~ BIANCA ~
Acordei em uma cama desconfortável.
O colchão era firme demais, afundando nos lugares errados. Os lençóis tinham aquela textura áspera de tecido lavado mil vezes, pinicando levemente contra minha pele. O quarto era pequeno, apertado, com móveis que tinham visto décadas melhores e papel de parede desbotado nas bordas.
Tudo tão diferente da minha suíte espaçosa em Florença, com seus lençóis egípcios de mil fios e colchão ortopédico que tinha custado mais do que alguns carros. Tão diferente do conforto ao qual estava acostumada.
Mas ainda assim, de alguma forma estranha e inexplicável, sentia como se fosse familiar. Familiar de uma forma agradável, acolhedora, que me fazia querer ficar ali deitada apenas mais alguns minutos, envolta naqueles lençóis ásperos mas limpos, ouvindo o som distante do vento lá fora.
As memórias estavam todas lá agora. Bem onde deveriam estar. Organizadas, catalogadas, acessíveis. Toda a minha vida como Bianca Bellucci, atual COO da Bellucci Itália.
Lembrava de tudo. Do escritório em Florença. Das reuniões intermináveis. Das planilhas e projeções e estratégias de mercado. Da satisfação fria e calculada de fechar um negócio particularmente difícil. Da forma como Christian confiava em mim para executar suas visões, para transformar ideias em lucros.
Lembrava da missão que me trouxe aqui. Avaliar a Tenuta Montesi. Descobrir se valia a pena adquiri-la, quanto oferecer, como convencer a família a vender. Disfarçada como Bianca Ricci, consultora de marketing, porque Christian queria discrição absoluta.
Mas algumas memórias eram mais dolorosas do que outras. Memórias que eu tinha cuidadosamente guardado em uma gaveta trancada no fundo da minha mente pelos últimos seis anos.
Mas agora a gaveta tinha se aberto. Tinha se escancarado com a mesma violência que todas as outras quando minha memória voltou em uma avalanche na cabana. E agora se recusava a ser trancada novamente. As memórias vazavam, insistentes, dolorosas, impossíveis de ignorar.
As lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto antes que eu pudesse impedi-las. Quentes, salgadas, molhando o travesseiro áspero. Chorei baixinho, tentando ser silenciosa, não querendo que ninguém ouvisse. Não querendo ter que explicar por que estava chorando quando teoricamente deveria estar aliviada por ter recuperado minha memória.
— Tia Bia?
A vozinha fez meu coração parar por um segundo.
Abri os olhos rapidamente, girando a cabeça na direção do som, e encontrei Bella sentada no cantinho do quarto, em uma cadeira próxima à janela. Ela estava tão quietinha que eu nem tinha percebido sua presença.
— Tá doendo? — perguntou ela, sua voz pequena e preocupada
Rapidamente sequei as lágrimas com as costas da mão, tentando compor meu rosto em algo que não assustasse a criança.
— Não, meu amor — disse, minha voz saindo rouca. — Estou bem.
Bella desceu da cadeira, seus pezinhos batendo suavemente no chão de madeira enquanto se aproximava da cama. Ela parecia tristinha, seus olhinhos brilhando com algo que poderia se transformar em lágrimas a qualquer momento.
— Papai disse que eu podia ajudar a tomar conta enquanto você dormia — explicou ela, parando ao lado da cama e me olhando com aquela seriedade que crianças às vezes têm. — Disse que você tinha ficado muito cansada e precisava descansar.
Sentou-se na beirada da cama, com cuidado, como se tivesse medo de me machucar. Então enfiou a mãozinha no bolso do vestido e tirou algo que fez meu coração apertar dolorosamente.
O colar. A corrente de ouro com a estrela que eu tinha dado para ela.
— Ele também disse para eu te devolver isso — disse Bella, suas palavras saindo lentas, carregadas de tristeza. — Porque você vai embora.
Estendeu a mãozinha, oferecendo o colar de volta.
Bella se aninhou mais contra mim, seus bracinhos envolvendo meu pescoço.
— Você não tá feliz? — perguntou, e havia tanto peso naquela pergunta simples.
Havia a dor profunda daquela menina tão nova que tinha ouvido palavras tão cruéis da própria mãe. Palavras que a tinham marcado de formas que provavelmente levaria anos de terapia para desembaraçar.
Mas o pior, o absolutamente pior, foi me dar conta de algo que meu cérebro racional tentou imediatamente rejeitar mas meu coração já sabia ser verdade.
Eu estava feliz. Tinha sido feliz.
Feliz tendo um noivo que cuidava de mim com carinho genuíno, que me segurava quando tinha pesadelos, que dirigia em uma nevasca perigosa só para me levar ao médico. Feliz tendo uma menininha especial que me tinha adotado com todo seu coração aberto e generoso, que fazia colar de miçangas e queria me mostrar seus desenhos animados favoritos. Feliz tendo um lugar para viver onde nem tudo era sobre trabalho, planilhas, margens de lucro e estratégias de mercado.
Tinha sido feliz mesmo que tudo tivesse sido construído em cima de um castelo de gelo que derreteu ao primeiro toque da realidade.
— Eu tô feliz — murmurei contra o cabelo de Bella, minha voz mal audível. — Eu tô muito feliz.
Bella se afastou apenas o suficiente para olhar para o meu rosto, seus olhinhos estudando cada detalhe como se estivesse procurando por mentiras.
Então ela sorriu. Um sorriso pequeno mas genuíno, cheio de esperança.
— Então fica.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango )
Acabou foi? Não entendi nada.....
Primeira vez que leio um livro do início ao fim, na qual flutuei imaginando até os cenários. Vou sentir saudades 🥺...
Cadê os extras, autora?...
Nao to gostando do desfecho, simplesmente a mae de bela some depois de várias maldades inescrupulosas, ai do nada vem a calmaria. Os outros livros amei, mas esse nao ta prendendo a atencao. To lendo pra concluir mesmo....
A autora, você vai colocar o extra que falou, aqui?...
Me cobro el capitulo y no me deja leerlo....
Ja deu, né?! Quanto tempo mais a bandidagem vai se dar bem?! Ja nao ta mais colando essas artimanhas da Renata em juizo, nem a pau isso aconteceria no Brasil se do outro lado estivesse um pai e filha abandonados e uma familia poderosa como a da Bianca ... ja esta muito surreal essa narrativa....
Tudo q essa vaca da Renata faz da certo. Q ódio! Mulher ruim. Não vejo a hora dela se estrepar muito....
Gente pra comprar 200 moedas é 2 reais ou 2 dolares ? O simbolo ta ($)...
Essa Renata é repugnante! Affe...