Edgar caminhava sem perceber o próprio caminho pelo Central Park. Os passos eram lentos, arrastados, como se o corpo tivesse envelhecido anos em poucas horas. O barulho distante da cidade não o alcançava. Tudo parecia abafado, como se ele estivesse submerso.
Sentou-se no gramado, encostado no tronco de uma árvore, de frente para o lago. O reflexo da água era calmo demais para alguém que sentia o mundo ruir por dentro.
Respirou fundo.
Não adiantou.
As mãos tremiam quando tirou o diário de Laura da pasta. Por um instante, hesitou. Como se já soubesse que cada palavra dali arrancaria mais um pedaço dele.
Abriu.
“Depois de anos sem saber nada de Edgar, ele reapareceu na boate onde eu estava.
Achei que fosse morrer.”
Edgar fechou os olhos por um segundo. Lembrou-se daquela noite. Do impacto de vê-la. Do descontrole. Do ciúme que o tomou sem aviso.
“Ele está mais forte, mais sedutor. Meu Nego está mais lindo.
Tudo o que sinto por ele pareceu se multiplicar naquele instante.”
— Exatamente… — murmurou, baixo demais para alguém ouvir.
Mas as linhas seguintes o atingiram com força.
“Eu estava pronta para ir embora com um boy que tinha acabado de conhecer… mas Edgar não deixou. Por conta da minha resistência, ele me colocou no ombro e me carregou como se eu fosse um saco de batatas.O ciúme dele sempre me desarma. Ele ainda me ama, tenho certeza.”
Edgar parou de ler por alguns segundos. O coração batia errado. Forte demais. Dolorido demais. Ele apoiou o cotovelo no joelho e passou a mão pelo rosto, como se aquilo pudesse acordá-lo daquele pesadelo.
Quando leu “Ele ainda me ama, tenho certeza”, os lábios tremeram.
— Não posso te esquecer… — sussurrou, com a voz quase inexistente. — Você é meu grande amor.
“Fomos para uma suíte de hotel luxuosa, mas se fosse um lugar simples eu não me importaria, porque o importante para mim era estar ao lado dele.
Transamos horrores. Era um contraste entre o amor e o ódio. Depois… depois fizemos amor. Ficamos juntos de um jeito que só nós dois sabemos. Foi intenso, foi íntimo, foi nosso.
Tomamos banho juntos pela primeira vez. E foi tão bom. Nos entregamos novamente embaixo d’água.”
Mas a frase seguinte o atingiu em cheio.
“Mas eu o odiei quando ele me obrigou a tomar a pílula do dia seguinte.”
Edgar fechou os olhos. A lembrança veio crua: ele insistindo, achando que aquilo era o certo naquele momento… sem imaginar o que ela carregava sozinha.
— Eu só queria resolver nossas pendências primeiro para começarmos do zero… — murmurou, engolindo em seco. — Sempre quis um filho com você, amor. Só que eu estava te ferindo de novo e não sabia.
“Ali, mais uma vez, ele deixou claro que não queria um filho comigo.
Então veio a frase que rasgou tudo.
“Mal sabe ele que eu não posso mais engravidar.”
O tempo travou.
Literalmente.
Edgar ficou imóvel, olhando para aquelas palavras como se estivessem escritas em outra língua. A respiração travou. O peito doeu de um jeito novo, profundo, físico.
— Não pode… engravidar… — repetiu, devagar. — Mas por que você não pode engravidar?
A mão que segurava o diário começou a tremer. Ele lembrou das reações dela. Da raiva. Da agressividade. Do olhar revoltado e cheio de dor sempre que ele tocava no assunto filhos.
— Eu voltei com uma filha… — a voz falhou. — E pedi que você a aceitasse… — engoliu em seco. — Por isso você reagia assim… Não era rejeição.
Era dor.
Era medo.
Era uma ferida aberta.
Respirou fundo e voltou a ler.
“Eu me odeio por ter tomado aquela pílula, mas se não tomasse ele faria perguntas. Nós nunca escondemos nada um do outro. Porém, ainda não estou preparada para falar que o aborto que me obrigaram a fazer deixou uma sequela irreversível. Fora que ele mandou eu abortar naquela carta.”
Edgar sentiu o ar faltar.
O mundo pareceu girar por um segundo, como se o chão tivesse cedido sob os pés.
— Não… — murmurou, em negação, a voz falhando. — Não pode ser…


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