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Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango ) romance Capítulo 544

~ NICOLÒ ~

A princípio, pensei que não. Que não queria falar sobre aquilo. Que era pessoal demais, dolorido demais. Aquelas eram feridas que eu preferia manter enterradas em algum lugar profundo onde não pudessem me alcançar no dia a dia.

Nunca falava sobre Renata. Não de verdade. Não sobre o que tinha acontecido, sobre como me senti, sobre as marcas que aquilo deixou. Nem com minha mãe, que certamente sabia de tudo mas respeitava meu silêncio. Nem com Paola, que tinha estado lá e visto tudo acontecer. E definitivamente não com estranhos.

Preferia guardar as mágoas enterradas. Era mais fácil assim. Menos doloroso.

Mas então olhei para Bianca.

Para aqueles olhos azuis que me observavam com atenção genuína, sem julgamento, apenas... presença. Havia algo nela que passava tranquilidade. Conforto. Como se, de alguma forma, ela fosse um porto seguro onde eu podia finalmente descansar.

E se fosse sincero comigo mesmo, em alguns dias ela ia recuperar a memória. Ia descobrir a verdade. Ia embora. E nunca mais nos veríamos.

Talvez fizesse bem. Talvez fizesse bem finalmente poder desabafar com alguém que logo não estaria mais aqui para carregar o peso das minhas confissões.

— Nós éramos jovens quando nos conhecemos — comecei, minha voz saindo mais baixa do que o normal. — Em uma festa da cidade. Foram amigos em comum que nos apresentaram.

Bianca não disse nada. Apenas esperou, dando-me espaço para continuar no meu próprio ritmo.

— Não foi aquela paixão explosiva que nasce na primeira troca de olhares — continuei, girando o vinho restante na minha taça sem realmente vê-lo. — Primeiro nos tornamos amigos. Conversávamos muito, ríamos juntos. E então as coisas foram evoluindo quase naturalmente. Um dia éramos amigos, no outro estávamos nos beijando, e de repente estávamos namorando.

Fiz uma pausa, procurando pelas palavras certas.

— Éramos diferentes. Sempre fomos. Ela tinha um... um ar mais sofisticado. Comprava roupas e acessórios pelos quais não podia pagar e parcelava em mil vezes só para parecer que tinha mais dinheiro do que realmente tinha. Queria se encaixar em um mundo ao qual não pertencia. — Dei de ombros. — Mas ainda assim, eu a amava. E achava que ela me amava também.

— Vocês se casaram — Bianca disse suavemente, mais uma afirmação do que uma pergunta.

— Nos casamos. Tivemos Bella. — Um sorriso involuntário tocou meus lábios ao pensar na minha filha. — E por um tempo, foi bom. Renata tinha orgulho de me ter como marido, herdeiro de tudo isso. — Gesticulei vagamente para a adega ao nosso redor. — Quero dizer, não é muito, sabe? Mas talvez para ela, aqui onde vivemos, parecesse o suficiente. Parecesse... impressionante.

Tomei um gole do vinho, sentindo o líquido amargo descer pela minha garganta.

— Os negócios iam bem. Tínhamos uma vida confortável. Eu até podia pagar por alguns dos luxos dela. As roupas caras, as joias, as viagens ocasionais para Milão ou Florença. Até... — minha voz falhou por um momento — até meu pai falecer.

O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som distante da água pingando em algum lugar da adega.

— Foi repentino — continuei, forçando as palavras para fora. — Um ataque cardíaco. Ele estava trabalhando nos vinhedos de manhã e à tarde estava morto. E então... então descobrimos que os negócios não iam tão bem quanto parecia.

Bianca se aproximou levemente, sua presença oferecendo conforto silencioso.

— Meu pai fazia questão de esconder de nós todas as dívidas — expliquei. — Todas as dificuldades. Ele carregava tudo sozinho porque achava que era sua responsabilidade, que não devia preocupar a família. Mas a coisa estava tão feia que estávamos à beira de perder tudo.

Coloquei a taça sobre o barril com mais força do que o necessário.

— Foi quando tive que fazer empréstimos. Apertar os cintos. Trabalhar mais, desfrutar menos. Não havia mais dinheiro para as roupas caras, para as viagens, para os luxos. — Ri, mas não havia humor naquele som. — As coisas começaram a parecer menos... interessantes para Renata.

— Nico... — Bianca começou, mas levantei a mão.

— É por isso — disse, e havia uma dureza em minha voz agora — que não confio em gente que tem dinheiro. Eles sempre acham que podem comprar qualquer coisa. Qualquer pessoa. E no caso da Renata... — ri amargamente — ela realmente se deixou comprar. Como se nosso casamento, nossa família, nossa filha, fossem apenas mercadorias que podiam ser trocadas por algo melhor quando uma oferta mais interessante aparecesse.

Bianca me observava com atenção, absorvendo cada palavra.

— Gente com dinheiro acha que o mundo gira em torno deles — continuei, e sabia que estava generalizando, sabia que estava deixando minha amargura falar. — Que podem ter o que quiserem, quando quiserem, sem se importar com quem machucam no processo. Renata queria ser uma dessas pessoas tão desesperadamente que quando teve a chance, não hesitou nem um segundo em destruir tudo que tínhamos.

Respirei fundo, tentando acalmar a raiva que ainda queimava mesmo depois de todo esse tempo.

— Enfim — disse, passando a mão pelo rosto. — É passado. Mas... me preocupa que isso possa ter deixado marcas profundas na Bella. Que ela cresça achando que não é boa o suficiente, que há algo errado com ela, quando a verdade é que sua mãe que é... — não consegui terminar a frase.

Bianca se aproximou mais e, sem aviso, beijou meu rosto. Não foi um beijo romântico ou sedutor. Foi gentil, reconfortante, cheio de uma ternura que fez minha garganta apertar.

— Bella tem o melhor pai do mundo — disse ela com convicção. — Ela tem você, tem Martina, tem Paola, tem uma família que a ama incondicionalmente. Ela vai crescer sabendo exatamente o quanto é amada e o quanto vale.

Segurei o olhar dela, vendo apenas sinceridade em seus olhos.

— E acredite — Bianca continuou, um pequeno sorriso triste tocando seus lábios — digo por experiência própria. De alguém que teve o contrário. De alguém que teve um pai horrível e nada presente.

Aquelas palavras me atingiram como um tapa.

— Você se lembra? — perguntei, me virando completamente para encará-la.

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