traindo. A pergunta dela é simples, mas carrega um peso que me deixa sem chão.
— Eu... — As palavras me fogem, mesmo depois de ter ensaiado tantas vezes o que dizer. Por que, Deus? Minha desculpa agora parece ainda mais esfarrapada.
— Ele não acordou bem hoje. Okan teve que carregá-lo até o quarto.
A dor que vi nos olhos dele agora faz sentido. Um aperto estranho toma conta do meu coração. Primeiro, pelo senhorzinho que sempre me tratou com gentileza. E depois, por Okan. Até agora, eu acreditava que aquele olhar sofrido tinha algo a ver comigo. Como fui ingênua...
— Que triste. Sinto muito.
— Eu também. É triste mesmo.
Um silêncio pesado se instala entre nós, mas logo é interrompido pela entrada de Ômer. Ele para na porta, os olhos descendo direto para a minha mala.
— Não vai me dizer que vai embora?
Lanço um olhar rápido entre os dois. Por que é tão difícil sair daqui?
— Não vai com essa neve toda, vai? — ele pergunta, com uma expressão preocupada.
— Não, claro que não. Mas, do jeito que o sol está brilhando, até à tarde a neve já terá derretido o suficiente.
— Fique hoje — ele insiste. — Amanhã você vai embora com mais segurança.
As palavras dele me atingem como uma oferta tentadora, mas perigosa. Sinto-me dividida entre a razão e a vontade insana de ficar.
Não respondo. Apenas o encaro, em silêncio. Às vezes, o silêncio é a única saída.
Kayra, porém, não deixa o assunto morrer:
— Já tomou café?
— Não...
Ela arregala os olhos, como se aquilo fosse um crime.
— Allah! Vamos até a cozinha. Ômer, leve a mala da Emily de volta ao quarto dela. Está resolvido. Ela vai ficar mais um dia. É arriscado sair agora.
— Ela está certa — Ômer completa, sorrindo com seu jeito gentil. — Não deixaremos você ir embora hoje, Emily.
Meu coração aperta. Não posso ir, mas também não quero ficar. Olho para a porta do corredor por onde Okan desapareceu, e o peso da proximidade me deixa sem ar.
Será que ele sente o mesmo? Ou sou só eu que carrego essa tempestade no peito?
De alguma forma, Kayra e Ômer venceram. Um dia a mais. Um dia a mais em que tudo pode desabar dentro de mim.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Romance Proibido
Não consigo liberar para leitura, mesmo tendo saldo disponível....
Fiz a compra e não desbloqueia para ler , falta de respeito com o leitor!!!...