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Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango ) romance Capítulo 688

~ NICO ~

Três dias era pouco tempo para alguém se recompor.

Mas era tempo suficiente para o mundo decidir o que queria fazer com a gente.

O Conti ligou no meio de uma manhã que eu estava tentando fingir que era normal — o tipo de normal em que eu assino coisa de obra, respondo mensagens de fornecedor, e finjo que a minha cabeça não está dividida em duas: uma parte trabalhando, a outra contando quantas vezes a Bella piscou diferente desde a entrevista.

— Montesi? — a voz dele veio direta, sem “bom dia — Saiu a audiência da provisória.

Eu parei onde estava. O som do canteiro virou um zumbido.

— Quando?

— Hoje — pausa curta. — Duas horas.

Eu senti o chão dar aquela… cedida. Não é que eu fosse cair. Eu só… percebi o peso do corpo, de repente. Aquele lembrete físico de que eu não estava no controle.

— Hoje…

— É. E eu preciso que você esteja aqui. — A voz dele baixou. — Com calma. Sem improviso. Entendeu?

Eu olhei para o céu cinza e pensei: sem improviso. Na minha vida, ultimamente, tudo era improviso.

— Entendi.

Desliguei e fiquei alguns segundos parado. Respirando do jeito que eu ensinava para a Bella quando ela estava ansiosa: inspira pelo nariz, solta pela boca. Só que eu não tinha sete anos, e respiração não fazia milagre.

Peguei o carro e dirigi até Florença como se eu estivesse indo buscar uma parte do meu corpo que eu tinha deixado esquecida em algum lugar.

A Bianca abriu a porta antes de eu bater. Como se já soubesse. Como se, desde o dia em que ela entrou na minha vida, ela tivesse desenvolvido esse radar para quando eu estivesse prestes a quebrar.

Ela estava de moletom, cabelo preso de qualquer jeito, mas ainda assim parecia… Bianca. A mulher que o mundo via como gigante. A mulher que naquele momento estava com o rosto mais humano que eu já tinha visto.

— Conti? — ela perguntou, e foi só uma palavra, mas nela cabia tudo.

Eu assenti.

— Audiência da provisória. Hoje.

O silêncio entre nós não foi vazio. Foi cheio de “e se”, cheio de “como”, cheio de “ela vai fazer o quê agora?”.

Bianca encostou a ponta dos dedos no meu braço, um toque pequeno, como quem segura uma coisa em risco de cair.

— Você quer que eu vá?

Era uma pergunta que parecia simples. Mas tinha um mundo ali. “Você quer que eu vá” era: você me quer do seu lado quando tentarem tirar a sua filha? Você me quer na linha de tiro?

E eu queria. Mas do que querer, eu precisava. Mas também tinha medo. Medo de que a presença dela virasse argumento.

— Quero — eu disse, e a honestidade saiu antes do cálculo. — Mas… você não precisa, se não quiser.

Ela deu um sorriso curto, sem humor.

— Nico, eu não vou te deixar ir sozinho.

Eu vi a decisão no olhar dela. Aquele jeito Bellucci de escolher e pronto.

No caminho, a cidade parecia… errada. Florença era bonita demais para o que eu estava sentindo. As pessoas caminhando, tomando café, rindo. Como se o mundo não estivesse prestes a decidir se eu era pai “suficiente”.

Eu mantive as mãos no volante com força demais. Bianca reparou.

— Respira — ela disse baixo, como se eu fosse a Bella. Mas sem me diminuir. — Você não pode entrar lá tremendo.

— Eu não estou tremendo.

— Certo — ela aceitou a mentira sem discutir. — Mas sua mão tá branca.

Eu soltei um pouco o volante, como se isso fosse resolver. Não resolveu.

O tribunal era um prédio que eu já tinha visto por fora, de longe, como quem vê tempestade no horizonte. Por dentro, era pior. Frio. Mármore. Eco. Um lugar onde as vozes pareciam ficar menores.

O Conti estava esperando perto da entrada, terno escuro, pasta na mão, aquela cara de quem dorme com processo embaixo do travesseiro.

O tempo passou de um jeito cruel, porque não era um tempo real. Era um tempo que te faz ouvir seu próprio coração batendo na garganta.

Até que uma porta abriu e uma funcionária chamou nossos nomes.

Eu me levantei como se estivesse indo para um julgamento de quem eu era.

Bianca se levantou junto, e eu instintivamente segurei a mão dela por um segundo, em um pedido silencioso de “não me deixa sozinho”.

Mas nosso advogado fez sinal para ela ficar. Ela assentiu, mas seus olhos ficaram fixos em mim.

Renata passou por nós com o passo de quem desfila. O advogado dela carregando uma pasta como se fosse uma espada.

A sala era menor do que eu imaginava. Mais íntima, mais sufocante. Uma mesa ao centro, cadeiras, paredes claras. Nada grandioso. Só o suficiente para decidir uma vida.

O juiz entrou e todos se levantaram. Um homem de rosto cansado, voz neutra, como se ele tivesse ouvido as mesmas dores mil vezes.

Voltamos a nos sentar depois dele se ajeitar.

Conti falou primeiro. Objetivo. Sem drama. Eu mal ouvi as palavras, só reconhecia o ritmo: “estabilidade”, “rotina”, “bem-estar”, “interesse superior”.

O advogado de Renata respondeu com aquela voz ensaiada de indignação controlada. Falou de “instabilidade emocional”, de “mudança recente”, de “influências”. Eu quis levantar e gritar que aquilo era mentira. Que a instabilidade tinha nome e estava sentada ali.

Mas eu respirei e não dei a cena a ela.

O juiz me fez duas perguntas diretas. Eu respondi direto. Sem atacar Renata. Só descrevendo meu cotidiano com Bella. Meu compromisso. Meu amor.

Depois o juiz olhou para Renata e fez perguntas parecidas. Ela respondeu como se tivesse decorado cada frase com alguém.

E então, finalmente, ele baixou os olhos para um papel. Uma folha na frente dele. O relatório. O maldito relatório.

Ele ficou alguns segundos lendo em silêncio, e eu senti minhas mãos começarem a suar.

O juiz levantou o olhar.

— Com base na avaliação técnica e no bem-estar da menor, defiro o pedido de medida provisória, estabelecendo residência temporária com...

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