~ BIANCA ~
Ajustei o retrovisor do meu carro enquanto a voz de Christian ecoava pelo viva-voz, repetindo pela terceira vez os detalhes da identidade falsa que havíamos construído juntos.
— Bianca Ricci — recitou meu irmão com paciência exagerada. — Consultora de marketing digital especializada em turismo rural. Formada pela Bocconi, trabalhou com campanhas para pequenos negócios na Toscana e agora está em busca de novos clientes para montar portfólio independente.
— Eu sei, Christian — suspirei, desviando de um caminhão que subia a estrada estreita em velocidade de tartaruga. — Eu sei.
— Sei que você sabe — Christian fez uma pausa significativa. — Mas é a primeira vez que você faz algo assim, Bia. Preciso ter certeza de que vai sair tudo certo.
Apertei o volante com mais força, sentindo o couro macio ceder sob meus dedos enluvados. Sabia exatamente o que ele não estava dizendo: que normalmente contava com Marco para esse tipo de missão. Ou com Nathaniel quando precisava de sutileza extra. Que eu, como a mais nova COO da Bellucci, ficava segura atrás de uma mesa, analisando relatórios financeiros e coordenando estratégias corporativas.
Mas não desta vez.
Dessa vez Marco estava seguindo sua vida e Christian precisava de alguém que os Montesi não pudessem conectar aos Bellucci. Alguém capaz de avaliar a situação de dentro, com discrição absoluta. E eu estava determinada a provar que era tão capaz quanto meus primos.
— Vamos usar seu sobrenome do meio, da sua mãe — continuou Christian, como se lesse uma lista de compras. — Nada de mencionar os Bellucci, nada de...
— Christian — interrompi, incapaz de conter a frustração. — Não se preocupe. Tenho tudo mais do que decorado na minha mente. E, modéstia à parte, tive aulas de atuação com Meryl Streep.
Houve um segundo de silêncio do outro lado da linha.
— Sério?
— Claro — deixei escapar um sorriso travesso. — Maratonei todos os filmes dela cinquenta e sete vezes.
A risada grave de Christian atravessou a conexão, quebrando finalmente a tensão que pairava entre nós.
— Ok, futura indicada ao Oscar — disse ele, e pude ouvi-lo sorrindo. — Confio em você.
— Só não esqueça que o sinal lá, pelo que informaram, é péssimo — lembrei, observando as primeiras placas indicando Montepulciano. — Se eu não entrar em contato por uns dias, não precisa mandar a cavalaria. Em uma semana, como planejado, estarei de volta com todas as informações que você precisa.
— Se cuida, Bia. E lembra...
— Nada de chamar atenção, ser só uma turista interessada nos negócios locais, blá blá blá — completei. — Entendido, chefe. Agora vou desligar porque a estrada está ficando nevada e preciso prestar atenção antes de virar estatística de acidente de trânsito.
— Bianca...
— Tchau, Christian!
Encerrei a chamada antes que meu irmão pudesse adicionar mais uma recomendação à lista interminável. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo ronco suave do motor e o som abafado dos pneus sobre a neve compactada.
Diminuí a velocidade, deixando que meus olhos absorvessem a paisagem que se transformava ao redor. A Toscana no inverno era diferente das imagens de cartão-postal que dominavam as revistas de viagem. Sem os campos dourados de girassóis ou as videiras carregadas de uvas maduras, a região revelava uma beleza mais crua, quase melancólica.
As colinas ondulavam sob um manto irregular de neve, salpicado aqui e ali por ciprestes escuros que se erguiam como sentinelas solitárias. Os vinhedos, despidos de suas folhas, formavam padrões geométricos precisos nas encostas — fileiras e mais fileiras de troncos retorcidos que aguardavam pacientemente a primavera. Ao longe, envolta em névoa prateada, as torres medievais de Montepulciano emergiam como algo saído de um conto de fadas esquecido.
Era lindo. Quase mágico.
Mas também traiçoeiro.
O caminho até a entrada principal era uma escadaria de pedra com uns quinze degraus. Comecei a subir, puxando a mala atrás de mim. As rodinhas raspavam ruidosamente contra a pedra irregular.
Foi então que percebi: os degraus estavam molhados. Mais do que molhados — estavam com uma camada fina de gelo sob a neve fresca.
Eu deveria ter prestado atenção. Deveria ter ido mais devagar.
Mas estava concentrada demais em não parecer totalmente fora de lugar, em ensaiar mentalmente as primeiras frases que diria, em me lembrar de todos os detalhes da identidade falsa.
— CUIDADO!
A voz masculina cortou o ar — grave, urgente, vinda de algum lugar acima de mim.
Ergui os olhos instintivamente, tentando localizar quem havia gritado.
E foi meu erro.
O pé direito escorregou. Meu corpo perdeu o equilíbrio, braços se agitando inutilmente no ar em busca de apoio que não existia. A mala escapou da minha mão.
Caí para trás, o mundo girando em câmera lenta. Tive tempo de pensar, absurdamente: "Christian vai me matar."
Então minha cabeça bateu contra o degrau de pedra com um som oco e terrível.
E tudo apagou.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango )
Alguém me indica um livro parecido com esse. Gostei muito...
Eu queria um site pra ler todo o livro...
Acabou foi? Não entendi nada.....
Primeira vez que leio um livro do início ao fim, na qual flutuei imaginando até os cenários. Vou sentir saudades 🥺...
Cadê os extras, autora?...
Nao to gostando do desfecho, simplesmente a mae de bela some depois de várias maldades inescrupulosas, ai do nada vem a calmaria. Os outros livros amei, mas esse nao ta prendendo a atencao. To lendo pra concluir mesmo....
A autora, você vai colocar o extra que falou, aqui?...
Me cobro el capitulo y no me deja leerlo....
Ja deu, né?! Quanto tempo mais a bandidagem vai se dar bem?! Ja nao ta mais colando essas artimanhas da Renata em juizo, nem a pau isso aconteceria no Brasil se do outro lado estivesse um pai e filha abandonados e uma familia poderosa como a da Bianca ... ja esta muito surreal essa narrativa....
Tudo q essa vaca da Renata faz da certo. Q ódio! Mulher ruim. Não vejo a hora dela se estrepar muito....