~ NICOLÒ ~
Observei Bianca em silêncio enquanto ela tentava puxar pela memória. Podia praticamente ver as engrenagens da cabeça dela se forçando para funcionar, como se ela estivesse tentando abrir uma porta trancada sem ter a chave certa.
Seus olhos ficaram distantes, focados em algo que eu não podia ver. Sua testa se franziu levemente. Seus lábios se separaram como se as palavras estivessem ali, na ponta da língua, mas não conseguissem sair.
— Acho que sim — disse ela finalmente, sua voz incerta. — Quero dizer, sei que sim. Sei que é verdade. Mas... não lembro. Faz sentido?
Fazia. Fazia todo o sentido baseado em tudo que o Doutor Marchesi tinha explicado. Não era como se a memória dela fosse voltar toda de uma vez, como acender uma luz em um quarto escuro. Era gradual. Fragmentada. Pedaços e peças que iam se encaixando lentamente até formar o quadro completo.
E claramente era um bom sinal de que ela estava caminhando para esse lugar. Para a recuperação completa.
Era melhor continuar incentivando. Continuar buscando lugares de familiaridade para ela. Continuar... fingindo.
— Faz — respondi, mantendo minha voz firme. — Faz sentido. Sua memória deve estar querendo voltar.
O sorriso que iluminou o rosto de Bianca foi genuíno, caloroso.
— Graças a você — disse ela.
Respirei fundo, sentindo a culpa apertar meu peito.
— Bianca, você sabe que você ter caído daquelas escadas meio que foi por descuido da pousada, não é? — comecei, escolhendo as palavras com cuidado. — Quero dizer, eu estava indo colocar sal nas escadas, mas devia ter deixado uma placa com aviso de cuidado, devia ter...
Bianca riu, cortando minha espiral de culpa.
— Nico, eu tenho olhos — disse ela, balançando a cabeça. — Vi que estava perigoso. Vi o gelo, vi a neve. E mesmo assim resolvi subir com aquela mala pesada sem pedir ajuda.
Então seus olhos se arregalaram. Ficaram fixos em algum ponto distante, processando algo.
— Me lembro disso também — murmurou, quase para si mesma.
Meu coração deu um salto. Era bom que ela mantivesse esse pensamento quando recuperasse toda a memória. Bom que lembrasse que tinha sido um acidente, não negligência. Que não optasse por nos processar e destruir o pouco que ainda tínhamos.
Mas não disse nada disso em voz alta. Em vez disso, me inclinei para frente, encorajador.
— E o que mais você se lembra?
Vi Bianca pensar, seus olhos percorrendo o vazio enquanto procurava por mais fragmentos na escuridão da memória perdida.
— Que eu tinha uma coisa muito, muito importante para fazer aqui — disse ela lentamente.
Esperei, segurando a respiração.
Ela mordeu o lábio inferior, concentrando-se ainda mais intensamente antes de continuar:
— Conhecer sua família. Oficializar nosso noivado.
E sorriu. Aquele sorriso confiante de quem acabou de resolver um quebra-cabeça difícil.
Mas eu sabia o que ela estava fazendo. Reconhecia o padrão. Ela estava preenchendo lacunas com coisas que pareciam fazer sentido dentro da narrativa que sua mente havia construído.
Mas não faziam sentido. Não de verdade.
O que de tão importante ela tinha para fazer aqui? Trabalho, talvez. Mas então algum cliente não teria vindo procurar por ela quando não retornou? Não teria ligado, mandado mensagens, algo?
E normalmente as pessoas só vinham para a pousada para descansar pelo final de semana ou feriado prolongado. Mas Bianca tinha agendado uma semana inteira. O que fugia completamente do padrão dos nossos hóspedes habituais.
Havia algo que não se encaixava. Algo importante que eu estava perdendo.
Mas não podia pressionar. Não podia fazer perguntas que um noivo de verdade não faria.
— Melhor voltarmos — disse, empurrando aqueles pensamentos para o fundo da mente. — Bella está ansiosa para te mostrar o desenho favorito dela. E eu preciso levar mais um grupo para o tour da tarde.
Suspirei pesadamente e me abaixei para pegar a caixinha antes que ela pudesse alcançá-la.
— Queria ter feito algo romântico — disse, minha voz saindo mais rouca do que o normal. — Mas... acho que não sou esse tipo de pessoa.
Bianca balançou a cabeça imediatamente.
— Só de você ter escolhido algo pensando em mim já é romântico o suficiente.
Abri a caixinha. O anel brilhou sob a luz suave da adega — ouro delicado, a pedra central capturando e refletindo cada raio de luz em pequenos arco-íris.
O sorriso de Bianca se tornou enorme. Uma lágrima se formou no canto do olho dela, pendendo ali sem cair.
Me aproximei, tirei a caixinha da minha mão e segurei o anel entre os dedos. Peguei a mão dela — tão pequena, tão delicada — e trouxe o anel até a ponta do dedo anelar.
— Na verdade, eu não escolhi — comecei, deslizando o anel lentamente. — Era o anel de noivado da minha mãe. E... bom...
Não consegui completar. As palavras ficaram presas na minha garganta, carregadas com o peso de tudo que aquele gesto significava.
Mas Bianca entendeu. Talvez entendesse até mais do que deveria.
— Nico... — sua voz saiu sussurrada, reverente. — Isso é ainda mais romântico. Mais lindo!
O anel se encaixou perfeitamente, como se tivesse sido feito para ela.
— Saber que você acredita que eu sou digna de carregar a história da sua família — continuou Bianca, lágrimas agora escorrendo livremente pelo rosto. — Juro que vou honrar isso. E o nosso compromisso.
Então ela se aproximou, eliminou a distância entre nós com dois passos rápidos, e me beijou.
E dessa vez não foi só um selinho. Não foi um beijo casto e rápido como os outros que tínhamos compartilhado.
Foi um beijo cheio de intenção. Seus lábios pressionaram contra os meus com urgência, com desejo, com uma promessa de mais se eu permitisse.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango )
Acabou foi? Não entendi nada.....
Primeira vez que leio um livro do início ao fim, na qual flutuei imaginando até os cenários. Vou sentir saudades 🥺...
Cadê os extras, autora?...
Nao to gostando do desfecho, simplesmente a mae de bela some depois de várias maldades inescrupulosas, ai do nada vem a calmaria. Os outros livros amei, mas esse nao ta prendendo a atencao. To lendo pra concluir mesmo....
A autora, você vai colocar o extra que falou, aqui?...
Me cobro el capitulo y no me deja leerlo....
Ja deu, né?! Quanto tempo mais a bandidagem vai se dar bem?! Ja nao ta mais colando essas artimanhas da Renata em juizo, nem a pau isso aconteceria no Brasil se do outro lado estivesse um pai e filha abandonados e uma familia poderosa como a da Bianca ... ja esta muito surreal essa narrativa....
Tudo q essa vaca da Renata faz da certo. Q ódio! Mulher ruim. Não vejo a hora dela se estrepar muito....
Gente pra comprar 200 moedas é 2 reais ou 2 dolares ? O simbolo ta ($)...
Essa Renata é repugnante! Affe...