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Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango ) romance Capítulo 686

~ BIANCA ~

O telefone ainda estava quente na minha mão quando eu desliguei.

Por um segundo, eu fiquei parada na sala, vendo Bella encolhida no abraço do Nico, como se aquele gesto fosse o único lugar seguro do mundo. E talvez fosse mesmo.

Eu não podia jogar “incêndio” em cima daquilo sem antes preparar o chão.

Fiz um sinal curto para Nico e ele entendeu na hora.

— Filha, escolhe um desenho — ele disse, baixo, como quem sugere uma coisa normal. — A gente já volta, tá?

Bella assentiu sem olhar muito, o controle na mão, o dedo passando pelas opções com uma seriedade que me partiu por dentro. Criança quando tenta ser “forte” vira adulta por alguns segundos e isso nunca devia ser necessário.

Eu e Nico fomos para a cozinha.

— Era o Dante — eu disse.

Nico passou a mão pelo rosto, já cansado antes de ouvir.

— O que foi agora?

— Ele ligou da Tenuta. Algo sobre o incêndio.

Eu vi a mandíbula dele travar.

— O quê exatamente?

— Ele não disse por telefone. Só… — eu respirei, sentindo o peso do que eu estava repetindo — que era uma novidade importante. E que a gente ia querer ir pra lá.

Nico ficou alguns segundos calado, e eu vi o corpo dele reagir antes da voz: ombros descendo, como se fosse tudo que ele não precisava. E era.

Mas ele era Nico.

— Tá. — Ele soltou o ar devagar. — Eu vou ligar pra minha mãe. Pedir pra ela ficar com a Bella.

Eu mordi o lado de dentro da bochecha, pensando rápido.

— Ou… — eu disse, e a ideia saiu quase antes de eu decidir — a Bella pode ir com a gente.

Nico me olhou como se eu tivesse proposto levar um vaso de cristal para o meio de uma tempestade.

— Bia…

— Eu sei. — Eu levantei a mão, pedindo um segundo. — Eu sei que ela ainda pode estar… pouco receptiva comigo. Mas talvez justamente por isso.

Ele ficou quieto, esperando eu terminar.

— A Tenuta é um lugar que ela gosta. É aberto, tem espaço, tem cheiro bom… tem lembrança. E a gente não precisa transformar isso num “programa sério”. Pode ser… só uma ida. E depois a gente faz algo legal com ela. Um gelato, sei lá. O que ela quiser.

Nico franziu a testa.

— Você tem certeza? — ele perguntou, e tinha honestidade ali. — Depois de tudo… ela pode te cortar de novo.

Eu engoli seco.

— Então a gente precisa mudar isso — eu disse. E era verdade. — Eu não vou ganhar essa guerra tentando ser invisível. E eu também não vou deixar a Renata decidir que tipo de família a gente pode ser.

Ele me estudou por um segundo. Aí assentiu.

— Tá. — A voz dele ficou mais firme. — Então vamos.

Voltamos para a sala como dois adultos fingindo normalidade.

— Bella — Nico chamou, com a voz mais leve que conseguiu. — A gente vai dar uma volta rápida na Tenuta. O Dante ligou… parece que tem uma coisa pra ver lá. Você quer ir junto?

Bella virou devagar. O olhar dela passou por mim como se eu fosse uma pergunta sem resposta.

Eu me abaixei um pouco, para ficar na altura dela.

— Se você não quiser, tudo bem — eu disse, antes que ela sentisse que era obrigação. — Mas… tem uva. E espaço. E você pode escolher a música no carro.

O canto da boca dela se mexeu, como se estivesse considerando com seriedade.

— Eu posso escolher a música? — ela perguntou.

— Pode — Nico confirmou, rápido. — Mas sem repetir a mesma cem vezes.

— Mas você repete — ela retrucou, e eu vi o primeiro lampejo da Bella “normal” aparecer.

Nico fez uma careta teatral.

— Eu sou consistente. É diferente.

Ela soltou um arzinho pelo nariz. Quase uma risada.

Eu guardei aquilo como quem guarda água no deserto.

Minutos depois, estávamos no carro.

Nico dirigia com aquela concentração de quem está tentando segurar o mundo com as duas mãos. Eu no banco do carona, Bella atrás, com o cinto ajustado.

Ela escolheu uma música qualquer — infantil, repetitiva — e eu deixei.

Os primeiros quilômetros foram silêncio confortável e desconfortável ao mesmo tempo.

— Você quer parar pra comprar aquele doce que você gosta no caminho? — perguntei, virando um pouco o corpo no banco, só o suficiente pra ela me ouvir sem sentir que eu estava “em cima”.

Bella olhava pela janela como se a paisagem fosse mais interessante do que qualquer pessoa dentro do carro.

— Não.

Nico segurava o volante com força demais para alguém que dizia estar bem. Eu via isso no jeito como os dedos dele ficavam brancos e depois voltavam à cor, como se ele estivesse apertando e soltando um pensamento.

Eu tentei outra.

— Na Tenuta tem aquele caminho de pedrinhas… a gente pode andar de bicicleta.

— Tanto faz.

Não era grosseria, era defesa. Bella estava sendo exatamente o que uma criança faz quando não quer dar acesso: econômica.

Fiquei quieta por alguns segundos, respeitando o “tanto faz” como quem respeita uma porta fechada.

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